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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Entre direitas - Jaime Nogueira Pinto, DN, 29/11/16

Habituados, em Portugal, a ter de escolher entre as várias esquerdas e os vários centros, não podemos deixar de olhar com alguma surpresa uma conjuntura política que torna possível, na próxima Primavera, um duelo entre Marine Le Pen e François Fillon, isto é, uma escolha entre duas direitas - uma nacionalista e outra nacional-conservadora.

Lembro a classificação de René Rémond, simplista mas útil como todas as boas classificações, das três direitas francesas: a legitimista, a bonapartista e a orleanista. A primeira é tradicional e conservadora, a segunda cesarista revolucionária, a terceira centrista liberal. Perante a crise e a decadência das esquerdas em França - representadas pelo pitoresco Hollande, pelo Partido Comunista que perdeu o operariado para o Front National e pelo cocktail frenético das várias famílias trotskistas e bloquistas -, as alternativas são à direita e de direita. Mas a direita em França, porque é forte, tem vários rostos: um deles é o da direita nacional e radical, com Marine le Pen.

Marine meteu na gaveta o saudosismo, o antigaullismo e as posições conservadoras nas questões fracturantes do pai e mudou a substância e o conteúdo do FN. Abriu ao laicismo republicano mas manteve o nacionalismo, o proteccionismo, a preferência nacional e a mobilização contra o fundamentalismo islâmico. Marine tem um discurso popular e populista, conquistou milhões de votos à esquerda e o seu FN é o primeiro partido de França, em eleitores e deputados no Parlamento Europeu, embora não tenha nenhum deputado no parlamento francês.

Passará, com certeza, à segunda volta. E se passar com alguém de esquerda, é mesmo capaz de ser outra má notícia para a União Europeia depois do brexit e de Trump, pois fará um referendo cujo resultado não deixa muitas dúvidas.

Das primárias saiu da direita o candidato que fará frente a Marine le Pen na segunda volta das presidenciais em maio de 2017. A ideia das primárias pretendeu dar uma maior democraticidade à escolha, retirando-a dos "Grandes" - os estados-maiores partidários e os notáveis. Venceu-as François Fillon, o mais direitista dos concorrentes.

Fillon é católico praticante e conservador em matéria de família e costumes, ordem e lei. Mas é também pela desestatização da economia, defende um menor peso do Estado e a redução do número de funcionários públicos. Em política externa é um eurocéptico moderado, partidário da Europa das Nações e defensor de uma aproximação realista à Rússia de Putin.

Ao aproximar-se em muita coisa de Marine le Pen - sobretudo no eurocepticismo, na preferência nacional, nas questões securitárias e na política russa -, Fillon é o mais indicado para a defrontar e vencer, já que, segundo as sondagens (barómetro que já não podemos deixar de olhar com algum descrédito), Marine le Pen e Fillon são os candidatos que deverão passar à segunda volta. A não ser que a esquerda se una e encontre um candidato comum, geringonça que não parece fácil.

Não direi que me admiro, mas percebo o espanto da maioria dos donos dos media e do sistema e dos muitos a quem eles fazem a cabeça. Depois do brexit, depois de Trump, a vitória de Fillon e a perspectiva da eleição presidencial na próxima Primavera não devia surpreender ninguém. Há, de facto, um novo paradigma político-cultural no mundo euro-americano. As classes médias, fartas da tutela intelectual esquerdista e da tutela política centrista, revoltaram-se. Depois da opção inglesa, antieurocêntrica, e de um tycoon anti--sistema na Casa Branca, a França, mais cautelosa, prepara-se para escolher entre uma nacionalista revolucionária e popular e um nacionalista conservador.

Para um francês de direita é capaz de ser um dilema. Mas sempre é melhor do que ter de escolher entre as esquerdas e o centro.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Homícidio a pedido da vítima: à espera do debate - Público, 29/11/16

 Só existem dois países do mundo onde a Eutanásia é legal: a Bélgica e a Holanda. Em ambos os países esta prática é definida como a morte de alguém que o tenha pedido e que seja executada por um terceiro. Ou seja, aquilo que neste dois países é legalmente definido como Eutanásia é, na lei portuguesa, definido como homicídio a pedido da vítima (cfr Código Penal, artº 134º.).

Em ambos os países o homicídio a pedido da vítima só é permitido em casos de grande sofrimento, onde não haja esperança de melhoria. Em ambos os países é preciso que a eutanásia seja autorizada pelo médico. Em ambos os casos é o médico que executa a eutanásia.

Evidentemente que os modelos belga e holandês não são os únicos possíveis. É evidente que poderá haver uma lei que legaliza o homicídio a pedido da vítima mais restritiva ou mais liberal do que estas. Parece-me é que dificilmente haverá quem defenda uma lei onde qualquer pessoa que expresse a sua vontade em morrer tenha o direito a ser executada pelo Estado.

Ora, como já anteriormente afirmei, não me parece que o movimento Pelo Direito a Morrer com Dignidade defenda um quadro legal muito diferente do que aquele que hoje existe nos dois países que referi. Ou seja: a morte a pedido da vítima ser possível nas circunstâncias que a lei previr; ser necessário um agente nomeado pela lei para aferir se no caso em concreto se aplica a lei; a morte ser executada por um profissional de saúde autorizado pela lei.

É neste contexto que tenho defendido que aquilo que estamos a debater neste momento em Portugal não é a autonomia pessoal, mas sim saber se há condições em que o Estado pode permitir e promover o homicídio a pedido da vítima.

Por isso peço desculpa ao Professor Rosalvo Almeida, mas perguntar se o Estado pode decidir se há vidas menos dignas não é uma pergunta capciosa, como afirmou no seu artigo de 5 de Setembro, mas uma pergunta que se impõe diante da proposta que o Estado autorize e promova a morte de um cidadão em casos de sofrimento e doença. Mais ainda, relembro que aquilo que se está a discutir, aquilo que é pedido na petição a favor da eutanásia que se encontra agora no Parlamento, não é a mera despenalização da eutanásia, mas sim a sua legalização. Seria bom que o senhor professor, tão lesto em acusar os outros de usarem falácias, não as utilizasse só para "ganhar" o debate

Peço também desculpa à Professora Laura Ferreira dos Santos pela minha insistência, ou perseguição como afirma no seu artigo de dia 1 de Novembro,  em debater este assunto. Eu bem sei que seria bastante mais cómodo que o debate se limitasse aos apoiantes da eutanásia. Bem sei que se me limitasse a aceitar a autoridade do Professor Rosalvo Almeida que garante que a minha argumentação é uma falácia (mas sem nunca a refutar) a vida seria mais agradável. Infelizmente um debate público inclui o contraditório, até de quem não possui a autoridade sapiencial dos professores acima citados.

Por isso continuarei à espera de quem aceite debater realmente o problema da legalização do homicídio a pedido da vítima. Infelizmente, já percebi que o Professor Rosalvo Almeida e a Professora Laura Ferreira dos Santos só estão disponíveis para sermões.

Pra ver a banda passar - José Ribeiro e Castro, Jornal de Notícias, 29/11/16

Não! Desta vez, a RTP despediu Chico Buarque e o seu mote. O país que não é de Lisboa não vai ver a banda passar. Vão cantar coisas de amor a Portugal, no 1.º de Dezembro. Para a RTP, não presta.

Tocá Rufar. Presente! Não vejo. Bombos de Atei. Presentes! Não vejo. Banda do Exército. Presente! Não vejo. Marvila. Presente! Não vejo. Filarmónica Madalense, do Pico. Presente! Não vejo. Santiago de Lobão. Presente! Não vejo. Os Amarelos, Moura. Presente! Não vejo. Arnoso, Famalicão, e Santa Maria de Bouro. Presentes! Não vejo nada. Banda 1.º de Maio, Mirandela, e Filarmónica do Brinço. Presentes! Não vejo. Retaxo, Castelo Branco; Filarmónicas Cortense, Oleirense e Fratelense. Presentes! Não vejo nenhuma. Bandas Santanense, da Figueira, e Sangianense, Oliveira do Hospital. Presentes! Não vejo. N.ª Sr.ª de Machede, Évora. Presente! Não vejo. Alcáçovas. Presente! Não vejo. Tavira. Presente! Não vejo. Academia de Santa Cecília e Estrela da Beira, Seia. Presentes! Não vejo. Filarmónica Maiorguense, Alcobaça. Pedrógão Grande. Presente! Não vejo. Cabanas de Torres, Alenquer, e 1.º de Dezembro da Encarnação, Mafra. Presentes! Não vejo. Banda Juvenil, Gavião, e Euterpe, Portalegre. Presentes! Também não vejo. Alfena, Valongo. Presente! Não vejo. Filarmónicas Maçaense e Gualdim Pais, Tomar. Presentes! Não vejo. Incrível Almadense. Presente! Não vejo. Vila Nova de Anha. Presente! Não vejo. São João de Areias, Santa Comba, e Ferreirim, Sernancelhe. Presentes! Não vejo mesmo nada.

O paradoxo é exclusiva responsabilidade dos administradores e diretores da RTP: revogaram a decisão de transmissão integral, em direto, do Desfile Nacional de Bandas Filarmónicas 1.º de Dezembro. São 35 bandas presentes, a festejar Portugal, no nosso dia mais importante. Mas o país não pode assistir - esta RTP não quer.

De todo o país, as bandas viajam centenas de quilómetros para celebrar Portugal, nos Restauradores. Dos Açores, a Sociedade Filarmónica União e Progresso Madalense faz 3000 km de ida e volta. A RTP, do "serviço público", não pode fazer 7 km, da sede aos Restauradores, para organizar o direto integral, como em 2013 e 2014.

O Contrato de Concessão de 2015 parece claro: comete à RTP "uma programação que promova a formação cultural e cívica dos telespetadores" e aponta-lhe "uma programação abrangente" e "globalmente diferenciadora face à oferta do mercado audiovisual português". Mais: "o serviço público de média deve ter uma programação que promova a cidadania [e] o sentido cívico»; e "assegura a promoção da cultura portuguesa e dos valores que exprimem a identidade nacional", proporcionando "o acesso do público às manifestações culturais portuguesas". Qual é a dúvida?

Há até um parágrafo que parece feito à medida do Desfile Nacional de Bandas Filarmónicas: "a programação do primeiro serviço de programas generalista assegura a cobertura de manifestações que constituam fator de identidade ou formas de representação nacional, designadamente eventos de natureza institucional, cívica, social [ou] cultural". Não! Os dirigentes desaprenderam. Antes sabiam; agora, leem e não entendem. Ou entendem e não cumprem.

O 1.º de Dezembro é o maior dia de Portugal no calendário oficial. Não há outro: celebra o valor da independência, a nossa existência como país, próprio e livre. É o dia mais de todos de entre todos os dias de Portugal.

Fui ver no portal da RTP a programação de 1 de dezembro, de novo feriado. Não há diferença assinalável dos dias 30 e 2. Nos canais de televisão e rádio, em nenhum momento, se assinala o 1.º de Dezembro. Apagão! No Canal 1 (televisão), a única diferença do dia são 6 horas (seis!) para assinalar a estreia na TDT de todos os canais RTP - é um facto importante; mas a independência de Portugal é-o mais.

Quando fizerem inquéritos de rua a perguntar pelo 1 de Dezembro e ouvirmos respostas "foi a TDT", o professor foi o singular entendimento desta RTP sobre cidadania, sentido cívico, cultura portuguesa e identidade nacional. O meu umbigo é o centro do Mundo.

Pior! O menosprezo da partilha com o país da festa popular do 1.º de Dezembro é, na restauração do feriado, sinal inquietante de que a nova RTP traz o espírito velho, a alma má.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Fidel Castro, o 25 de Novembro e a opção ocidental - João Carlos Espada, Observador, 28/11/16


Na passada sexta-feira, dia 25 de Novembro, foi lançado em Lisboa o livro precisamente intitulado O 25 de Novembro e a Democratização Portuguesa (Gradiva, 2016). Sob a coordenação de António Barreto, João Salgueiro, Luís Valença Pinto, Manuel Braga da Cruz e Vasco Rocha Vieira, a obra foi apresentada por Jaime Gama e Manuel Braga da Cruz.

Em boa verdade, a iniciativa assinalou bastante mais do que o lançamento de um livro. Culminou um vasto programa de iniciativas da sociedade civil (onze, com efeito) que tiveram lugar durante o ano passado para assinalar os 40 anos do 25 de Novembro de 1975. O livro agora publicado dá conta das comunicações apresentadas em todas essas iniciativas. Um primeiro conjunto de comunicações tinha já sido publicado pela revista Nova Cidadania (No. 58, Primavera de 2016).

Por que motivo terão estado tantas pessoas envolvidas na evocação do 25 de Novembro — sem subsídios do Estado, ou sequer de partidos políticos? A pergunta talvez tenha alguma pertinência, sobretudo tendo em conta que — precisamente a 19 de Novembro do ano passado — a actual direcção do Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista decidiram no Parlamento que a celebração dos 40 anos do 25 de Novembro “não tinha relevância”.
Uma resposta pode certamente ser encontrada no Manifesto que deu origem ao programa de comemorações e ao livro agora publicado (originalmente assinado pelos já referidos António Barreto, João Salgueiro, Luís Aires de Barros, Luís Valença Pinto, Manuel Braga da Cruz e Vasco Rocha Vieira):
O 25 de Novembro é o oposto, não do 25 de Abril, mas do 11 de Março. O que o 25 de Novembro veio destruir foram os excessos da pretensa ‘revolução socialista’ e não as conquistas da revolução democrática de Abril. (…) O 25 de Abril era democrático, não necessariamente ‘socialista’. Não visava a substituição de uma ditadura autoritária por qualquer outra ditadura socialista.”
Com efeito, o 25 de Novembro de 1975 veio repor a democracia de tipo ocidental em Portugal. E veio desfazer os mitos terceiro-mundistas fundados na dicotomia “fascismo ou revolução”.
Essa dicotomia terceiro-mundista infelizmente teve uma longa vida entre nós. Durante cerca de 48 anos, sobretudo após a parcial vitória anglo-americana na II Guerra e a democratização do continente europeu ocidental, Portugal continuou, inexplicavelmente, com um regime autoritário (ainda que moderado, por comparação com os restantes).

Embora eu não seja historiador (e não alimente a menor curiosidade pelo fenómeno terceiro-mundista do salazarismo), parece que a principal justificação para a ditadura autóctone era a ameaça do comunismo (além da muito legítima memória da anarquia terceiro-mundista da chamada I República). Por qualquer motivo extravagante, não nos ocorreu que entre o autoritarismo de Salazar e o totalitarismo comunista havia a não-revolucionária alternativa da democracia constitucional pluralista ocidental.

Por outras palavras, vivemos durante cerca de 48 anos, por assim dizer, sob a “infeliz dicotomia” (uma expressão de Dahrendorf sobre o atavismo das culturas políticas continentais) do “salazarismo ou comunismo”.

Esta dicotomia foi imediatamente reposta após o 25 de Abril pelo terceiro-mundismo do chamado PREC. Nessa altura, a velha dicotomia “salazarismo ou comunismo” passou a ser chamada “fascismo ou revolução”. Em nome dela, as chamadas forças revolucionárias — lideradas pelo PCP e pela extrema-esquerda — tentaram a todo os custo impedir a estabilização da terceira alternativa que também o salazarismo tentara ignorar: a tranquilamente civilizada democracia constitucional pluralista ocidental.

Foi a esta obsessão terceiro-mundista com infelizes dicotomias – do “salazarismo ou comunismo” e do “fascismo ou revolução” — que o 25 de Novembro de 1975 pôs cobro. Foi o 25 de Novembro de 1975 que efectivamente repôs a esperança democrática ocidental que o 25 de Abril de 1974 anunciara. E foi graças a esta democracia ocidental que vivemos durante os últimos 41 anos em liberdade e em imenso progresso económico e social.

Parece, no entanto, que “old habits die hard“. De súbito, vai por aí uma grande comoção com a morte do ditador Fidel Castro. E um debate existencial parece apaixonar as mentes autóctones: qual foi o legado de Fidel Castro?

Bem, a resposta é óbvia e o tema totalmente desinteressante: o torpe ditador terceiro-mundista construiu em Cuba uma horrível prisão comunista.

Convém apenas recordar que Fidel impôs essa paupérrima prisão em Cuba com base na infeliz dicotomia do “fascismo ou revolução” — a que o nosso 25 de Novembro de 1975 felizmente pôs cobro. Pelo menos, até agora.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Travão a fundo na esquerda mundial - Miguel Ángel Belloso, DN, 25/11/16

Pode estar tranquilo. O mundo não está em chamas. Ganhou Trump porque era o candidato mais exequível dos possíveis. O mal menor e certamente melhor presidente do que candidato. Se se sente aturdido e sem referências é porque esteve a ser sistematicamente enganado pelos meios de comunicação que lê ou ouve, que vivem nestes momentos uma situação de falta de credibilidade apocalíptica. A maioria dos correspondentes espanhóis nos Estados Unidos - não posso falar dos portugueses porque não os conheço - são de esquerda. Chegam lá cheios de preconceitos, sem qualquer interesse em analisar o coração da América e o objetivo de amar o país mais democrático e livre da história. Vão com a intenção fatal de persuadir a sua audiência de como devia ser: a maior social-democracia do planeta. Mas a capacidades destes aprendizes de feiticeiros para mudar a idiossincrasia de uma nação forjada durante anos graças ao sacrifício e a obstinação dos que a fizeram grande e a converteram na terra de oportunidades equivale a zero. Estes rapazes viajam para a América com o estúpido objetivo de convertê-la numa réplica da Europa, no paraíso socialista, e naturalmente estatelam-se. Isso seria o menos. Seria algo magnífico não fora porque no caminho arrasam com a reputação dos meios para os quais trabalham e confundem massivamente os leitores e ouvintes. Mas não pensem que quando chocam contra a realidade têm a humildade de retificar e fazer um ato de contrição. A sua reação pueril é dizer que os que se enganaram não foram eles, mas os americanos. Houve uma primeira página maravilhosa do El Periódico de Catalunya, um dos mais lidos de Espanha, no dia seguinte às eleições, que era realmente comovedora, para não dizer patética. O título "Deus perdoe a América" acompanhava a fotografia do Trump mais irritado que conseguiram arranjar.

Como sabem, a revista que dirijo, Actualidad Económica, está nos antípodas do intervencionismo económico e do protecionismo comercial que defendeu Trump até à data. O que acontece é que as propostas da senhora Clinton eram ainda piores. Não só estava também contra o Tratado de Livre Comércio entre América e Europa, e o que já está assinado com o Canadá, como estava disposta a controlar a vida das empresas, a dar mais poder aos sindicatos, a subir o salário mínimo, a criar um banco público para financiar infraestruturas e desde já a subir os impostos aos ricos. A colocação em prática desta agenda teria sido letal para a prosperidade da nação mais possante do mundo, que é a que quer construir Trump sem que ainda saibamos se acertará, mas com algumas ideias notáveis como flexibilizar as regulações e as normas que restringem a atividade económica, baixar os impostos, reduzir o custo dos programas de assistência elevando a sua eficácia e criar um clima mais favorável para o mundo dos negócios. Precisamente o contrário do que fez Obama, que além disso devastou a política exterior da primeira potência do mundo, até mergulhá-la no ridículo.

O convencional é dizer que Trump é um populista. Não me vou opor a tal consideração, mas parece-me que é um adjetivo que no seu caso requer algumas nuances. Contrariamente à tradição europeia, onde o populismo tem enfrentado o sistema desde a direita ou desde a esquerda, o populismo americano nunca propôs a substituição da lei e das instituições pela participação do povo em assembleias. Obedece a um forte sentimento antiaristocrático, herdado dos tempos revolucionários, que vem impregnado de liberalismo individualista. A ser populista, o senhor Trump seria em todos os casos um populista constitucionalista, não um total antissistema como o senhor Pablo Iglesias, que dirige o Podemos em Espanha, e quem o apoia.

É verdade que Trump trará muitas novidades. Faltando ainda conhecer a sua equipa de governo e o programa que será aplicado, as suas mensagens são mais claras no político do que no económico. No plano internacional, o aviso à Europa é inequívoco: depois de mais de cinco décadas de protetorado, o Velho Continente deve resolver os seus assuntos. Porque se os aliados não conseguem pôr-se de acordo, Trump parece até disposto a reservar à Rússia a liderança da solução militar no Médio Oriente e a alavanca para conter o Irão. Por seu lado, a China, a grande potência inimiga, recebeu outra clara chamada de atenção em relação ao seu indissimulado expansionismo e às suas práticas comerciais e financeiras. Na questão económica, as ideias iniciais de Trump têm de ser contempladas com cautela. Por agora são só um conjunto de propostas desarticuladas, que misturam medidas keynesianas (aumento do gasto público), com outras de carácter liberal (redução de impostos) e ideias protecionistas nas relações com o exterior que põem em risco os grandes acordos comerciais já assinados e pendentes de ratificação. Qualquer passo em falso poderá ter consequências económicas nocivas, que travariam os avanços conseguidos nos últimos 25 anos.

Mas há um facto evidente, que me parece inquestionável, e a principal razão pela qual sinto compaixão pelas vítimas desta eleição, ao mesmo tempo que uma alegria enorme pelo seu resultado. A vitória de Trump parou a fundo a esquerda mundial e constitui a reprimenda mais brutal contra o insuportável patrão do politicamente correto e do pensamento social-democrata hegemónico. Com a sua vitória, o magnata nova-iorquino conseguiu o que parecia impossível, e o mais temido pelo aparato do poder e informação que há décadas impõe a sua agenda. A história recordará quem conseguiu romper o domínio da correção política, conectando-se com uma parte importante do eleitorado esquecido e sepultado sob os mais diversos eufemismos. Que seja a primeira vez na história da América que a vitória legítima de um presidente esteja a ser contestada nas ruas por uma minoria de manifestantes antidemocráticos, como se os Estados Unidos fossem algo parecido à triste Europa, como se tivéssemos transplantado os seguidores do Podemos à América, é um sinal inequívoco do que estava em jogo nestas eleições nos Estados Unidos. Que se esteja a preparar para 20 de janeiro, o dia da tomada de posse de Trump, uma manifestação colossal contra ele, com o silêncio cúmplice e suicida da formação rival, o Partido Democrata, diz muito sobre o tumor que cresceu no país com a ajuda de Obama e que a senhora Clinton estava disposta a alimentar parecendo boazinha, com o seu progressismo, o seu feminismo radical, o seu ecologismo e o seu igualitarismo.
Não sei se Trump será capaz de devolver à América a grandeza que já teve, mas não tenho dúvida de que, como aconteceu com Reagan, eleito massivamente mas também fustigado durante boa parte do seu primeiro mandato pelas elites e os progressistas mundiais, detestado até ao fim na Europa, pelo menos fará o possível para levantar o otimismo íntegro que o país demonstrou outorgando a sua confiança a um personagem histriónico, mal-educado e vulgar mas, em qualquer dos casos, fascinante. Dada a alternativa, é uma bênção.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Aleppo: Que Deus nos Perdoe.





Estive ontem na Igreja da Encarnação ao Chiado a ouvir o testemunho da Irmã Guadalupe. Esta freira é missionária e esteve em Aleppo nos últimos anos. Nos últimos tempos tem percorrido o mundo a alertar para a situação que se vive naquela cidade.

É impressionante ouvir o testemunho da irmã e perceber a gravidade da campanha de desinformação de que temos sido alvos no Ocidente. Todos os políticos e media ocidentais vendem a guerra Síria como uma luta dos rebeldes pela liberdade contra o tirânico governo de Assad.

A verdade é que Assad é dos poucos líderes laicos daquela região. A Síria é dos poucos países com liberdade religiosa, onde as mulheres tinham direitos (incluindo a andar de cabeça de descoberta!!) e com total estabilidade.

Os "rebeldes" não lutam por uma maior democracia, mas por uma teocracia, um estado islâmico, onde só o Corão é lei. Os "rebeldes", que na sua maioria nem sírios são, pertencem a grupos extremistas islâmicos, como a Al-Nursa (o braço da Al-Queida na Síria e berço do Estado Islâmico) e a Irmandade Muçulmana.

Ouvir a irmã Guadalupe força-nos a tomar consciência do sangue que está nas mãos do Ocidente quando decidiu ignorar, não apenas as consequências de uma guerra travada por bárbaros, mas a perseguição sistemática aos cristãos na Síria levada a cabo por grupos armados e financiados pelos países "democráticos".

Em nome de interesses políticos e de jogos diplomáticos o Ocidente ignorou o extermínio dos cristãos sírios. Crianças, mulheres grávidas, idosos torturados e mortos sem ter quem os defendesse. As cabeças expostas nas praças sírias, os corpos exibidos em cruzes, os mercados de escravos. Tudo isto foi ignorado com o único objectivo de remover Assad, qualquer que fosse o custo a pagar.

Porque não, não é apenas os Estado Islâmico que promove estes actos bárbaros, mas também grupos de rebeldes apoiados e armados pelo Ocidente (para além disso, o Estado Islâmico só existe na Síria por causa do enfraquecimento do governo, por isso também pelos seus actos o Ocidente é responsável).

Durante a campanha eleitoral americana ouvimos muitas vezes que Trump podia conduzir o mundo a uma guerra mundial. Isso não sei, esperemos que não. O que sabemos é que Clinton e a administração Obama, patrocinaram o genocídio dos cristãos sírios, assim como o martírio de todo aquele povo. Sobre isso nenhum jornalista, nenhum politólogo, nenhum comentador falou. Preferem todos atacar Vladimir Putin, que com todos os defeitos, foi quem garantiu que a Síria não ficasse entregue a terroristas islâmicos. Quando oiço comentar o perigo da aproximação entre Trump e Putin o meu primeiro pensamento é de que pode ser que finalmente os americanos deixem o povo Sírio em paz.

O sangue dos inocente de Aleppo, dos inocentes de toda a Síria, clama por justiça! Diante de uma sociedade hipnotizada pela comunicação social é urgente proclamar esta verdade: A Síria precisa de paz e a paz, neste momento, só é possível com a derrota do Estado Islâmico e dos rebeldes. Apoiar os rebeldes é continuar a apoiar a morte de inocentes, é continuar a apoiar o genocídio dos cristãos sírios.

A Irmã Guadalupe ontem pedia só duas coisas: oração e difusão. Rezemos e não cessemos de gritar ao mundo o que hoje mesmo está a acontecer aos nosso irmãos em Aleppo.

A pós-verdade de cada dia que nos dão hoje - Raquel Abecasis, Rádio Renascença, 23/11/16


O termo foi escolhido porque foi o conceito que segundo os eleitores foi determinante para a vitória do Brexit no Reino Unido e de Donald Trump nos Estados Unidos. Dizem os analistas que nos dois actos eleitorais a mentira que deu jeito para o discurso político prevaleceu sobre a verdade factual.

Verdade, verdade é que até para dizer que nos dois actos a mentira prevaleceu sobre a verdade foi preciso inventar uma expressão nova, que não diz a verdade sobre a mentira, ou seja, chama pós-verdade à mentira.

Sabemos que os políticos, sobretudo os mais populares, não são muito diferentes do comum dos mortais que os elegem. Logo, a dita pós-verdade tem que estar culturalmente a afectar-nos a todos, para estar a ter tanto sucesso no mundo político.

Um simples olhar sobre a realidade do nosso tempo permite perceber o que está a acontecer e permite também perceber que não foram os políticos que inventaram este mundo de faz de conta. A verdade é que, culturalmente, vivemos há muito num mundo de faz de conta, onde tudo é possível e o seu contrário também.

A realidade e a ficção deixaram de ser coisas distintas e a ordem natural das coisas deixou de ser conveniente para quem quer impor uma ordem não natural às coisas.

Senão vejamos: as palavras que durante séculos serviram para definir coisas tão simples como vida e morte, homem e mulher, verdade e mentira, têm vindo aos poucos a ser banidas dos dicionários porque agridem quem prefere cultivar a morte em vez da vida, a opção de género em vez da realidade natural e, por fim, querem chamar verdade à mentira.

O que se passa actualmente no cenário político internacional prova que a realidade é real demais para se deixar enganar pela ficção e os defensores de um mundo virado ao contrário começam a sofrer os efeitos das muitas mentiras que ao longo das últimas décadas quiseram impor às sociedades ocidentais.

Para quem quer, apesar de tudo, continuar a viver num mundo real, e não de ficção, importa não esquecer que, por mais que queiramos enganar-nos, um homem será sempre um homem e um gato será sempre um bicho.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A política externa de Trump - O teste asiático - Jaime Nogueira Pinto, DN, 23/11/16

No décor ostensivamente dourado da Trump Tower, o presidente eleito Donald Trump recebeu o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Trump estava acompanhado pelo tenente-general na Reserva, Mike Flynn, antigo diretor da DIA (Defense Intelligence Agency), e pela filha Ivanka. Flynn é o novo conselheiro nacional de Segurança e faz parte, com Reince Priebus, chefe da Casa Civil, e o conselheiro estratégico Steve Bannon, da pequena lista de nomeações até agora confirmadas pela Transition Team.

A conversa com Shinzo Abe durou cerca de 90 minutos. Abe é um líder forte e pode bem ficar até 2021 à frente da terceira economia mundial. Com ele, Tóquio assumiu uma linha de liderança regional e elevou os gastos com a Defesa para 50 mil milhões de dólares. O Japão está longe de ser o "país desarmado" do pós-Segunda Guerra. É, em despesas militares, a sexta potência mundial (depois dos Estados Unidos, da China, do Reino Unido, da Rússia e de França) e tem uma Marinha de Guerra com 130 navios. O valor corrente do comércio Japão-EUA passa os 300 mil milhões de dólares e o Japão é o segundo investidor nos Estados Unidos, depois da Grã-Bretanha: em 2015, investiu 370 mil milhões nos EUA e 700 mil trabalhadores norte-americanos trabalham ali em empresas japonesas. Apesar de tudo isto, os analistas japoneses não foram mais sagazes do que os seus colegas americanos e europeus e deram Hillary como vencedora antes do tempo. Abe não se perturbou e a 9 de novembro foi dos primeiros líderes mundiais a felicitar Trump e a garantir um encontro com o presidente eleito.

Fazia todo o sentido que o fizesse: Obama não gostou da aproximação de Abe a Putin e as relações nipo-americanas tinham já esfriado desde a saída do governo do primeiro-ministro Junichiro Koizumi, um fã de Gary Cooper e de Elvis Presley, que criara uma forte relação pessoal com Georges W. Bush.

Abe, entretanto, não só se aproximou de Putin mas também de um outro "homem forte" do momento - Recep Erdogan, da Turquia.

A relação com a Ásia-Pacífico vai ser uma área crítica para a nova administração. Trump tranquilizou Abe e a presidente sul-coreana quanto a algumas afirmações feitas na campanha eleitoral, aconselhando-os a ocuparem-se mais dos seus instrumentos próprios de defesa. Isto foi interpretado como um abandono das garantias do aliado americano num momento em que sobem tensões com a República Popular da China.

O que Trump esclareceu com os sul--coreanos foi que, com o dobro da população da Coreia do Norte e um PNB infinitamente superior, Seul não precisava de depender das tropas americanas estacionadas na península para se defender. Mas já terá tranquilizado também a presidente sul-coreana quanto ao alcance real destas considerações.

Quanto a Pequim, a nova administração tem de negociar, equilibrando a "liberdade de comércio", sentida com preocupação por parte dos trabalhadores americanos que votaram em Trump e lhe deram a vitória no Rust Belt, e uma guerra comercial entre as duas maiores economias do globo que pode sair ainda mais cara a todos, incluindo aos próprios trabalhadores americanos.

Os dirigentes chineses são nacionalistas realistas e talvez se sintam mais à vontade para discutir com uma administração que, ideologicamente, se aproxima dos seus princípios. Mas há que ver - e esse é o grande problema também com a Rússia de Putin - que, por vezes, os interesses nacionais, mesmo realisticamente afirmados e defendidos, podem acabar por chocar-se. E na Ásia estão as maiores potências mundiais depois dos EUA - China, Japão, Índia, e, de outro modo - continental -, a própria Rússia de Putin, com quem o novo presidente tem alardeado afinidades eletivas.

O candidato Trump disse muita coisa ao sabor da campanha e para conquistar um eleitorado órfão e carente. Agora, para governar, vai ter de equilibrar essas afirmações com uma realidade geopolítica a que nada nem ninguém escapa.

E, como disse Henry Kissinger a Fareed Zakaria, Trump é "único", já que chegou ao poder sem bagagem ideológica, sem obrigações ou compromissos com grupo algum e deve a sua vitória sobretudo a si mesmo e à sua estratégia. No entanto, o velho guru não deixou de acrescentar que não devia insistir-se em "amarrar Trump às posições que tomou na campanha". Para Kissinger, que falou com Trump a convite do próprio, não se deve "prender o novo presidente ao dilema agudo de seguir à letra as declarações de campanha e entrar em choque com princípios fundamentais da grande estratégia norte-americana ou de as abandonar e aparecer aos seus eleitores como um político como os outros"...

Os princípios são diferentes, deram-lhe a vitória, mas a sua aplicação tem de ter em conta as realidades do tempo e do espaço. É o que se espera de um realista.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Porque é que Costa é hábil, e Passos não? - Rui Ramos, Observador, 22/11/16


António Costa é hábil, tudo lhe corre bem, até o que lhe corre mal. Passos Coelho, não. Por isso, a pátria cobre-o de sugestões. Uns recomendam-lhe que escreva os discursos; outros, que seja “positivo”. Mas o problema de Passos não é o dos discursos, nem o das “boas notícias”. O problema de Passos é comercial. Passos, quando anuncia o “diabo”, fala para o público em geral, em nome do bem comum. Costa e a maioria de esquerda, quando dão “boas notícias”, falam para alguns grupos concretos, em nome dos seus interesses particulares. E politicamente, isto rende muito mais, o que explica a aparente felicidade de Costa.

Há quem ainda não tenha percebido. Quem nos vê sempre sob pressão fiscal, a crescer por via das exportações, imagina que estamos na mesma. Mas não estamos. António Costa tem razão: isto mudou. Durante o ajustamento, Passos governou para todos e para ninguém em especial. A austeridade foi transversal, perdoando apenas, na sua incidência directa, os rendimentos mais baixos. Quase toda a gente tinha razão de queixa do governo, que pareceu frequentemente sozinho. António Costa evitou essa situação. Redistribuiu o esforço de austeridade, de modo a poupar as classes de que podia esperar votos, como os funcionários públicos e os pensionistas ricos. Costa e a sua maioria de esquerda “segmentaram” a sociedade portuguesa, como dizem os comerciais: dividiram os portugueses em grupos, e governam a favor de alguns, por sinal aqueles que dispõem de mais garantias e rendimentos. É esta a sua verdadeira “habilidade”: ter identificado os clientes certos para quem governar.

Passos Coelho não teve essa habilidade. Entre 2011 e 2015, não negligenciou apenas a comunicação e o “networking”. Desprezou a ideologia, para aumentar impostos. Desprezou os interesses, para cortar despesa. Convenceu-se de que os tempos iam mudar e de que acabara a governação para comprar apoio. Enganou-se: a folga que ele deixou está a ser gasta por Costa para fazer precisamente o que Passos julgou que tinha acabado.

Na oposição, Passos continua a falar para todos, em nome do bem público. Costa fala para os funcionários, os pensionistas com as pensões mais altas, ou até para grupos tão específicos como os bolseiros da FCT, que fez questão de referir durante o debate do orçamento. Fica-se com a impressão de que se lhe dessem tempo, Costa poderia nomear os grupos de interesse para quem governa, ou até as pessoas uma a uma. Tem grandes antecessores nessa atitude: já Fontes Pereira de Melo explicava que em Portugal é politicamente mais rendoso fazer favores a indivíduos do que trabalhar para o bem comum.

Nos seus discursos, mesmo quando os escreve, Passos cita estatísticas, raciocina, é didáctico. Parece acreditar que as políticas certas são convincentes por si. Mas este não é o ambiente para as suas lições. O debate público degradou-se, e os factos deixaram de ter importância. Os interesses particulares imediatos de cada um são hoje a medida de todas as coisas. Com as suas devoluções e integrações, Costa governa para agora; com os seus argumentos, Passos fala para outros tempos.

Podem os sábios vir ensinar que o crescimento económico é metade do espanhol, ou que os juros da dívida estão a subir. Podem os jornais notar que o Metro de Lisboa circula no Terceiro Mundo, ou que há estátuas derrubadas no Museu de Arte Antiga. Quem quer saber disso, se os funcionários vão ser aumentados, e os “precários” entrar no quadro? Em Portugal, o cuidado do bem comum só voltará a ter importância numa nova situação de emergência, quando a força das circunstâncias o impuser. Até lá, continuaremos na era das habilidades.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Marcelo explicado aos portugueses - Ferreira Fernandes, DN, 21/11/16

O raio do homem, Marcelo, sabe estar com pobres e com ricos, com ignorantes e sábios - o que entre nós é de espantar. Para cima, ele, que foi ministro, líder partidário, catedrático, e é Presidente, fala aos seus com à-vontade. Prudentes, preferimos não o imitar e nessa direção, de baixo para cima, continuamos com as poses tradicionais: circunspectos, pé-atrás, com mesuras e à coca (julgo ser esta a mais comum). Para baixo, o falar comum português desliza com a insídia do desprezo ou, pior, esse mesmo mas disfarçado, paternalismo. Com Marcelo, não. Ele trata cada um como se fosse o seu interlocutor naquele momento. Conversa. Troca palavras. Tal como é para cima, também para baixo. Ele é uma lição de democracia em andamento que não temos aproveitado como devíamos. Mas acaba por ser uma irritante lição, como são todas que são simplesmente civilidade, a normalidade entre iguais. Há quem não goste, sobretudo daquele tu-cá-tu-lá popular, que ainda por cima tem o inconveniente de não poder ser descaradamente combatido. Há dias, ele foi apanhado a falar com a rainha de Inglaterra. Viram-no e ouviram-no impertinente, ridículo, até - disse-se. Deu várias crónicas nos jornais e indignações nas redes sociais. Porém, eu vi alguém dizendo elegantemente a um símbolo que este o marcou, era ele garoto. Marcelo foi mais uma vez uma pessoa a dizer a outra que a tinha em conta. Admito, talvez seja demasiado gostar da vida e de pessoas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Por que estou feliz com Trump - Miguel Angel Belloso, DN, 18/11/16


Na terça-feira 8 de novembro, o dia das eleições nos Estados Unidos, perguntaram-me numa emissora de rádio espanhola qual dos dois candidatos preferia que ganhasse. Respondi dizendo que nenhum dos dois, porque ambos pretendiam revogar os acordos de livre comércio assinados e ainda pendentes entre a América e o resto do mundo, e porque tinham uma visão protecionista da economia que só pode prejudicar a longo prazo todos os cidadãos. Mas como alguém tinha de vencer disse, sem grande alarido, que preferia que ganhasse Clinton. A razão que dei foi que a situação mundial não está propriamente ideal para fazer experiências e que, para todos os efeitos, a democrata não era melhor do que Trump, mas era mais previsível.

Mas como eu também sou previsível, disse que estaria igualmente satisfeito se o povo americano se decidisse por Trump, nem que fosse só pelo simples prazer de contemplar nos dias seguintes as caras de estupefação e os perdigotos que sairiam da boca de todos os progressistas do planeta. E assim continuo, sem parar de rir desde o sonoro acontecimento, assistindo ao espetáculo patético destes democratas de baixa qualidade, que no fundo são uns déspotas, uns totalitários e uma gente completamente dispensável.

Apesar de ter deixado expressa qual era a minha preferência, alegro-me muito com a vitória de Trump por vários motivos. Foi incontestável, foi contra todos os prognósticos e ocorreu após uma campanha maciça e suja na qual participaram quase todos os meios de comunicação do mundo. Não há comparação na história para a quantidade de insultos e de lixo despejados contra Trump, sobretudo, como não podia deixar de ser, na Europa. Podia até perdoar esta atitude fratricida: eu passo o dia a destruir a esquerda e a criticar o Podemos ou o Bloco de Esquerda em Portugal. Mas acho que consigo não adotar o tom de soberba e de superioridade moral com que a esquerda olha para um adversário que considera mais como um inimigo.

O que mais me incomoda, explico, não é a humilhação de Trump mas o desprezo impiedoso com que foram tratados aqueles que votaram nele e o puseram na presidência dos EUA. John Carlin, por exemplo, um jornalista britânico que costuma escrever coisas repugnantes no jornal El País - que é o líder de vendas em Espanha - contra todos aqueles que pensam de maneira diferente afirmava, antes do evento, que "para entender o fenómeno Trump é preciso recorrer à antropologia, ao estudo do animal humano na sua versão mais selvagem e primitiva". "Que o grotesco, o surreal, é que tantos milhões de habitantes do país mais próspero do planeta partilhem uma visão tribal; que não só Trump, mas os seus devotos, estão apenas um degrau acima da selva." Que o perigoso "é que umas massas descerebradas adorem tal espécie de personagem". Pois bem, este personagem ocupará a 20 de janeiro a Casa Branca e congratulo-me com este acontecimento só para contemplar a cara dos jornalistas e comentaristas que atacam diariamente, sem qualquer espécie de pudor, todos os compatriotas que não pensam da mesma maneira.

Ironicamente, estes mesmos jornalistas, que são basicamente azarados, fizeram o mesmo papel ridículo à conta do referendo da Colômbia. Como no caso dos Estados Unidos, o certo, em sua opinião, era votar sim, apoiar o mal chamado plano de paz. Mas o que aconteceu foi precisamente o contrário. Apesar de uma campanha maciça a favor do presidente Santos, paga em boa parte do mundo, incluindo em Espanha, pelo governo colombiano, apesar de um ambiente completamente hostil ao não, para o qual contribuíram, imprudentemente, a maior parte dos países do mundo, com Obama à cabeça, e logo o governo de Rajoy, os colombianos disseram não. Rejeitaram contra todos os prognósticos e, enfrentando enormes dificuldades, uns acordos que supunham uma claudicação do Estado de direito face ao maior cartel mundial de narcotráfico, que causou milhares de vítimas. Repudiaram o estabelecimento de amplas zonas do país com uma agricultura comunista, a concessão à guerrilha das FARC da representação parlamentar e o estabelecimento de um sinistro sistema de impunidade judicial. Isto é, decidiram votar contra o que lhes aconselhavam, sob pena de inferno, os apóstolos do pensamento único, do politicamente correto, os progressistas planetários globais, quer seja de esquerda ou de direita.

Na Actualidad Económica, o professor universitário Pablo Guerrero escreveu então que o inesperado resultado do plebiscito colombiano realçava, como aconteceu com o brexit, o abismo que na atualidade separa as elites políticas, económicas, culturais e jornalísticas do resto da comunidade. O mesmo aconteceu nas eleições dos Estados Unidos. Estas elites transnacionais já não se preocupam, infelizmente, em esconder o desdém que sentem pelas pessoas que veem como "ignorantes", "reacionárias" e "massas pérfidas", ao estilo de como as descreve Carlin. Mas não se dão conta de que são precisamente as elites, desligadas do comum dos cidadãos, as que ridicularizam e humilham despudoradamente o resto da sociedade, que reage, no Reino Unido, na Colômbia e nos Estados Unidos contra o exercício despótico do poder.

Seria injusto esquecer, no caso dos Estados Unidos, o principal responsável por as coisas terem chegado a este ponto, que não é outro senão o presidente Obama, outro dos protegidos pelo pensamento dominante. Um ídolo na Europa, Obama esteve oito anos no governo e deixou, como resultado, um país mais dividido do que nunca, com o conflito racial mais à flor da pele do que nunca - o que vindo de um negro é de notar -, com a política exterior mais desacreditada da história do país, e com uma sociedade que, apesar dos avanços em matéria económica e uma taxa de desemprego mínima, está mais desencantada e insatisfeita do que estava há muito tempo. Mas a América é grande, e demonstrou-o uma vez mais, sacudindo as ameaças e o temor que lhe inspiravam os cantos de sereia do establishment, decidindo entregar a presidência a Trump.

Tenho um amigo que vive há muito tempo em Nova Iorque, na Quinta Avenida, e que é um corretor que também preferia a Clinton, mas que um dia depois das eleições me escreveu esta mensagem: "Trump não será tão mau presidente como prevê a imprensa. A realidade é que é muito inteligente, que soube ler como ninguém a realidade da América, e que fez uma campanha tremendamente eficaz e barata. Não há nenhuma razão para pensar que deixará de ser inteligente a partir de agora. Fará o que é preciso para "voltar a tornar a América grande", até se isso significar fazer o contrário do que prometeu. Não tenho dúvida disso." Eu também espero que uma vez ungido com a responsabilidade do poder, Trump tenha o bom senso de quebrar com uma grande parte dos absurdos que defendeu durante a campanha. Que Deus lhe dê sorte.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As duas faces da mesma moeda - António Paula Soares, Sábado, 14/11/16

Uma semana após as eleições norte americanas continuamos a assistir às mais diversas manifestações contrárias à vontade democrática da população americana. Manifestações essas, que vindas dos mais variados recantos do Mundo, poderão umas considerar-se mais coerentes que outras.

Vejamos o caso de Portugal, onde um partido político, com assento parlamentar, publicitou nos seus meios de comunicação social um manifesto contrário à democracia de um estado soberano, como é o caso dos Estados Unidos da América.

O PAN (Partido pelas Pessoas, Animais e Natureza) publicou um comunicado onde descreve o resultado das eleições norte americanas como "a balança que hoje foi tendenciosamente desequilibrada para o lado do nacionalismo, do racismo, da xenofobia, da misoginia, da homofobia e do especismo", dizendo igualmente que "nenhum país sairá beneficiado com a presidência de um candidato que apoia uma posição meramente ideológica" ou que continua por se atingir uma real solução para uma liderança global em termos de um novo paradigma que "elimine, de vez, o antropocentrismo", ou seja, uma liderança política mundial que elimine de vez o papel do homem como o centro do Universo.

Ora, considerando desde logo surpreendente que um partido político que elegeu um deputado para Assembleia da República graças a um sistema eleitoral que privilegia franjas da sociedade com pouca expressão no colectivo eleitoral nacional, e como tal, tenha permitido que um partido com apenas 1,39% dos votos nacionais possa ter um representante na Assembleia da República, venha agora criticar o esquema democrático de um País que favorece os estados menos povoados e rurais, de modo a que todos possam ter representação nos seus órgãos de soberania.

Mas mais difícil de entender é a dualidade de critérios, ou a incapacidade de introspecção destes movimentos e dos seus seguidores, perante a realidade de ideologias diferentes das suas. E isso torna-se visível no dia-a-dia da comunicação interna e externa destes mesmos movimentos, ou não fossem uma constante os ataques às liberdades e direitos democráticos das ideologias contrárias às suas.

Estamos a falar de um mesmo movimento e partido político que permitem que nos seus meios de comunicação sejam feitos ataques como incitação à violência contra os profissionais de tauromaquia, ou inusitados impropérios desejando a sua morte e dos seus familiares. Os mesmos órgãos de comunicação que permitem a definição dos caçadores como assassinos, e inseridos no rol de incitações semelhantes a qualquer criminoso hediondo. Ao mesmo tempo que usa e abusa da imagem de espécies protegidas para as quais nada fez por garantir a sua viabilidade existencial, mas que ataca indiscriminadamente quem o faz. Igualmente, atacam indiscriminadamente os profissionais do mundo rural e da pecuária, por serem um entrave aos seus princípios vegan e de um objectivo claro da equiparação dos animais aos humanos.

O mesmo partido que propôs na Assembleia da República, que para se atingir uma sua ideologia, os direitos e liberdades de quem cria animais de raça deveriam ser proibidos, como se estivéssemos perante um estado totalitário em que a vontade de poucos subjuga os direitos de muitos. O mesmo partido que assenta a grande maioria das suas propostas e intenções em políticas proibicionistas, sem nunca procurar consensos com as outras partes.

Então, com que direito pretende este movimento, pouco ou nada democrático, com soslaios de totalitarismo, e que se rege por um pressuposto ideológico, vir agora criticar uma democracia que fez valer a voz dos seus cidadãos, goste-se ou não se goste do resultado da mesma?

É uma estranha forma de estar em democracia…

Eu pessoalmente, não concordo com as políticas e ideais de nenhum dos candidatos mais fortes nas eleições norte americanas, mas eu não tenho o "poder" de voto nos Países de outros, e como tal, respeito a decisão democrática dos que o fizeram, quer goste mais, ou menos, do resultado obtido.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A luta continua pela Linha de Cascais - Carlos Carreiras, i, 16/11/16

Quando chegarmos ao final de 2016, é muito provável que o número de veículos na A5 seja igual ou até maior do que o número de passageiros nas carruagens da CP na Linha de Cascais.

Todos os dias, 65 mil veículos fazem-se aos 25 km de tapete de alcatrão da mais antiga e mais movimentada autoestrada nacional. É o dobro do tráfego da A1, que liga Lisboa ao Porto. Contas feitas, circulam na A5 23,7 milhões de veículos por ano. Estes números comparam com os 23,8 milhões de passageiros que a CP contabilizou na Linha de Cascais o ano passado.

Tomando como boa a teoria de que os cidadãos fazem escolhas económicas racionais, a preferência pela autoestrada (conhecida pelo seu trânsito intenso, especialmente a hora de ponta) e pelo automóvel (com a gasolina a preços elevados) contra o comboio é bem reveladora da perda de competitividade da Linha de Cascais – que, recorde-se, em 1995 tinha 45 milhões de passageiros.
O que estes números nos sugerem é que, ao longo dos anos, o comboio deixou de servir as necessidades dos cidadãos no eixo Cascais-Oeiras-Lisboa. E sabemos porque é que isso aconteceu. A oferta insuficiente de comboios, a degradação consistente da linha e do material circulante, a relação desproporcionada entre o preço e a qualidade do serviço e as periclitantes condições de segurança configuram um processo de rutura. Os utilizadores afastam-se do comboio. Foi assim que chegámos a este ponto de desperdício económico (a esmagadora maioria dos carros circulam na A5 com um único passageiro), de insustentabilidade ambiental (sim, o automóvel polui muito mais do que o comboio) e de irracionalidade metropolitana (é lamentável que no tempo da quarta revolução industrial, três dos municípios mais prósperos e populosos do país tenham uma linha de caminho-de-ferro da segunda revolução industrial).

Desde 2011, primeiro com o governo Sócrates, depois com o governo Pedro Passos Coelho e, depois, com o governo Costa, que tenho chamado a atenção para a bomba-relógio em que se transformou a Linha de Cascais. Já não é possível adiar mais os investimentos. Precisamos de soluções. E a mim, como autarca eleito pelo PSD, qualquer solução pública ou privada ou mista me serve. Tem é de ser uma solução que garanta o conforto e segurança dos passageiros e a competitividade regional.

A Linha de Cascais é um problema de muitos governos ao longo dos anos. Todos os executivos convergiram na necessidade de investimento. Mas nenhum foi capaz de o concretizar. O anterior governo foi, apesar de tudo, o que esteve mais próximo disso. Estavam previstos 259 milhões de euros de investimento na ferrovia: 135 milhões provenientes do Orçamento do Estado e fundos europeus para a requalificação da infraestrutura; 124 milhões de privados para renovar o material circulante. Havia até um acordo entre os três autarcas para validar esta solução, que só não avançou dada a proximidade de eleições legislativas. Só que, entretanto, toma posse o governo de António Costa. O plano que tinha sido alinhavado consensualmente é desmantelado por preconceito ideológico. “Privados na Linha de Cascais, nem pensar”, vociferam BE e PCP. A verba orçamentada para a requalificação da ferrovia evapora-se. Sabemos depois que é desviada para a Carris e para a STCP, compondo as contas extravagantes das reversões exigidas pela esquerda radical que apoia o governo. Os utilizadores da Linha de Cascais ficaram a saber que, por vontade do PCP e do BE, com a conivência do PS, não têm direito a transporte público. Suprema hipocrisia do PCP: os privados nos transportes públicos são excomungados na Margem Norte, mas tolerados nos concelhos comunistas da Margem Sul.

Ao mesmo tempo que matou o plano do anterior governo, o ministro do Planeamento, Pedro Marques, perdeu toda a liderança do processo: não tem alternativa, não tem força dentro do governo e está refém da tralha ideológica da esquerda radical. Com Pedro Marques teremos um TGV de demagogia, mas nenhuma solução credível.

Se há primeiro-ministro que tem o dever de conhecer bem os problemas da Linha de Cascais é António Costa. Partilhámos muitos dos riscos e problemas da ferrovia no tempo em que era presidente da Câmara de Lisboa. É por isso que o primeiro-ministro só tem uma de duas opções: ou nos diz, de uma vez por todas, que a Linha de Cascais não é prioridade para o seu governo e que não há dinheiro para ela; ou se dispõe a encontrar uma solução de mobilidade para os milhões de passageiros que a utilizam.

António Costa sabe que conta com os três autarcas do eixo Cascais-Oeiras-Lisboa para uma discussão séria. A segurança das pessoas, a competitividade da economia portuguesa num dos seus eixos mais relevantes e a defesa da sustentabilidade ambiental exigem essa coordenação de vontades. Estes são os factos. Nada fazer é deixar que a futilidade ideológica triunfe sobre as necessidades reais das pessoas.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Pode um psicológo ser católico? - João Miguel Tavares, Público, 15/11/16

Indignação da semana: Maria José Vilaça, psicóloga e responsável da Associação dos Psicólogos Católicos, disse nas páginas da revista Família Cristã que era possível aceitar um filho homossexual sem aceitar a homossexualidade. “Eu aceito o meu filho, amo-o se calhar até mais, porque sei que ele vive de uma forma que eu sei que não é natural e que o faz sofrer.” E acrescentou: “É como ter um filho toxicodependente, não vou dizer que é bom.” Esta frase provocou o habitual incêndio das redes sociais e dezenas de queixas na Ordem dos Psicólogos, que emitiu um comunicado onde recorda que nas suas intervenções públicas os psicólogos estão obrigados a “observar o princípio do rigor e da independência, abstendo-se de fazer declarações falsas ou sem fundamentação científica”. De seguida, a Ordem anunciou ir participar o caso ao Conselho Jurisdicional por considerar tais declarações “de extrema gravidade”.

Cá está – um piscar de olhos e já se foi longe demais. A opinião que eu tenho em relação às declarações de Maria José Vilaça é igual à dos indignados: discordo profundamente dela e acho a comparação entre um filho homossexual e um filho toxicodependente de uma infelicidade extrema. Parece-me, por isso, perfeitamente natural que as pessoas manifestem a sua discordância pública em relação à senhora e que as redes sociais se incendeiem, como de costume. Nada contra até aqui. Tudo contra a partir daqui: há um momento, altamente desagradável, mas cada vez mais recorrente, em que se passa do direito de discordar para o desejo de despedir. As pessoas deixam de se limitar a criticar Maria José Vilaça por ter dito uma tontice, e a rebater a sua opinião com argumentos sustentados, e passam a defender que ela deve ser silenciada e proibida de exercer a sua profissão porque, pelos vistos, hoje em dia não se pode ser psicólogo e ao mesmo tempo considerar a homossexualidade uma prática “não natural”.

Mas será que não se pode mesmo? É que se não se pode, como a Ordem dos Psicólogos parece defender, se passou a ser uma coisa tão inadmissível como a prática da lobotomia para curar doenças mentais, então há aqui uma notícia muito maior do que as declarações de Maria José Vilaça, e que está tristemente a passar ao lado da comunicação social. A primeira frase de todos artigos sobre este tema deveria ser esta: “A Ordem dos Psicólogos Portugueses defende que um católico que aceite os ensinamentos da Igreja em relação à homossexualidade não tem condições para ser psicólogo e deve abandonar de imediato a sua profissão.” Esta é a notícia, meus senhores. Mandem imprimir, enviem para o Vaticano e informem o Papa Francisco.

Guardemos a mordaça e lembremos os ensinamentos do bom e velho Stuart Mill: nunca devemos impedir de falar as pessoas que acreditamos estarem erradas. Ao exporem as suas ideias, temos uma excelente oportunidade para as rebater e mostrar aos outros a superioridade dos nossos argumentos. Infelizmente, é cada vez menos isso que estamos a fazer. A linha entre o confronto de ideias e o silenciamento de ideias está a ser ultrapassada vezes sem fim, criando uma pressão insustentável sobre quem pensa diferente de nós. Depois espantamo-nos que as pessoas mintam nas sondagens sobre a sua orientação de voto e acabem a colocar a cruzinha em Donald Trump quando ninguém está a ver. Numa sociedade livre, a resposta a quem diz parvoeiras não é “cala-te!”. É, isso sim, “que argumentos tens para defender tamanha parvoíce?”.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A vitória de Trump explicada às criancinhas - Alberto Gonçalves, DN, 13/11/16

1. O próximo presidente dos EUA será o célebre pantomineiro Donald Trump, um racista que tem negros entre os seus principais apoiantes, um xenófobo casado com uma estrangeira, um intolerante que diz coisas simpáticas sobre as "causas" gay, um belicista que condena intervenções militares e um sexista que conspurca a tradição cavalheiresca que vai dos Kennedy ao sr. Clinton. A América bateu no fundo.

2. Pensando melhor, a acreditar nos sábios da opinião televisionada e publicada, a América já batera no fundo quando elegeu Bush filho, o simplório, Bush pai, o esbirro da CIA, e Reagan, esse actor de terceira categoria. Excepto quando elege socialistas, a América vive a descobrir novos fundos. Felizmente para nós, os fundos europeus têm um significado diferente.

3. Trump, asseguram os especialistas, representa uma América dividida. Já Hillary é a América "inclusiva" (sic), a América que acolhe todos. Todos, excepto as dezenas de milhões de selvagens, iletrados, campónios, desdentados, racistas, retardados, brancos, mafarricos e membros do KKK que votaram Trump e, por isso, mereciam a forca ou o desterro. À intolerância responde-se com o amor incondicional.

4. Muito se falou na incapacidade de os eleitores de Trump - analfabetos alimentados a ódio, lembram-se? - aceitarem uma derrota. Por sorte, os eleitores de Hillary têm bom perder: descontados os insultos, as manifestações e a ocasional destruição de propriedade alheia, aquilo é tudo gente civilizada.

5. Num ponto a "inteligência" acertou: Trump ganhou graças ao medo - o medo que a "inteligência" quis que os eleitores sentissem face a Trump, e a impediu de perceber o que quer que fosse. Não fora a realidade, a "inteligência" iria longe. Na manhã seguinte, em vez de reconhecerem o erro e mudarem de profissão, os peritos continuaram por exemplo a prever a queda das bolsas. Enquanto as bolsas subiam a valores inéditos. Força, rapaziada.

6. Ao contrário de Trump, Hillary beneficiou do apoio de inúmeras celebridades. Em vão, escusado dizer. Ainda hoje estou para perceber porque é que o eleitor americano médio não vota nos candidatos indicados por Lady Gaga, Bruce Springsteen e aquele rapaz dos Bon Jovi.

7. A propósito de celebridades, muitas prometeram mudar de país caso Trump ganhasse. A preferência parece cair no Canadá, mas houve quem referisse a Espanha, a Inglaterra e a Nova Zelândia, cujos aeroportos já fervilham de paparazzi à espera das vedetas. Nenhuma se mostrou desesperada a ponto de escolher Portugal.

8. A propósito de Portugal, cá como lá os canais televisivos colocaram criaturas que não perceberam nada do que se passou até às eleições para nos elucidarem acerca do que se vai passar a seguir. E todas continuam a não entender que cada uma, à sua microscópica escala, simboliza exactamente a cegueira e a arrogância que alimentaram o sucesso de Trump.

9. Fervorosos apoiantes do governo português, um bando de oportunistas a reboque de leninistas, guevaristas e estalinistas, alertaram repetidamente e sem se rir para as mentiras e a demagogia de Trump. É preciso cuidado com quem manda na América; aqui, qualquer porcaria serve.

10. O inquilino da Câmara de Lisboa, que ninguém elegeu, mandou pendurar pela cidade uns cartazes alusivos à vitória do presidente eleito dos EUA. Se calhar, a coisa pretendia ter graça. Como os cartazes estão escritos num inglês pior do que o dos rednecks de Trump e tão mau quanto o português do antecessor na autarquia, a coisa tem graça.

11. A SIC convidou uma psicóloga para ensinar a explicar a vitória de Trump às criancinhas (a julgar pela sensatez das análises, a vitória de Trump tem sido até aqui explicada pelas próprias criancinhas). A Visão publicou um editorial intitulado "Merda, merda, merda." O popular fundador, líder e membro do falecido partido Livre convocou um colóquio destinado a combater o trumpismo (?). Aparentemente, o combate faz-se pela comédia involuntária.

12. O facto de haver tantos comentadores, politólogos e analistas a garantirem que Trump é mau não garante que Trump seja bom. O homem é avesso a Washington e à globalização e à Europa e à NATO. O homem privilegia o "investimento" público e a "criação" de emprego. O homem entende-se com Putin. De repente, Trump confunde-se com um esquerdista comum. Porém, dado que irrita esquerdistas, é possível que tenha alguma virtude.

13. Simplificando imenso, Trump ganhou porque prestou, ou fingiu prestar, atenção à parte da população que só não é desprezada quando a usam para protagonizar momentos de chacota. Às vezes, as pessoas cansam-se.

14. Trump não foi o primeiro não político a chegar à Casa Branca, mas foi o primeiro não político que não precisou de ganhar uma guerra civil ou mundial para o conseguir. Sob certo ponto de vista, trata-se de uma proeza. Quanto ao resto, convém esperar para ver. A beatificação de Obama acabou por ser precoce. Talvez a demonização de Trump também o seja. É questão de fé: tenho pouca em Trump, e nenhuma na lucidez dos analistas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Territórios privados da esquerda - Miguel Angel Belloso, DN, 11/11/16

Já temos governo em Espanha. Os investidores parecem muito satisfeitos. Nós, os liberais, somos otimistas por natureza, mas ainda nos resta um pouco de senso comum, que trabalha em sentido contrário. Quase um ano de interinidade demonstrou uma tese que defendo há muito tempo: a vida continua, e até pode dar lugar a resultados exuberantes, na ausência de um poder político regularmente empenhado em legislar, muitas vezes numa má direção. Por exemplo, a economia espanhola vai crescer neste ano à volta dos 3,3%, o valor mais alto da última década. Criaram-se mais de um milhão de empregos nos últimos dois anos. A inflação está sob controlo. O peso das exportações sobre o PIB é maior do que nunca. E podia citar outros dados igualmente positivos sobre a conjuntura que atravessa o país.

Ironicamente, o aparecimento de um novo governo pode acabar com esta lua-de-mel. Espero explicar-me bem. Não quero dizer que tudo se estrague rapidamente, mas é um facto que as previsões para 2017 situam o crescimento da economia quase um ponto abaixo do deste ano. E há algumas razões para pensar que isto vai acontecer. A maioria são exógenas. O efeito da política monetária expansiva do BCE é cada vez menor. A onda de protecionismo reinante está a contrair o comércio internacional. O petróleo, de que tanto dependemos, é provável que suba. Etcétera.

Mas também há causas internas: a incerteza sobre a capacidade da nova equipa do PP para governar com apenas 135 deputados quando a maioria absoluta exige contar com 176. Penso que já partilhei com vocês a minha impressão de que esta legislatura será fugaz, apesar de ter alguns amigos irrepreensíveis que pensam que estou enganado. Mantêm a esperança de que o Partido Socialista tenha mais incentivos para colaborar na procura de soluções para os grandes desafios que enfrenta a nação do que para fazer uma oposição vândala. Eu penso o contrário.

O Partido Socialista está completamente partido. Depois de ter afastado Pedro Sánchez, tem uma grande tarefa pela frente para reconstruir-se e reformular o seu projeto, e nestes momentos os incentivos que tem são perversos. Tem de procurar o perdão dos seus militantes e de grande parte dos seus eleitores pelo facto de a direita ter voltado ao poder graças à sua abstenção. De facto, o presidente da gestora socialista que agora dirige o partido, Javier Fernández, que é um homem prudente e cortês, já disse que será muito complicado apoiarem o Orçamento do Estado, uma questão-chave para nos reconciliarmos com Bruxelas.

Também li com cuidado a resolução do comité federal na qual se aprovou a abstenção dos socialistas para a investidura de Rajoy, digamos que a rendição. E trata-se do mesmo catálogo de insensatezes que defendia o extinto Sánchez! Como são incorrigíveis, os socialistas lutarão por revogar a reforma laboral e a lei de educação. E porquê? Bom, por uma razão elementar, muito simples. Porque pensam que ambos os territórios lhes pertencem por direito divino. Desde que chegaram pela primeira vez ao poder em 1982, todas as leis de educação - até a última, que ainda não entrou totalmente em vigor - foram elaboradas pela esquerda com uns resultados que a prova empírica revela catastróficos. Os nossos filhos, refiro-me aos das famílias espanholas, estão entre os piores da Europa em compreensão de leitura, no exercício das matemáticas e na identificação dos factos históricos. Destruiu-se a autoridade do professor, inculcou-se uma pedagogia ginástica e lúdica em prejuízo da instrução e da memória, combateu-se deliberadamente a excelência a favor da mediocridade igualitária, e optou-se pelo doutrinamento em vez de por uma educação cabal capaz de formar cidadãos com senso comum.

É inaudito que os socialistas continuem orgulhosos de ter condenado os nossos filhos à indigência intelectual e à falta de capacidade e aptidão para encontrar um emprego, mas é o que acontece. E continuarão a opor-se a qualquer alternativa porque a esquerda tem inscrita geneticamente a ambição de criar viciados na sua causa, não importa que sejam analfabetos funcionais se podem converter-se em eventuais eleitores. Espanha é o único país do mundo no qual, por causa da esquerda, muitos estudantes não querem ser examinados - que sejam provadas as suas faculdades académicas. Pior ainda, é o único país do mundo no qual muitos pais os apoiam; só querem que os seus filhos passem e ponto, que não lhes deem problemas, que tenham o menor número de trabalhos de casa possível, a maior comodidade, o que for preciso para que não tenham de alterar o próximo fim de semana e criar-lhes dores de cabeça.

Depois, naturalmente, estes mesmos pais, que são de esquerda e que procriaram filhos de esquerda tão irresponsáveis como eles, queixam-se de que a sua prole não encontra um emprego, e então querem que seja o Estado que lhe proporcione um, ou que o Estado obrigue as empresas privadas a fazê-lo, e, como isto não é possível, também se queixam enfaticamente quando a direita põe um pouco de ordem no mercado laboral e começa a gerar postos de trabalho. Como os dados não se podem refutar, o argumento da esquerda, essencialmente obsceno, é que este tipo de trabalho que cria a direita é precário, temporário, com salários baixos, sugerindo que é melhor que os filhos, ou quem quer que seja, estejam em casa em pijama vendo os infames programas de televisão que justificam o share das estações de televisão espanholas, mas obviamente recebendo o respetivo subsídio de desemprego.

Assim é o meu país, queridos amigos, o que criou a esquerda com a cumplicidade da direita; por isso, é muito difícil que o novo governo possa avançar na reforma laboral de que precisa a nação para continuar a impulsionar o crescimento e a criar emprego. O mercado de trabalho foi desde sempre, como a educação, um dos objetos tradicionais da apropriação indevida da esquerda por vários motivos, mas sobretudo pela sua relação incestuosa com os sindicatos e pelo rastro de desemprego recorrente que se produziu como consequências das suas leis implacáveis contra a flexibilidade das empresas.

Agora, nesta próxima legislatura, querem revogar a reforma laboral, liquidá-la, revertê-la. Querem revitalizar a negociação coletiva, que foi o maior embrião de desempregados do país, querem voltar a dar poder aos sindicatos, que felizmente tinham sido reconduzidos à posição que nunca deviam abandonar, que é a de ajudar no crescimento económico e do emprego - em vez de fazer política -, querem virar tudo ao contrário, subir os impostos às pessoas que prosperam, que têm êxito, que viram a luz ao fundo do túnel, e castigar as empresas, que são as que geram trabalho mas que são muito más. Tudo isto é o que querem fazer os que agora podemos dizer que são os bons socialistas, os que afastaram o demente Sánchez.

Pois bem, senhores, se tudo isto é ou pode ser como vos conto - espero que me deem o benefício da dúvida -, sendo evidente que temos um novo governo em Espanha mais de 300 dias depois, a grande pergunta é: há alguma possibilidade de que este governo em minoria, preso entre os demónios de um PSOE destruído e um partido como o Ciudadanos, que ainda não sabe o que quer ser quando crescer, possa implementar as reformas incontornáveis de que a nação precisa? Pode-se ser otimista nestas condições?

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O inesperado mensageiro - Jaime Nogueira Pinto, DN, 10/11/16

Acabaram-se as semanas de vício eleitoral, com a consulta matinal de sondagens e gráficos do Real Clear Politics e a leitura da carta five thirty-eight de Nate Silver e dos artigos de imprensa e de opinião debitados por progressistas e conservadores, militantes e académicos.\

Nesta recta final, o The Washington Post, o NY Times e a CNN, libertos já de camuflagens, exibiam descaradamente o seu roncante militantismo anti-Trump. A Fox News procurava equilibrá-los, atacando Clinton. A diferença é que a estação de Murdoch sempre foi assumidamente partidária e considerada como tal, enquanto os outros se davam e eram dados como isentos, dignos e objectivos.

Trump ganhou. A opinião pública europeia - desde os respeitabilíssimos órgãos do establishment internacionalista liberal até ao mais trotskista opinion maker - tinham apresentado o caso: o milionário excêntrico da poupa alaranjada (sexista, racista, ignorante, arrogante, falido) tinha arregimentado as hordas dos deploráveis de toda a América - red-necks, fanáticos religiosos, desempregados, brancos assustadiços - e tinha-os espicaçado no ataque ao progresso, à civilização, à globalização e aos mercados. Ia com certeza perder, tinha de perder. Os inimigos do processo evolutivo estavam desde sempre condenados a ser derrotados e atirados para o caixote do lixo da história.

Toda a Wall Street, todos os media responsáveis, alguns republicanos country-club, muitas das estrelas de Hollywood se juntaram atrás da "primeira mulher presidente" da América. Tinha a experiência política de primeira-dama do Arkansas e dos EUA, de senadora por Nova Iorque, de secretária de Estado de Obama. As confusões dos dinheiros públicos e privados da Fundação Clinton, as embrulhadas dos e-mails desaparecidos, as histórias há muitos anos mal contadas não interessavam muito. E os "levantados do chão" voltariam ao chão, de onde nunca deveriam ter saído.

Tudo o indicava: as sondagens, os gurus, os veneráveis políticos das esquerdas e das direitas, tudo o que era sólido statu quo.

Mas, como "tudo o que é sólido se dissolve no ar", a frase de Marx e Engels no Manifesto Comunista voltaria inesperadamente a ganhar vida através de um estranho arauto e de novos "levantados do chão". E aconteceu o 8 de novembro de 2016, uma eleição na data do 156.º aniversário da eleição de Abraham Lincoln para presidente dos Estados Unidos.

Trump ganhou e a sua vitória foi a derrota do establishment, às mãos de um seu filho pródigo e rebelde aliado aos marginais da periferia. Foi uma vitória contra o dinheiro (Hillary tinha Wall Street e mais do dobro da verba de Trump); contra os grandes media; contra as elites de todas as espécies; contra a correcção política; contra as sondagens e seus institutos, contra toda uma gama de comentadores, analistas, jornalistas, eminências, senhores, escribas e capatazes do sistema.

É preciso que o risco para a América e o Ocidente seja muito grande e a crise muito funda para que alguém com as características de Trump tenha alcançado, sozinho, tão grande vitória.

E não é só economia, são outras coisas: são as razões, as memórias, o som e a fúria de uma grande nação que encarnam nesta estranhíssima personagem arrancada ao real estate e ao reality show. Um moderno anti--herói americano descido da sua torre dourada para salvar a América.

São paradoxais os caminhos da sorte ou da Providência, mas não é a primeira vez que uma boa causa triunfa assim, e que Deus ou o Destino traçam os bons caminhos pelas linhas ambíguas ou mesmo declaradamente tortas de imprevisíveis mensageiros.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

É amarga, mas justa, a lição que Donald Trump acabou de nos dar - Miguel Esteves Cardoso, Público, 9/11/16

Trump ganhou. Nós perdemos. Por nós quero eu dizer os meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Segundo as histórias que nós contámos aos leitores e uns aos outros o que acaba de acontecer era impossível.

As nossas sondagens e opiniões – incluindo as minhas – não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos estados totalitários.

Eu leio todas as semanas duas revistas conservadoras americanas – The Weekly Standard e National Review. Leio todos os dias o igualmente pro-Republicano Wall Street Journal. Em nenhum deles fui avisado que Trump poderia ganhar.

Sinto-me vítima de uma conspiração – não da parte de Trump mas da parte dos media. Aquilo que aconteceu não foi a cobertura das eleições americanas, mas antes uma vasta campanha publicitária a favor de Hillary Clinton onde até revistas apolíticas como a Variety participaram.

Donald Trump foi sujeito à maior e mais violenta campanha de ataques pessoais que alguma vi na minha vida. Todos as principais publicações alinharam entusiasticamente. Sem recorrer a sites de extrema-direita o único site que defendia Trump foi o extraordinário Drudge Report. Foi só através dele que comecei a achar – e aqui vim dizer – que o eleitorado reage sempre mal às ordens paternalistas dadas por uma unanimidade de comentadores, jornalistas e celebridades.

A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social.

Claro que Trump não é nenhum outsider. É um bilionário que sempre fez parte da ordem estabelecida, da elite que dá as ordens e manda na economia dos EUA. É um amigo de Hillary e Bill Clinton que só se tornou ex-amigo porque lhe deu na gana ser presidente dos EUA.

Agora é. Conseguiu o que queria. Há-de voltar as costas ao eleitorado que o elegeu logo que perceba que a única coisa que esse eleitorado tinha para lhe dar já foi dado: os votos de que ele precisava para ser eleito.

Já fez o elogio de Hillary Clinton. Já disse que vai representar todos os americanos. Vai-se tornar lentamente um republicano moderado e liberal. Os oportunistas têm sempre essa vantagem da metamorfose.

Trump ganhou contra grande parte do Partido Republicano mas foi graças a ele que o Partido Republicano manteve a maioria no Senado e no Congresso. Se Trump fosse o populista aventureiro que finge ser aproveitaria para minar o sistema político vigente, tirando partido do poder político pessoal que agora tem.

Mas não fará nada disso. O Partido Republicano tem agora tudo na mão.

Trump presidirá à complacência do poder político instalado, do poder recuperado das mãos de Obama. O velho sistema político será reforçado e os beneficiários serão os de sempre: os que menos precisam.

E os media? Que vamos nós fazer? Continuar em campanha? Continuar a enganarmo-nos e a enganar quem nos lê?

Mostrarmo-nos surpreendidos e atónitos não chega. Só revela o mau trabalho que fizemos. Dizer que foi um choque, que ninguém estava à espera só aponta para o mundo ilusório onde reside a nossa própria zona de conforto.

Não é Trump que tem de dar uma reviravolta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton.

É um dia feliz para Donald Trump e para a maioria que o elegeu. Para nós é um dia triste e, do ponto de vista profissional, pelo menos para mim, vergonhoso.

Sabemos quem perdeu, não quem ganhou - Rui Ramos, Observador, 9/11/16

Isto foi Brexit vezes dois: Trump presidente, com uma maioria republicana nas duas câmaras do congresso. Era um resultado possível, porque desde o Brexit nos começámos a habituar a todas as possibilidades, mas que pouca gente esperava. Talvez por isso, não é fácil agora prever o que vem a seguir. Neste momento, já sabemos quem perdeu, ainda não sabemos quem ganhou.

Perdeu Hillary Clinton, uma candidata apoiada por quase todo o establishment, pelo presidente, pela máquina partidária com mais dinheiro desta campanha, pelo poder financeiro, pelo poder mediático, pelo poder universitário, pelo poder de Hollywood. A história da primeira mulher presidente nunca pegou, porque Clinton era sobretudo a herdeira do sistema, cheia de bagagem, de equívocos e de opacidades. Foi assim que foi derrotada.

Perdeu Barack Obama, que depois de prometer unidade e consenso, optou por uma presidência divisiva e autoritária, abusando das “ordens executivas” para impor a sua vontade, o que agora coloca a maior parte do seu património governativo à mercê de reversões simples. Agora, terá de entregar as chaves da Casa Branca a um homem que sempre fez questão de desprezar.

Perdeu a estratégia dos democratas de manipular as minorias étnicas, sobretudo os latinos, para fazer com elas um bloco eleitoral definido pelas identidades, e não pelas opções e valores. Esta tribalização da política ter-se-á voltado contra o feiticeiro, porque os brancos parecem estar a começar a votar em bloco, como uma minoria étnica, o que favoreceu Trump (que terá contado com 58% dos seus votos). E Trump teve mais latinos com ele do que o candidato republicano de 2012: 29% vs. 27%.

Perdeu o conservadorismo clássico, que cedeu o seu lugar, enquanto inspiração doutrinária do Partido Republicano, a um movimento capaz de levantar milhões de pessoas contra a elite privilegiada do “politicamente correcto” e contra a visão do mundo que resumimos com o rótulo de “globalização”. Chamamos-lhe “populismo”, porque não sabemos bem o que chamar a algo que não encaixa nas divisões tradicionais entre esquerda e direita. Trump está nitidamente para além dessa dicotomia.

E quem ganhou? Ganhou Trump, o primeiro presidente dos EUA que nunca teve antes um cargo político e que nunca serviu no exército. Ganhou um candidato republicano, mas que há poucos anos era um eleitor democrata. Ganhou um político imprevisível e indisciplinado, mas que na noite eleitoral leu um discurso no teleponto, sem improvisações. Ganhou um homem truculento e grosseiro, mas que foi cortês e elogioso para Clinton no momento da vitória. Ganhou um candidato divisivo, mas que agora prometeu ser o presidente de todos os americanos.

Como será o seu governo? Ninguém sabe, porque ninguém o esperava. Como se irá dar com uma maioria republicana no Congresso que não acreditou demasiado nele? Vai mesmo construir o muro com o México, banir a imigração muçulmana, rasgar os tratados de comércio e o acordo com o Irão, abraçar Putin e menosprezar a NATO? Quererá mesmo continuar a ser na presidência o braço e a voz de uma suposta insurreição popular contra o “sistema”? Tentará inspirar os movimentos populistas e nacionalistas da Europa? Tudo isso serviu para criar à volta dele uma aura de apocalipse, de fim do mundo. A imprensa passou um ano a reduzir Trump a um monstro patético, destinado a ser facilmente atropelado por Clinton. Agora, talvez devesse arranjar algum tempo para o tentar perceber. 
Para começar, Trump ganhou, e a história, tal como aconteceu após o Brexit, ainda não acabou. De facto, está apenas a começar.