Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

sexta-feira, 24 de março de 2017

O terrorismo faz parte de viver numa grande cidade? - Rui Ramos, Observador, 24/03/17

Já começamos a habituar-nos: com a primeira notícia do ataque, vem logo a especulação sobre se, afinal, não terá sido apenas um “louco”; confirmado que se trata de um jihadista, passa-se à hipótese do “lobo solitário”; e quando, finalmente, os seus cúmplices são presos num bairro conhecido pelos “problemas de radicalismo”, resta um último truque: insistir que o importante não é o terrorismo, mas o seu “aproveitamento” pela “extrema-direita”.

Vale tudo para fugir ao problema. Percebe-se porquê: no Reino Unido, três quartos dos jihadistas têm familiares e amigos ao corrente dos seus planos, e uma proporção significativa é originária de apenas cinco bairros em Birmingham. A campanha jihadista contra o Ocidente não é um simples caso de polícia ou um eco de guerras longínquas. Está enraizada em certas comunidades. É uma questão política, derivada da expansão no Ocidente de populações indiferentes ou hostis aos valores e às instituições ocidentais. Muitos tratam apenas das suas vidas. Alguns, porém, estão empenhados em importar para a Europa a violência sectária do Médio Oriente. Em Inglaterra, há pelo menos 3000 suspeitos sob vigilância.

Muita gente estranhou o comentário do mayor de Londres (de há uns meses, mas lembrado agora), de que o risco do terrorismo faz parte de viver numa grande cidade. Mas Sadiq Khan tem razão: é assim que se vive nas cidades da Síria e da Turquia, do Iraque e do Paquistão. E a razão por que Londres ou Paris começam a evoluir na direcção de Bagdade ou de Lahore, não é apenas pelo envolvimento histórico das potências europeias nessas paragens, mas pela projecção crescente das populações oriundas dessas regiões no Ocidente. Desta vez, não é possível resolver o problema através da retirada, como nos tempos da descolonização. E só porque não há uma solução fácil, não quer dizer que não haja um problema.

Os políticos ocidentais clamam que não querem “estigmatizar” as comunidades muçulmanas do Médio Oriente. Mas não se trata de “estigmatizar”: trata-se de levar a sério as suas identidades e valores. Os ocidentais parecem convencidos de que uns cursos rápidos de tolerância bastarão para as persuadir a adoptar o relativismo que passa por moral no Ocidente. E se essas comunidades continuarem a sentir, apesar de estarem na pátria de Locke ou de Voltaire, que o dever dos crentes é o de adequar o contexto aos seus valores, e não os seus valores ao contexto?

As elites ocidentais desvalorizam o desafio jihadista com uma velha bazófia: que podem barbudos com facas contra democracias que, em tempos, derrotaram Hitler? Sim, os bisavós dos cidadãos dessas democracias desembarcaram na Normandia. Mas como reagirão os seus bisnetos quando sair à rua se tornar uma lotaria de morte? Talvez a probabilidade de morrer numa ponte em Londres seja sempre mínima. Mas será inaceitável para sociedades ansiosas por eliminar todos os riscos.

Por isso, não foi a “austeridade”, mas as migrações, contaminadas pelo jihadismo, que desestabilizaram a política na Europa e na América, e que explicam o Brexit e Trump. A “crise dos refugiados” em 2015 afectou mais a Europa do que a crise do Euro de 2010: a Grécia permanece na UE, mas o Reino Unido vai sair. As migrações do Médio Oriente são a questão política decisiva do nosso tempo. Sim, seria uma tragédia se os demagogos do nativismo nos voltassem a dividir em nações hostis. Mas é preciso mais do que exortações de unidade. Não é possível evitar todos os atentados, mas tem de ser possível segurar fronteiras e não ter medo de afirmar valores. Convinha que europeus e americanos não acabassem por ver as suas elites políticas como os jihadistas já as vêem: a fidalguia decadente de um reino incapaz de decisão.
Sempre que a Europa sofre um atentado, existe uma espécie de reflexo gastrocólico que produz as pérolas conhecidas. Podem ser apelos lancinantes para ninguém ceder à ‘islamofobia’; pode ser uma sessão de autoflagelação pelos crimes do Ocidente (desde as Cruzadas); ou então uma mistura de ‘condenação’ e ‘compreensão’. Os criminosos e as suas vítimas não passam de um detalhe. Curiosamente, ainda não encontrei estas pérolas depois de Westminster. O que se compreende. Nos dois últimos anos, a Europa sofreu centenas de ataques islamitas. Tradução: mais de 300 mortos, mais de 800 feridos. O que permite concluir que, mesmo para cabeças em avançado estado de putrefacção, começa a existir a arrepiante possibilidade de que podia – e ainda pode – ser com elas. E ninguém quer ficar mal na foto se o azar tirar o retrato. Bons tempos, esses, em que o terrorismo era só uma promoção de carreira.

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/joao-pereira-coutinho/detalhe/perder-a-piada?ref=HP_opiniao
Sempre que a Europa sofre um atentado, existe uma espécie de reflexo gastrocólico que produz as pérolas conhecidas. Podem ser apelos lancinantes para ninguém ceder à ‘islamofobia’; pode ser uma sessão de autoflagelação pelos crimes do Ocidente (desde as Cruzadas); ou então uma mistura de ‘condenação’ e ‘compreensão’. Os criminosos e as suas vítimas não passam de um detalhe. Curiosamente, ainda não encontrei estas pérolas depois de Westminster. O que se compreende. Nos dois últimos anos, a Europa sofreu centenas de ataques islamitas. Tradução: mais de 300 mortos, mais de 800 feridos. O que permite concluir que, mesmo para cabeças em avançado estado de putrefacção, começa a existir a arrepiante possibilidade de que podia – e ainda pode – ser com elas. E ninguém quer ficar mal na foto se o azar tirar o retrato. Bons tempos, esses, em que o terrorismo era só uma promoção de carreira.

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Sempre que a Europa sofre um atentado, existe uma espécie de reflexo gastrocólico que produz as pérolas conhecidas. Podem ser apelos lancinantes para ninguém ceder à ‘islamofobia’; pode ser uma sessão de autoflagelação pelos crimes do Ocidente (desde as Cruzadas); ou então uma mistura de ‘condenação’ e ‘compreensão’. Os criminosos e as suas vítimas não passam de um detalhe. Curiosamente, ainda não encontrei estas pérolas depois de Westminster. O que se compreende. Nos dois últimos anos, a Europa sofreu centenas de ataques islamitas. Tradução: mais de 300 mortos, mais de 800 feridos. O que permite concluir que, mesmo para cabeças em avançado estado de putrefacção, começa a existir a arrepiante possibilidade de que podia – e ainda pode – ser com elas. E ninguém quer ficar mal na foto se o azar tirar o retrato. Bons tempos, esses, em que o terrorismo era só uma promoção de carreira.

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Sempre que a Europa sofre um atentado, existe uma espécie de reflexo gastrocólico que produz as pérolas conhecidas. Podem ser apelos lancinantes para ninguém ceder à ‘islamofobia’; pode ser uma sessão de autoflagelação pelos crimes do Ocidente (desde as Cruzadas); ou então uma mistura de ‘condenação’ e ‘compreensão’. Os criminosos e as suas vítimas não passam de um detalhe. Curiosamente, ainda não encontrei estas pérolas depois de Westminster. O que se compreende. Nos dois últimos anos, a Europa sofreu centenas de ataques islamitas. Tradução: mais de 300 mortos, mais de 800 feridos. O que permite concluir que, mesmo para cabeças em avançado estado de putrefacção, começa a existir a arrepiante possibilidade de que podia – e ainda pode – ser com elas. E ninguém quer ficar mal na foto se o azar tirar o retrato. Bons tempos, esses, em que o terrorismo era só uma promoção de carreira.

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Sempre que a Europa sofre um atentado, existe uma espécie de reflexo gastrocólico que produz as pérolas conhecidas. Podem ser apelos lancinantes para ninguém ceder à ‘islamofobia’; pode ser uma sessão de autoflagelação pelos crimes do Ocidente (desde as Cruzadas); ou então uma mistura de ‘condenação’ e ‘compreensão’. Os criminosos e as suas vítimas não passam de um detalhe. Curiosamente, ainda não encontrei estas pérolas depois de Westminster. O que se compreende. Nos dois últimos anos, a Europa sofreu centenas de ataques islamitas. Tradução: mais de 300 mortos, mais de 800 feridos. O que permite concluir que, mesmo para cabeças em avançado estado de putrefacção, começa a existir a arrepiante possibilidade de que podia – e ainda pode – ser com elas. E ninguém quer ficar mal na foto se o azar tirar o retrato. Bons tempos, esses, em que o terrorismo era só uma promoção de carreira.

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quinta-feira, 23 de março de 2017

Copos, mulheres e aldrabices - João Miguel Tavares, 23/03/17

Gastei muito dinheiro em bebida,miúdas e carros. O resto desperdicei-o.”
George Best (1946-2005)

Não foi um latino do Mediterrâneo que disse a magnífica frase que serve de epígrafe a este texto. Foi um génio futebolístico nascido em Belfast, George Best, o jogador com corte de cabelo à Beatle que faz parte da história do Manchester United. Parece-me, aliás, ridículo que seja um holandês, como o senhor Dijsselbloem, a criticar os países que gastam dinheiro “em copos e mulheres”, tendo em conta a excelente tradição de Amesterdão nessa matéria.
O presidente do Eurogrupo foi longe demais, e a sua frase é errada de tantas maneiras – desde logo pelo seu machismo mais labrego – que exigir a sua demissão é inevitável: pior do que gastar dinheiro em copos e mulheres é gastar entrevistas a deitar sal na ferida do norte trabalhador contra o sul mandrião, uma conversa batida que já não vai a lado algum. Nem como populismo se percebe. O ainda ministro das Finanças holandês não tem de ganhar eleições – elas acabaram de acontecer e o grande derrotado foi o seu partido, o socialista PvdA –, e este género de comentários é totalmente contraproducente, porque só promove o cavar de trincheiras e a vitimização dos países do sul.

Dijsselbloem, na entrevista ao jornal Frankfurter Allgemeine, proferiu três frases inatacáveis antes de se espalhar ao comprido. “Na crise do euro, os países do norte da Europa mostraram-se solidários com os países afetados pela crise” – é verdade. “Como social-democrata, atribuo à solidariedade uma importância extraordinária” – é bonito. “No entanto, quem pede ajuda também tem obrigações” – é óbvio. “Não se pode gastar o dinheiro em copos e mulheres e logo depois pedir ajuda” – é estúpido. O senhor Dijsselbloem não é propriamente um amador da política, e nem Wolfgang Schäuble alguma vez se atreveu a utilizar esta linguagem de taberneiro numa Europa politicamente extremada.
 
A prova, aliás, de que estas declarações idiotas obtêm o efeito contrário ao pretendido está na imediata reacção do ministro dos Negócios Estrangeiros português. Augusto Santos Silva sublinhou – e bem – que se tratou “de uma graçola que usa termos que hoje já não são concebíveis” e “que não é própria de um ministro das Finanças europeu”, para depois aproveitar a embalagem da asneira alheia para expelir e expandir as suas próprias asneiras, esticando-se – e mal – nas interpretações delirantes dos socialistas portugueses acerca dos motivos da crise.

A narrativa de Santos Silva é conhecida, até porque é a mesma de António Costa e de José Sócrates: “O que se passou com países como Portugal, Espanha ou Irlanda não foi termos gasto dinheiro a mais” – convém suster o riso nesta parte. “Nós, como outros países vulneráveis, sofremos os efeitos negativos da maior crise mundial desde os tempos da grande depressão” – snif, snif – “e as consequências de a Europa não estar suficientemente habilitada com os instrumentos que nos permitissem responder a todos aos choques que enfrentamos.” Ora cá está. Responsabilidades portuguesas? Um redondo zero. Responsabilidades europeias? Todas. Como é óbvio, este discurso é tão obscenamente primário e insultuoso quanto o de Dijsselbloem. Infelizmente, depois de nos atirarem com os copos e com as mulheres à cara passa por forma legítima de autodefesa. Estupidez com estupidez se paga.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A direita já perdeu (porque desistiu de ganhar) - Alexandre Homem Cristo, Observador, 20/03/17

Agora é mesmo a sério: Teresa Leal Coelho é a candidata do PSD à Câmara Municipal de Lisboa. Optando (erradamente) por não apoiar Assunção Cristas, sem nomes fortes para apresentar, com Fernando Seara desaparecido e engolidas as várias recusas por parte de independentes, Teresa Leal Coelho sobrou no PSD como a escolha possível. E não vale a pena florear a situação: esta escolha simboliza uma desistência. Sem qualquer hipótese de disputar a vitória com Fernando Medina e com algum risco de ficar abaixo do CDS, o objectivo de Teresa Leal Coelho é apenas não cortar a meta em terceiro. A ambição fala por si.

Teresa Leal Coelho tem méritos políticos, combatividade e carácter. Só que nenhum dos seus atributos nem nada no seu perfil de vereadora recomendaria a sua escolha. Não fosse o vazio de alternativas, não seria ela a candidata. Ora, o enfoque deve estar aí: no vazio que forçou a sua candidatura – entre notáveis do partido e independentes, meio mundo rejeitou o PSD. Porquê? Duas explicações evidentes: porque, ao recusar Cristas, o PSD desistiu de Lisboa (e das autárquicas); e porque, sem autárquicas, sem discurso e sem um projecto comum para derrotar a geringonça, o país desistiu de admitir PSD-CDS como alternativa.

O primeiro sinal de resignação está na inviabilidade de uma candidatura conjunta PSD-CDS em Lisboa. Não vou voltar aos argumentos que, desde o início, me pareceram óbvios: a única opção estratégica que fazia sentido para os interesses do PSD era apoiar a candidatura da líder do CDS. Escrevi-o em Setembro, quando Assunção Cristas anunciou que avançaria: “se a direita não é capaz de se entender para tirar Fernando Medina da CML, então terá tremendas dificuldades em convencer o país de que é capaz de se organizar para derrotar António Costa”. A escolha de Teresa Leal Coelho só veio confirmar que o PSD não percebeu o que está em causa – ou que, percebendo, desistiu de ir a jogo. Com a inevitável derrota em Lisboa, à qual se juntará outra derrota no Porto e um prognóstico cinzento no resto do país, o PSD pôs-se a jeito para que qualquer leitura nacional a sair das eleições autárquicas fortaleça a geringonça de PS-PCP-BE e prolongue a sua esperança de vida.

Acresce que PSD e CDS não parecem ter assimilado as lições das últimas eleições legislativas: se a esquerda consegue entendimentos e constitui uma maioria parlamentar, a direita não pode permanecer um palco de desentendimentos e ter dois partidos a remar em direcções diferentes. A alternância de poder deixou de ser um dado adquirido e o regresso de PSD e CDS a São Bento depende de uma maioria absoluta a dois. Como tal, a actual descoordenação política entre as lideranças de PSD e CDS é um erro de palmatória. E a troca de acusações através da comunicação social – seja a propósito das negociações em Lisboa ou do que se discutia nos Conselhos de Ministros no anterior governo – rasa mesmo o amadorismo.

Tornou-se, entretanto, evidente que a descoordenação está à superfície de um problema mais profundo: PSD e CDS não têm um discurso para o país que os eleve a alternativa. Para além da defesa do património político do governo 2011-2015, ninguém sabe quais as suas bandeiras, que visão desenharam para o país, que políticas públicas concretas defendem. Nada de novo, reconheça-se. A direita partidária há muitos anos que deixou de ter um projecto político com identidade e, no lugar, aceitou calçar as luvas de bombeiro do regime. Só intervém para apagar os incêndios nas contas públicas e, nos intervalos, vai apontando o dedo aos pirómanos. Foi assim após o pântano de Guterres e a bancarrota de Sócrates. É assim hoje – e isso não chega.

Sim, Passos tem razão nos seus alertas – mas já ninguém o ouve. E, sim, Assunção faz tudo para ser ouvida – mesmo que por vezes perca a razão. Acontece que a soma dos dois já não é suficiente. E é agora que tudo se joga: se não construírem um projecto comum, PSD-CDS não vão apenas perder – vão desistir de ganhar.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Sócrates e a pergunta que ninguém quer fazer - João Miguel Tavares, Público, 16/03/17

Este texto começava com a frase: “José Sócrates é o elefante no meio da sala da política portuguesa.” Mas a metáfora não é exacta. Afinal, não se pode dizer que as pessoas não estejam a ver o elefante – o homem está todos os dias nas notícias. Pode, contudo, dizer-se que o regime político e a sua oligarquia rezam todos os dias para que nos concentremos apenas no elefante, e esqueçamos a sala. É como se ela não existisse. Como se o elefante tivesse ali chegado sozinho. Como se ninguém o tivesse ajudado. Como se ninguém o tivesse alimentado. Como se ninguém lhe tivesse dito: “sirva-se, se faz favor”. Como se um dia Portugal acordasse, ao fim 30 anos a viver com aquele elefante, e exclamasse com ar inocente: “Que animal desagradável! Como é que ele conseguiu aqui chegar?”

Eu digo-vos como chegou: acompanhado. Só que essa é a pergunta que ninguém quer fazer. Passaram-se 28 meses desde a prisão na Portela. Tem sido um tempo terrível para José Sócrates. Não é só a acusação que se tem fortalecido e as suspeitas acumulado – é, acima de tudo, o facto de a sua defesa ter-se mostrado incapaz de montar uma justificação consistente para as suspeitas, apesar dos meios que tem à disposição, das dezenas de recursos, do acesso em horário nobre a qualquer televisão, e de tantos políticos, jornalistas e colunistas mortinhos para que o caso dê em nada. A insistência dos advogados num estilo trauliteiro tornou-se cansativa, os adjectivos são sempre os mesmos, as justificações implausíveis, o que ele próprio admitiu é politicamente inadmissível, as entrevistas são negociadas ao milímetro – e tudo isto junto dificilmente parecerá, aos olhos de um espectador desinteressado, a defesa própria de um homem inocente.

Ora, se Sócrates for efectivamente corrupto, e tiver recebido dinheiro do grupo Lena, de Vale do Lobo e do BES, manda a lógica e o bom senso que olhemos de novo para o passado, porque se os casos judiciais prescrevem, a História e as responsabilidades políticas, não. Imaginemos que os factos descritos na Operação Marquês realmente aconteceram. Então é muito provável que também tenha acontecido o que se dizia no Face Oculta. E no Freeport. E na Cova da Beira. E nos projectos da Guarda. Aqueles que sempre denunciaram Sócrates tinham razão – o que parecia, era. Quando Charles Smith foi filmado a dizer “o ministro é corrupto”, ele era efectivamente corrupto. E o mais provável, tendo em conta este vasto rol de suspeitas, é que não se tratassem de mera tentações ocasionais de José Sócrates, mas de um modo de vida – e, mais grave, uma forma muito eficaz de construir uma carreira política e uma sólida corte de fiéis no Portugal dos anos 80, 90 e 2000.

 Chegados aqui, a pergunta que ninguém quer fazer tem de ser feita: ninguém sabia? Há suspeitas que recaem sobre Sócrates desde os tempos da Covilhã e ninguém soube de nada? O Partido Socialista nunca ouviu falar? Aqueles que hoje em dia acham que Carlos Costa foi vesgo e cobarde por não ter corrido mais cedo com Ricardo Salgado não foram vesgos e cobardes no que diz respeito a José Sócrates? Uma acusação sólida não deve servir apenas para arrumar com Sócrates de vez. Ela também deverá obrigar o PS, que hoje anda por aí tão impoluto e tão impante, a assumir responsabilidades políticas e a responder pela sua cumplicidade com o maior desastre da democracia portuguesa. Os elefantes não voam. Foi preciso alguém abrir-lhe a porta da sala e convidá-lo a entrar.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Centeno tem razão: o Portugal de hoje é diferente - Rui Ramos, Observador, 14/03/17


Ontem, Mário Centeno ensinou aos estrangeiros que o Portugal de hoje já não é o de 2012. Pois não é. Entretanto, Passos Coelho preveniu a bancarrota preparada por Sócrates, e em 2015 entregou a António Costa uma economia a crescer novamente e um Estado em situação de aproveitar o financiamento do BCE. Desde então, houve uma grande mudança em Portugal, que se pode resumir assim: em 2012, o Estado ainda era para todos; desde 2015, deixou de ser.

Em 2015, os partidos da actual maioria sofreram enormes decepções. PCP e BE descobriram que nem quatro anos de austeridade eram suficientes para fazer deles um Syriza ou um Podemos. Para Costa, foi pior: perdeu umas eleições que todos lhe diziam que venceria facilmente (a 12 de Março de 2015, as sondagens prometiam 36% ao PS e 26% ao PSD). Mas como o ajustamento deixara muita gente zangada, os derrotados viram-se em maioria no parlamento, e aproveitaram para se agarrar ao Estado. Durante um ano, especulou-se sobre eleições antecipadas. Mas Costa e os seus parceiros não confiam no eleitorado. O plano é outro: fazer do Estado o último bunker das suas ilusões e ganâncias, com uma fúria que há pouco transpareceu na Guarda.

O governo de Costa é mais uma prova de que os populistas têm razão: é possível mandar num país favorecendo uma parte desse país contra a restante. Com António Costa, chegou ao fim uma certa concepção do Estado em Portugal: o Estado como entidade imparcial e inspirada pelo bem público. Hoje, o Estado tomou partido por alguns grupos, e serve os seus interesses privados.

Segundo o Conselho das Finanças Públicas, o investimento público desceu em 2016 ao seu nível mais baixo dos últimos vinte anos. Foi assim que o governo compensou o aumento das pensões e dos salários mais altos do funcionalismo público, de modo a dar à Comissão Europeia um défice que justificasse a ajuda do BCE. Por todo o lado, o Estado é hoje um conjunto de histórias de cortes de “consumos”, de atrasos de pagamentos e de serviços em degradação. O governo tem calado as queixas de modo implacável, como aconteceu no caso do Gabinete de Prevenção e de Investigação de Acidentes com Aeronaves: o responsável protestou, e foi afastado. Mas talvez nem fosse preciso. Com as tradicionais carpideiras do Estado social quietas na rua e caladas nos estúdios, é possível sacrificar a “qualidade dos serviços públicos” no altar das clientelas.

Tínhamos um Estado social. Com Costa, temos um Estado clientelar. O Estado social existia para garantir ou prestar certos serviços; o Estado clientelar existe para dar empregos, contratos e regalias, e assim inspirar gratidão política entre os seus dependentes. E nunca a situação foi tão propícia a esta manobra, com uma população envelhecida e endividada, empresas descapitalizadas, corporações assustadas, sindicatos a perder sócios e partidos a perder eleitores. O Estado clientelar aparece-lhes como a salvação. Pelo menos, enquanto o BCE continuar a comprar dívida portuguesa.

Outra coisa também mudou: o constrangimento fiscal e regulamentador do trabalho e do investimento em Portugal agravou-se. Mas esse constrangimento não é neutro: é o mecanismo de protecção que o Estado mantém a favor de certos grupos de interesse, o qual gera um custo que tem de ser suportado por toda a sociedade. É esse o problema da economia portuguesa. Para o resolver, seria preciso um Estado viável e inspirado pelo bem público, que deixasse de ser um mero protector de clientelas. Mas essa protecção é hoje a chave do poder no novo Portugal de António Costa e de Mário Centeno.

segunda-feira, 13 de março de 2017

"Uma Aventura na Cidadade" com o patrocínio da Carris.




Sou utilizador dos transportes públicos desde criança. Mesmo hoje em dia, com carro próprio, são o meu meio de transporte habitual. Todos os dias saio de casa com o meu filho com pouco mais de uma ano, vou deixá-lo à escola, vou para trabalho, vou buscá-lo e regresso a casa, sempre transportado pela Carris. E isso implica, demasiadas vezes, tempos de espera longos e autocarros cheios. Mas sobretudo significa a lotaria dos motoristas da Carris.

Lotaria porque nunca sabemos quem vamos apanhar. Podemos ter sorte e apanhar um bom condutor, cuidadoso e atencioso com os passageiros (e sou testemunha que existem muitos e bons profissionais na Carris). Podemos ter azar e calhar-nos um motorista que gostava era de fazer corridas ilegais na ponte Vasco da Gama e para quem cada paragem, cada curva e cada passagem de peões é uma novidade que obriga a uma travagem a fundo. Motoristas para quem os passageiros são pouco mais que um incómodo às suas conversas telefónicas e que vivem para exercer a autoridade soberana que a Carris lhes concede sobre os seus utentes.

Dou dois exemplos. No dia 13 de Fevereiro, fui buscar o meu filho à escola. Apanhei o eléctrico para casa e tive que entrar por trás, uma vez que com um carrinho de bebé e sem ajuda é impossível fazê-lo pela frente. O problema é que só se consegue validar o passe na parte da frente do eléctrico, o que só conseguiria fazer abandonando o meu filho na parte de trás. Expliquei isto à motorista que não fez qualquer tentativa de resolver o problema. Limitou-se a ralhar comigo por me recusar a deixar sozinho uma criança de um ano para cumprir esse sagrado dever de validar o passe mensal! O ralhete, já de si foi desagradável, foi o menos mau. Chegando à minha paragem a senhora recusou-se a abrir a porta de trás do eléctrico e a deixar-me sair, tendo seguido o seu caminho, apesar dos meus protestos. Depois de muitos gritos e berros, tudo isto com uma criança de um ano dentro do seu carrinho, lá consegui que a motorista me permitisse sair do eléctrico na paragem seguinte.

O segundo exemplo conseguiu ser ainda mais caricato. Dia 8 de Março, dia internacional da mulher, a minha mulher, grávida de oito meses e com uma grande barriga foi buscar o nosso filho à escola. Entrou no autocarro, colocou o carrinho do bebé de forma a causar o menor incómodo possível e sentou-se. Rapidamente foi repreendida pelo motorista porque tinha que levar o carrinho da zona destinada ao mesmo. A minha mulher ainda tentou explicar que não podia, porque dado o seu estado tinha que ir sentada. De nada lhe valeu. Acabou por ter que se sentar no chão, na zona dos carrinhos, e assim fez todo o percurso sem que o motorista se tenha incomodado por uma única vez em tentar encontrar uma solução para o problema.

E tudo isto se passa sem que a Carris faça alguma coisa para fiscalizar a qualidade dos seus motoristas. Da primeira situação ainda fiz queixa à Carris e ao provedor dos utentes dos transportes públicos de Lisboa. Até hoje, um mês depois, ainda não recebi resposta alguma. Da segunda, ainda nem fiz queixa tendo em conta a sua inutilidade.

E assim, enquanto temos campanhas publicitárias sobre a utilidade dos transportes públicos, enquanto compramos autocarros o mais amigos do ambiente possível, enquanto instalamos os mais avançados sistemas de controlo de bilhetes, temos uma empresa pública de transportes onde os bebés não podem entrar no eléctrico e as grávidas vão sentadas no chão.

sexta-feira, 10 de março de 2017

O governo numa palavra? Fraqueza - Rui Ramos, Observador, 10/03/17


Na passada quarta-feira, na Assembleia da República, António Costa foi involuntariamente revelador. Não se limitou a enaltecer os “bons resultados” de 2016. Entusiasmou-se com a “paz social”, vibrou com a “cooperação institucional”, e lamentou apenas que a oposição, em vez de se unir ao governo em acção de graças, estivesse a provocar uma “crispação” que, afinal, “não existe”.

Valerá a pena examinar todos estes elementos um por um — “resultados”, “paz”, “cooperação” e “crispação” – porque ficaremos com o retrato completo deste governo.

Os “bons resultados” traduzem duas coisas: por um lado, o repúdio pelo governo da ideia de resolver a crise de financiamento do Estado simplesmente através do estímulo da procura interna; por outro lado, a tutela europeia, que obrigou a um novo ajustamento, através de medidas extraordinárias e temporárias, para garantir um défice que, mesmo assim, é dos mais altos da Europa e não preveniu a continuada ascensão da dívida pública. Ou seja, os “bons resultados” consistem, do ponto de vista daquilo que o PS defendeu entre 2011 e 2015, na descaracterização da governação e na sua submissão total à Comissão Europeia.

A “paz social” é um eufemismo rebuscado para a acalmação dos grevistas do PCP e dos esganiçados do BE. PCP e BE chegaram aflitos a 2015. Dispuseram-se, por isso, a deixar passar as políticas europeias que garantem o financiamento do Estado, em troca do regresso à área do poder, donde tinham sido expulsos pelo PS de Mário Soares em 1976. “Paz social” consiste, assim, em consentir na influência e na infiltração de partidos anti-democráticos que não mudaram de ideias (veja-se o prefácio de Louçã ao livro de Simon Sebag Montefiore sobre Estaline), nem de métodos (veja-se o cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto na Universidade Nova de Lisboa).

A “cooperação institucional” é ainda mais curiosa. Podia referir apenas aquela boa vontade que um presidente da república recente mostra a um governo igualmente recente. Mas tem sido muito mais do que isso, uma autêntica saturação presidencial da atmosfera política, com um presidente que está em todo o lado, aparece a todas as horas, e opina sobre tudo. É verdade: o presidente não “ataca” o governo. Mas faz pior: fala pelo governo, enreda-o e impõe-lhe termos de referência, como se estivéssemos em França. Nenhum presidente, no primeiro ano de mandato, se impôs tanto a um governo, parecendo abraçá-lo. Mas também nunca nenhum governo o consentiu desta maneira.

O que a satisfação de António Costa revelou na Assembleia da República é que está conformado com a tutela europeia, a influência comunista e a presidencialização do regime. E está conformado, porque este é o governo mais fraco de todos os tempos, com um primeiro-ministro derrotado em eleições, e num país sem possibilidade de se financiar, a não ser por caridade do BCE. É neste contexto que a “crispação que não existe” faz sentido.

Daquilo que constou entretanto do “caso dos offshores”, causa da próxima da “crispação que não existe”, é legítimo suspeitar que o governo e a sua maioria tentaram sujar a liderança do PSD, sabendo que estavam a ir para além do que a informação, naquele momento, autorizava. Porquê? Porque ao actual governo convém desesperadamente uma oposição fraca, e portanto precisa de destruir Passos Coelho dê por onde der, tal como convêm entidades menos independentes, e daí o assédio ao Conselho de Finanças Públicas e ao Banco de Portugal. Como pode viver um governo fraco, senão tentando enfraquecer tudo à sua volta?