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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

"Nem todos tiveram a sorte de ter um pai como o João"




"Nem todos tiveram a sorte de ter um pai como o João" disse Monsenhor Luigi Giussani sobre o Padre João Seabra.

Eu, graças a Deus, tenho a sorte de ser seu sobrinho pelo sangue e, uma graça ainda maior, de ser seu filho na fé.

Hoje o Padre João faz 40 anos de ordenação. Os frutos destes anos são incontáveis e só no Céu os haveremos de os conhecer a todos. Alguns deles são bastante visíveis: o seu empenho na luta contra o aborto e na presença política dos católicos, o Colégio de São Tomás,  Comunhão e Libertação, o seu papel como canonista, etc. Mas muitos deles só ele os conhece e outros nem ele os conhece.

Porque a sua vida foi totalmente entregue a Cristo. Para o Padre João a finalidade de viver é ganhar almas para Cristo. Por isso dizia que há frutos que nem ele conhece, porque ele vai semeando, semeando, semeando por onde quer que passe, com quem quer que se cruze.

E isso é o que me comove mais neste grande homem. Evidentemente que aprecio a sua inteligência, a sua oratória, o seu fino humor, a sua enorme coragem, a tenacidade diante de qualquer circunstância. Mas a sua grandiosidade é que submete todas estas qualidades a Jesus. Toda a sua genialidade está ao serviço do Reino de Deus.

Por isso a sua inteligência nunca é fechada, mas aberta à realidade. A sua oratória nunca é mera retórica, mas anúncio da Verdade. O seu humor nunca é vexatório, mas animador. A sua coragem nunca é bravata, mas sinal de quem já entregou a sua vida a Jesus. A sua tenacidade não é casmurrice, mas consciência da urgência de anunciar Cristo. Sobretudo, as suas enormes qualidades nunca se transformam em soberba, mas em caridade para com todos aqueles com quem se cruza.

Assim foi comigo uma vida inteira. Assim é comigo. Na minha vida Cristo tem um rosto concreto e esse rosto é o do Padre João. Por isso hoje agradeço a Deus essa graça que concedeu à Igreja, a Portugal e ao mundo há quarenta anos. Agradeço sobretudo a graça que me concedeu a mim de ter um pai como o Padre João.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Acabar com a "cultura do abuso": educar no amor.





Vivemos num tempo em que a sexualidade se tornou vulgar. Aquilo que era da intimidade dos casais passou a ser público. Em qualquer rua é possível encontrar anúncios com mulheres seminuas; a qualquer hora na televisão vemos cenas (mais ou menos explícitas) de sexo; livros de perversões sexuais ganharam um ar respeitável e são best sellers nas livrarias; as crianças, adolescentes e jovens, são constantemente convidados a explorar a sua sexualidade; os jornais fazem notícias com qualquer mulher que esteja disposta a publicar uma fotografia “sensual” em troca de uns likes.

Aquilo que devia ser íntimo e privado passou a ser tratado como coisa pública. O corpo passou a objecto de negócio. A virgindade e a pureza são hoje objecto de curiosidade mas sobretudo de gozo.

Ora, é evidente que esta vulgarização do sexo, esta objectivação do corpo, esta redução da sexualidade a uma mera necessidade animal tem consequências. Muito se tem discutido sobre a “cultura do abuso”. Mas aparentemente ninguém parece querer reparar na evidente relação entre a hiper-sexulização da sociedade e a tal cultura.

É evidente que num mundo onde é normal e natural exibir o corpo e glorificar a partilha da sexualidade (e não, não estou a exagerar, pensem que a fama de Kim Kardashian se deve a uma sex tape) seja cada vez mais banal impor-se sexualmente ao outro.

Se o corpo deixou de ser visto como um templo, se a sexualidade deixou de ser um assunto íntimo, se a relação entre duas pessoas perdeu todo o seu carácter sagrado, também é evidente que as ofensas contra a sexualidade perderam a sua relevância.

Não é possível ao mesmo tempo educar para o respeito pela intimidade, quando esta é vendida nas capas de revistas e nos sites. Não é possível dizer ao mesmo tempo que é normal e saudável ver pornografia e que é preciso respeitar a intimidade dos outros. Ora, se afirmámos que não há problema em vender a intimidade, que é absolutamente respeitável usar o corpo de outro como objecto, não podemos ficar espantados que haja quem de facto o faça.

Na raiz da “cultura do abuso” está a mentalidade de que o outro é um objecto para usarmos ao nosso prazer. Ora é essa a mesma mentalidade imposta pela “revolução sexual” que hoje vivemos.

Podemos tentar procurar soluções para os abusos sexuais nos beijinhos aos avós, ou nas mudanças de fralda não consentidas. Mas se o fizermos ao mesmo tempo que publicámos fotografias de mulheres seminuas e amarradas estamos a passar uma mensagem contraditória.

Se queremos de facto acabar com os abusos sexuais é urgente voltar a educar para a intimidade (aquela que não se vende), para o respeito pelo corpo (que não é um objecto, nem o meu nem o dos outros), mas sobretudo, é preciso de facto educar para uma sexualidade que é sinal de amor e não uma mera necessidade fisiológica. 

Se assim não for ainda acabamos numa sociedade onde é proibido dar um beijinho a uma criança, mas é legal ver fotografias suas nua.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Brasil: entre o autoritário conservador e o autoritário corrupto.






Muito se tem dito sobre as eleições no Brasil. Ficou-me sobretudo um artigo de João Miguel Tavares (provavelmente dos poucos cronistas de direita em Portugal) a sua ideia de que Haddad era preferível a Bolsonaro porque é preferível um democrata corrupto a um fascista honesto.

Parece-me contudo que João Miguel Tavares comete dois erros de análise. Primeiro é a afirmação de que Bolsonaro é fascista, que é o tema central do seu artigo. Bolsonaro é sem dúvida um homem que entre as liberdades individuais e a ordem pública escolhe a ordem pública. Isso tem evidentemente como consequência que em última instância o capitão na reserva prefere um Estado autoritário que controle aquilo que ele considera ser os males do país (a criminalidade, a corrupção, etc) a um Estado livre. E é evidente que esta linha de pensamento é perigosa e pode por em causa a democracia. Mas não transforma Bolsonaro num fascista.

Por outro lado, João Miguel Tavares considera Hadadd um “corrupto democrático”. Antes demais é sempre discutível se um corrupto é democrático. Por natureza um corrupto é alguém que acredita que o seu bem estar pessoal está acima do bem público. Um corrupto é alguém que usa o Estado não para servir mas para se servir. Por isso um corrupto nunca é verdadeiramente democrático.

Ainda mais um corrupto que pertence a um partido que de facto procurou usar os bens do Estado com o único objectivo de se manter no poder (operação da qual Sócrates, tão denunciado por João Miguel Tavares, é aprendiz). Aliás, convém não esquecer que por trás de Haddad está Lula, o preso que procura usar o poder para fugir à prisão. Não haja dúvida que Haddad no poder significa o fim da operação Lava Jato, significa provavelmente o fim da autonomia judicial. Mais ainda, convém relembrar que um dos pontos da campanha de Hadadd é precisamente diminuir os poderes parlamentares e aumentar os poderes do Presidente, à imagem da Venezuela de Maduro.

O que me leva ao meu último ponto sobre a democraticidade de Haddad: pertence ao partido que apoia e celebra Cuba e a Venezuela de Maduro. Bolsonaro, com todos os seus defeitos, tem sempre mostrado preferir as democracias às ditaduras. Já o PT prefere qualquer ditadura socialista às democracias capitalistas.

Resumindo, não estamos diante de um embate entre um fascistas e um democrata corrupto. Estamos num embate entre um conservador autoritário e um corrupto autoritário. Nenhum me enche as medidas. Mas se tivesse que escolher, provavelmente escolhias o autoritário conservador que faz campanha em favor da ordem e da honestidade ao autoritário corrupto, que é pouco mais do que uma marioneta de um homem que continuamente procura dominar o poder para fugir à justiça.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Venezuela: Até quando?


Nunca fui do género de me impressionar com as imagens consideradas impressionantes dos jornais. Evidentemente que não tinha gozo em ver imagens de guerra ou sofrimento, mas nunca senti a necessidade de desviar o olhar.

Depois de ser pai devo confessar que me tornei bastante incapaz de ver imagens de crianças a sofrer. Aliás, basta ler ou ouvir a história do sofrimento de uma criança para ficar imediatamente perturbado. Como é natural em qualquer pai suponho eu. De facto, há qualquer coisa no amor por um filho que nos leva a não conseguir sequer suportar ver ou imaginar o sofrimento de uma criança como ele.

Hoje, ao ler notícias, vi uma (mais uma) reportagem sobre a Venezuela. O cenário descrito é aquele que já conhecemos: não há comida, não há remédios, não há nada a não ser dinheiro que vale menos que papel higiénico (literalmente, não é uma metáfora!). Infelizmente estas notícias já são habituais.

Contudo, a peça vinha acompanhado de uma fotografia. Uma criança, só de fralda, magrinha, a brincar com um pau. Não teria mais de dois anos. E de repente aquela imagem atingiu-me. Como é possível que tudo continue parado enquanto há crianças a morrer à fome na Venezuela? Como é que os jornais continuam a falar do assunto como se fosse algo de banal ou corriqueiro? Até quando a comunidade internacional vai continuar a deixar um país refém de um ditadorzeco, que se deixar fotografar num restaurante de luxo na Turquia, de charuto na boca, quando o seu povo não tem que comer?

Porque sejamos honestos: claro que há países com mais pobreza do que a Venezuela, sem dúvida. Países onde morrem milhares de crianças com fome e onde a esperança média de vida é metade da do Ocidente. A diferença é que esses países são realmente pobres. Para resolver o problema da Eritreia ou do Sudão são precisas décadas e muitos milhões. 

Mas a Venezuela é um país rico e desenvolvido. A única razão de haver fome no país é a crueldade ideológica. A fome na Venezuela mais do que uma causa, tem um nome: Nicolás Maduro. O presidente que em nome da “revolução bolivariana” (mas sobretudo, em nome de poder continuar a saquear um país) deixa a população a morrer à fome. 

E a pergunta é: até quando? Até quando é que a comunidade internacional vai deixar crianças, grávidas e idosos a morrer à fome? Até quando vai permitir a prisão daqueles que se revoltam contra tal injustiça? Até quando vai permitir que Maduro se passeie em grande estilo enquanto nos hospitais de Caracas se morre  pela ausência de tratamentos básicos?

A verdade é que Maduro ainda está no poder porque é de esquerda. E aparentemente à esquerda é permitido matar e deixar morrer sem merecer vigílias, protestos e moções na ONU.

E assim vai morrendo aquele povo, sem qualquer clamor internacional. Esquecido e entregue a um tirano que teve a sorte de fazer o discurso certo para conseguir escapar incólume diante da comunidade internacional. Até quando?

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

CDS: o voto útil!




Começo por fazer um ponto prévio: eu acredito que, independentemente da direcção do PSD, o CDS seria o melhor partido para governar Portugal. A minha militância no CDS não se deve às circunstâncias políticas actuais, mas à convicção que a democracia cristã é o caminho certo para o país. Mais ainda, penso que o CDS tem melhores quadro político e pessoas mais bem preparadas para governar que os outros partidos.

Dito isto, também é verdade que Rui Rio facilita a vida a qualquer pessoa que não seja socialista. O actual presidente do PSD já deixou bastante claro ao que vem: preservar o seu lugar à frente do partido e encostar-se de tal maneira ao PS que consiga garantir uns cargos para si e para os seus partidários. A Rio não lhe interessa o país, mas o Estado. Ele não quer este ou aquela pasta do governo, o que ele quer mesmo é voltar ao velho centrão onde PS e PSD vão dividindo cargos como se fossem donos da coisa pública. Rio não concorre com o PS, mas com o PC e o BE para ver quem serve de muleta a António Costa.

Por isso é urgente afastar do seu partido as vozes incómodas e ao mesmo tempo mostrar-se sempre aberta às ideias da esquerda. Reparemos no caso caricato da Taxa Robles, onde Rio veio logo prazenteiro, com o seu ar de político moderado, dizer que a taxa até podia não ser má ideia, só para ser achincalhado com a reacção do PS à mesmo medida.

A verdade é que votar no actual PSD é o mesmo que votar no PS. Nada os distingue! A única alternativa de facto ao PS é o CDS. E não, não é pormo-nos em bicos de pé, é simplesmente constatar um facto. O voto útil, que durante tanto tempo deu tantos votos ao PSD, é agora o voto no CDS. De resto, do Bloco ao PSD todos os votos terão um único destino: apoiar um governo de António Costa.

Em Maio nas Europeias, mas sobretudo em Outubro nas legislativas, o CDS apresenta-se como a única alternativa real ao PS. Só um CDS realmente forte pode travar mais um governo das esquerdas encostadas. É irrealista? Talvez. Mas a única alternativa é mais quatro anos de gerigonça, agora na versão alargada!

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Não, Assunção Cristas não é Liberal... nem Socialista!




O vice-presidente da Iniciativa Liberal descobriu, num artigo publicado na semana passada, que Assunção Cristas não é liberal. Segundo o dito o facto de defender que a Câmara Municipal de Lisboa ponha no mercado casas com rendas controladas, assim como não descartar a hipótese de o Estado produzir remédios, tornam Cristas numa socialista!

Aparentemente o senhor tem andado distraído nos últimos quarenta anos (ou então está ele próprio a praticar o populismo de que acusa a líder do CDS, tentando com um pouco de demagogia ganhar alguns votos) mas é evidente que o CDS, e por conseguinte a sua líder, não é um partido liberal. O problema é que não ser liberal não significa ser socialista.

O liberalismo é uma ideologia e como qualquer ideologia está fechada nos seus dogmas. Para os liberais há o Mercado e o Estado, e nada pelo meio. Ou se confia cegamente que o Mercado se equilibra por si mesmo ou se é um perigoso socialista! Para os liberais a liberdade é, por si só, o valor supremo.

O problema é que o Mercado tem falhas. As pessoas nem sempre fazem as escolhas mais razoáveis, as leis nem sempre são bem feitas, as circunstâncias nunca são um “mercado de concorrência perfeita”. E o resultado é que o Mercado, entregue à sua liberdade, produz muitas vezes pobreza e exploração. Não é preciso ir muito longe para perceber estes factos, basta recuar ao séc. XIX e princípio do séc. XX, e ver as crianças nas fábricas e os trabalhadores explorados.

A Democracia Cristã, doutrina do CDS, nasce precisamente para combater não apenas a ideologia socialista, mas também a ideologia liberal. Recusa o endeusamento do Estado, mas recusa também o endeusamento do Mercado. Coloca o Homem como centro da política e o bem comum como seu objectivo.

Por isso o CDS confia no Mercado, porque confia nas pessoas, porque acredita na liberdade de cada um em dispor da sua propriedade. A economia de Mercado é a forma que mais respeita a liberdade e a dignidade pessoa, por isso o CDS defende essa organização da economia. Mas ao mesmo tempo o CDS também sabe que o Mercado pode produzir injustiças e não está disposto a sacrificar a dignidade das pessoas ao dogma liberal. Por isso olha com realismos para as circunstâncias e procura soluções que possam corrigir essas injustiças. Isso em alguns momentos significa menos Estado, noutras pode significar mais Estado.

No caso da liberalização das rendas era evidente que esta era necessária. Há cinquenta anos que o Estado fazia política de habitação à custa dos proprietários. Por isso o CDS, e sobretudo Assunção Cristas, defendeu a liberalização do mercado de arrendamento. Por outro lado, sendo esta a solução justa, também é evidente que a liberalização de um mercado que esteve congelado durante cinquenta anos, aliado à explosão do turismo e ao aumento do investimento estrangeiro em Portugal, trouxe um problema grave, especialmente visível em Lisboa: um aumento do preço do arrendamento que o torna incomportável para a maior parte das famílias. 

Segundo a esquerda socialista a solução é simplesmente voltar a congelar o arrendamento, tornando outra vez o centro das cidades um cemitério de prédio degradados. Mas a solução liberal também não é melhor: deixar o Mercado actuar, mesmo que isso signifique que as famílias da classe média têm todas de ir viver para os subúrbios tornando o centro de Lisboa num condomínio privado de estrangeiros e portugueses ricos.

Ora, Assunção Cristas veio propor uma solução que escapa a estas duas ideologias: a Câmara colocar os imóveis que possuiu (assim como os que venha a possuir com o projecto de Entrecampos por exemplo) no mercado a preços controlados. Assim, sem tirar direitos aos proprietários, tenta-se equilibrar o mercado. Só dogmático é que podia ver socialismo nesta medida. Mas assim como o PC vê fascistas em tudo o que discorda deles, a IL vê socialistas!

E isso é claro na questão, que tanto escandaliza o senhor vice-presidente da IL, da produção de remédios por parte do Estado. Assunção Cristas, diante de uma proposta de que não se conhecem pormenores, não se limita a rejeita-la por capricho ideológico, afirma que irá estudar o assunto. Isto é a resposta razoável de quem procura o bem comum e não apenas impor uma ideologia. Evidente, para IL isso é impensável e prova de socialismo!

Assunção Cristas não é liberal, nem o CDS, e ainda bem. Assim como não é socialista em nenhuma das suas várias declinações. Assunção Cristas é Democrata-cristã ou seja, defende uma política ao serviço do homem e não da ideologia. Tenho pena que a IL tenha demorado tanto tempo a percebê-lo!