artigo publicado no Observador
Nos últimos anos temos assistido a uma tentativa de dar glamour ao que hoje se chama “trabalho sexual”. Seja a prostituição, a pornografia, ou esse admirável cruzamento entre uma e outra, que é o OnlyFans, hoje a venda do corpo feminino para satisfazer o capricho de homens que podem pagar tornou-se uma suposta fonte de empoderamento e de liberdade das mulheres.
Isto seria sempre mentira, mesmo que não existisse coação. Mesmo que todas
as mulheres que se prostituem, que fazem pornografia, ou produzem conteúdos
sexuais a pagar, o fizessem realmente por escolha própria, o que está em causa
no “trabalho sexual” é a redução do corpo da mulher a um produto, que os homens
consomem.
No “suposto trabalho sexual” há sempre uma relação de poder do homem sobre o
corpo da mulher, sobre a sua intimidade, sobre a sua sexualidade. Nunca há uma
relação de igualdade, mas sempre o poder de quem tem dinheiro sobre quem dele
precisa ou quer. Por isso as aspas na expressão “trabalho”, porque o que está
em causa é sempre uma forma de exploração.
Mas, mais grave do que isso, é que o mundo do “trabalho sexual” é,
provavelmente, a maior fonte de exploração e tráfico feminino. Para cada mulher
que os jornais, cheios do seu progressismo, encontram a fingir que é feliz a
vender o seu corpo, há centenas de mulheres forçadas e exploradas por homens.
Por isso, continuar a promover o “trabalho sexual” como forma de
empoderamento feminino é branquear indústrias milionárias, que vivem de
explorar mulheres, a maior parte das vezes muito jovens, que são utilizadas
como produtos para satisfazer homens que podem pagar.
2. Ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que branqueiam tantas vezes a redução e
exploração das mulheres, usando expressões como empoderamento feminino e
trabalho sexual, ficam chocadas quando alguém ergue a voz contra o aborto.
Sobre isto basta ver o escândalo que causou um almoço de mulheres
conservadoras, e todas as intervenções públicas que foram feitas em nome desse
novíssimo “direito” ao aborto, comparado com a calma com que foram recebidas
sucessivas reportagens sobre raparigas com menos de vinte anos que vendem a sua
intimidade na internet.
O aborto tornou-se hoje o sacramento do novo feminismo. Se, em 2007, no
referendo, ouvimos vezes sem conta “todos somos contra o aborto, só não
queremos mulheres presas; não é legalização, é apenas descriminalização; não é
aborto livre”, hoje, essas mesmas pessoas falam do aborto como se de um direito
se tratasse. Não a suposta excepção com que convenceram as pessoas a votar sim
no referendo, mas um direito fundamental. E, como tal, quem a ele se opõe é um
radical, que é contra as mulheres.
Pelos vistos, o actual feminismo, o que quer libertar a mulher do
patriarcado, consiste em dar aos homens o que eles querem a troco de dinheiro,
ao mesmo tempo que os desresponsabiliza de qualquer consequência com o aborto.
A mulher que vende o seu corpo aos homens é livre, a mulher que é a favor da
vida que cresce no ventre da mulher é escrava.
3. Ponderei seriamente em escrever este artigo. Aborto, pornografia,
prostituição são temas que os homens só podem abordar se for para concordar. Se
for para discordar, então estamos obrigados ao silêncio. Aparentemente, a
dignidade das mulheres, a dignidade da vida por nascer, o fim da exploração
sexual, são temas sobre os quais os homens só podem ter a opinião dos
movimentos feministas.
Mas depois lembrei-me que tenho uma filha. E que não quero viver num mundo
que lhe diz que ela é livre a vender-se a um homem, mas escrava a ter um filho.
E, por isso, sim, o aborto, a pornografia, a prostituição, assim como todas as
formas de exploração das mulheres são temas dos homens. Dos homens que
acreditam que as mulheres são iguais a nós em dignidade, não produtos para
nossa satisfação. Dos homens que valorizam as mulheres, não apenas os seus
corpos. Dos homens para quem uma gravidez é fruto de um acto conjunto, e não
uma responsabilidade da mulher isolada. Dos homens que querem educar os seus
filhos para respeitar as mulheres. Dos homens que querem educar as suas filhas
para serem mulheres e não objectos de prazer de qualquer homem com dinheiro.
O feminismo moderno tornou-se um aliado dos homens perversos. Não apenas dos
que tratam as mulheres como objectos para o seu prazer, que se podem comprar,
na rua ou na internet, mas também de todos os homens que fazem da exploração
das mulheres fonte de riqueza.
Por isso não me calo. Não por achar que as mulheres em geral precisam do meu
conselho, ou das minhas explicações. Não me calo porque não quero ser cúmplice
desta loucura, que trata a exploração como libertação, e a maternidade como
prisão.
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