We few, we happy few, we band of brothers; For he today that sheds his blood with me Shall be my brother
terça-feira, 22 de setembro de 2026
Laicos, salvo seja
segunda-feira, 21 de setembro de 2026
A Verdade vos libertará, não a narrativa
1. Lembro-me de quando, em miúdo, comecei a andar sozinho em Lisboa, penso que por ocasião de uma ida à Feira do Livro, a minha mãe me ter dito que estava sempre proibido de ir à parte de cima do Parque Eduardo VII, sobretudo depois de o sol se pôr, porque era uma conhecida zona de prostituição masculina, incluindo de menores.
Lembro-me também de uma tia minha, que esteve um ano a trabalhar na Madeira,
ter sido surpreendida quando, ao passear por um jardim no centro do Funchal,
lhe explicaram que ali era uma zona de prostituição de menores.
Tenho esperança de que os tempos tenham mudado e de que já não existam
locais em Portugal onde se sabe que menores de idade se prostituem sem que nada
aconteça. Mas, infelizmente, ainda me lembro do tempo em que o abuso de
menores, sobretudo dos menores pobres, não era assunto, sobretudo se houvesse
alguma contrapartida.
2. O caso Casa Pia chocou o país. De repente, tornou-se
público que crianças à guarda do Estado tinham sido usadas numa rede de tráfico
para satisfação de homens ricos e poderosos.
Infelizmente, todo o escândalo se traduziu em pouco. Não houve qualquer
auditoria às instituições do Estado, não se fizeram reformas para garantir que
não era possível que voltasse a acontecer e, sobretudo, teve-se cuidado com as
investigações, garantindo que só era acusado quem não tinha poder político.
Infelizmente, o abuso sexual de menores é um crime que não só é
razoavelmente vulgar, como até há pouco tempo não causava grande escândalo.
3. Em Portugal, a única instituição que, confrontada com
esta realidade da normalidade do abuso sexual de menores, decidiu agir foi a
Igreja.
Antes de mais, criou protocolos para a protecção dos menores, que foi
actualizando ao longo do tempo e que não têm comparação com os de nenhuma outra
instituição. Basta pensar que um maior que seja acusado de qualquer acto
impróprio por um menor numa instituição da Igreja é imediatamente suspenso,
enquanto numa escola do Estado tem de passar por todo um conjunto de
diligências que chegam a demorar meses.
Para além disso, foram criadas comissões em todas as dioceses
especificamente para a prevenção do abuso de menores.
Mas, sobretudo, a Igreja criou e pagou uma Comissão Independente, a quem
dotou de todos os meios, para que investigasse os abusos sexuais de menores na
Igreja em Portugal nos últimos setenta anos.
4. Na altura da publicação do relatório, fiz algumas
críticas ao método usado. O relatório tinha uma grande qualidade, que foi a de
permitir a pessoas que tinham sido abusadas e nunca tinham conseguido contar a
sua história ter a possibilidade de o fazer.
Infelizmente, como as queixas podiam ser anónimas e a Comissão não cruzou
dados com as dioceses, nem investigou as queixas que recebeu, não permitiu, na
maioria dos casos, saber sequer se as queixas eram reais.
Das queixas recebidas, a Comissão extrapolou um número que seria o total de
abusos cometidos nesses 70 anos. Infelizmente, como não foi feita qualquer
investigação, ou sequer uma verificação cuidada das queixas, o número não tem
qualquer valor.
Ficaram, contudo, claras duas coisas: a) não tendo sempre respondido da
melhor forma, não houve sinais de tentativa dos bispos de encobrirem os casos;
b) não havia casos de abusos sistémicos em determinadas instituições (ou seja,
não havia colégios, asilos ou orfanatos onde os abusos sexuais fossem algo de
normal ou habitual, como, por exemplo, na Casa Pia).
5. Decidiu a Conferência Episcopal criar uma comissão para
propor compensações para as vítimas de abusos na Igreja. Repare-se que não
havia qualquer obrigação legal de o fazer. Estamos a falar de casos que não
foram julgados pelos tribunais, para além do facto evidente de não haver
responsabilidade directa da hierarquia da Igreja nestes casos.
Esta decisão nasce do desejo dos bispos de Portugal de, de alguma forma,
sempre imperfeita, evidentemente, apoiar pessoas cuja vida foi desfeita quando
estavam ao cuidado da Igreja.
A comissão ouviu dezenas de pessoas, decidiu os valores e fez uma proposta à
CEP. Esta decidiu depois o valor final.
Repare-se que tudo isto custou muito dinheiro à Igreja. Isto num país onde
boa parte das dioceses tem grandes dificuldades em sustentar o seu clero, o seu
património e todas as suas obras sociais. Não é, por isso, de espantar que,
mesmo tendo-se oferecido para pagar estas compensações, haja uma distância
entre o valor que a comissão propõe e aquilo que a Igreja pode realmente pagar.
6. Claro que a decisão da CEP trouxe muitas críticas.
Porque, num país onde ninguém liga nada ao abuso de menores, as críticas são
sempre para a instituição que criou protocolos, apertou as leis contra os
abusos, investigou os casos e decidiu ainda, sem qualquer obrigação legal,
pagar compensações em casos que não foram provados em tribunal!
A associação Coração Silenciado, recebida em audiência pelo Presidente da
República, pediu uma auditoria do Estado ao processo de decisão de compensação
que a CEP criou.
Com todo o respeito pela associação, é evidente que seria absurdo o Estado
imiscuir-se numa decisão da Igreja, com a qual não tem qualquer relação ou
interesse. Seria uma absurda ofensa à liberdade da Igreja permitir que o Estado
fiscalizasse ou tomasse qualquer decisão sobre a forma como a Igreja se
relaciona com as vítimas de abusos sexuais.
Aliás, já me parece um pouco absurdo que o Presidente da República, sabendo
que era para esse pedido que a associação lhe tinha pedido audiência, tenha
feito questão de os receber, sem por instantes lhe ocorrer explicar que não
tem, nem poderia ter, como Chefe de Estado, qualquer intervenção neste assunto,
sem, evidentemente, ferir gravemente a separação da Igreja e do Estado.
7. Infelizmente, tudo isto são pormenores que pouco
interessam aos jornais. Dá muito mais cliques a parangona que diz «Igreja reduz
indemnizações para metade» do que «Igreja decide pagar, apesar de não ter
qualquer obrigação». E, nisto, penso que a CEP, na sua forma de gerir todo este
processo, tem culpas.
A justa preocupação de nada ocultar tornou-se demasiadas vezes em medo de
parecer mal, sacrificando, de vez em quando, a justiça à óptica. Pensemos no
caso do Padre Mário Rui Pedras, suspenso por uma queixa anónima sem qualquer
substância, ou no caso do Cónego Fernando Sousa e Silva, que foi tratado
publicamente pelo seu bispo como culpado, por uma acusação que se veio a provar
completamente falsa.
O que nos liberta é a Verdade, não a narrativa. Sacrificar a verdadeira
justiça à justiça das redes sociais e da comunicação social coloca a Igreja
numa posição de fragilidade.
Por isso, era importante que houvesse clareza sobre este assunto. Seria bom
que a CEP deixasse claro, desde já, que, estando sempre disposta a dialogar com
as vítimas, não irá permitir a interferência do Estado na sua vida interna e
que se recusa a ser tratada pelo poder público (que pouco ou nada faz para
combater os abusos de menores ao seu cuidado) como se fosse uma associação de
malfeitores, quando é a única instituição em Portugal que fez alguma coisa de
facto para acabar com o abuso sexual de menores no seu seio.
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
A exploração da mulher: uma causa feminista
artigo publicado no Observador
Nos últimos anos temos assistido a uma tentativa de dar glamour ao que hoje se chama “trabalho sexual”. Seja a prostituição, a pornografia, ou esse admirável cruzamento entre uma e outra, que é o OnlyFans, hoje a venda do corpo feminino para satisfazer o capricho de homens que podem pagar tornou-se uma suposta fonte de empoderamento e de liberdade das mulheres.
Isto seria sempre mentira, mesmo que não existisse coação. Mesmo que todas
as mulheres que se prostituem, que fazem pornografia, ou produzem conteúdos
sexuais a pagar, o fizessem realmente por escolha própria, o que está em causa
no “trabalho sexual” é a redução do corpo da mulher a um produto, que os homens
consomem.
No “suposto trabalho sexual” há sempre uma relação de poder do homem sobre o
corpo da mulher, sobre a sua intimidade, sobre a sua sexualidade. Nunca há uma
relação de igualdade, mas sempre o poder de quem tem dinheiro sobre quem dele
precisa ou quer. Por isso as aspas na expressão “trabalho”, porque o que está
em causa é sempre uma forma de exploração.
Mas, mais grave do que isso, é que o mundo do “trabalho sexual” é,
provavelmente, a maior fonte de exploração e tráfico feminino. Para cada mulher
que os jornais, cheios do seu progressismo, encontram a fingir que é feliz a
vender o seu corpo, há centenas de mulheres forçadas e exploradas por homens.
Por isso, continuar a promover o “trabalho sexual” como forma de
empoderamento feminino é branquear indústrias milionárias, que vivem de
explorar mulheres, a maior parte das vezes muito jovens, que são utilizadas
como produtos para satisfazer homens que podem pagar.
2. Ao mesmo tempo, as mesmas pessoas que branqueiam tantas vezes a redução e
exploração das mulheres, usando expressões como empoderamento feminino e
trabalho sexual, ficam chocadas quando alguém ergue a voz contra o aborto.
Sobre isto basta ver o escândalo que causou um almoço de mulheres
conservadoras, e todas as intervenções públicas que foram feitas em nome desse
novíssimo “direito” ao aborto, comparado com a calma com que foram recebidas
sucessivas reportagens sobre raparigas com menos de vinte anos que vendem a sua
intimidade na internet.
O aborto tornou-se hoje o sacramento do novo feminismo. Se, em 2007, no
referendo, ouvimos vezes sem conta “todos somos contra o aborto, só não
queremos mulheres presas; não é legalização, é apenas descriminalização; não é
aborto livre”, hoje, essas mesmas pessoas falam do aborto como se de um direito
se tratasse. Não a suposta excepção com que convenceram as pessoas a votar sim
no referendo, mas um direito fundamental. E, como tal, quem a ele se opõe é um
radical, que é contra as mulheres.
Pelos vistos, o actual feminismo, o que quer libertar a mulher do
patriarcado, consiste em dar aos homens o que eles querem a troco de dinheiro,
ao mesmo tempo que os desresponsabiliza de qualquer consequência com o aborto.
A mulher que vende o seu corpo aos homens é livre, a mulher que é a favor da
vida que cresce no ventre da mulher é escrava.
3. Ponderei seriamente em escrever este artigo. Aborto, pornografia,
prostituição são temas que os homens só podem abordar se for para concordar. Se
for para discordar, então estamos obrigados ao silêncio. Aparentemente, a
dignidade das mulheres, a dignidade da vida por nascer, o fim da exploração
sexual, são temas sobre os quais os homens só podem ter a opinião dos
movimentos feministas.
Mas depois lembrei-me que tenho uma filha. E que não quero viver num mundo
que lhe diz que ela é livre a vender-se a um homem, mas escrava a ter um filho.
E, por isso, sim, o aborto, a pornografia, a prostituição, assim como todas as
formas de exploração das mulheres são temas dos homens. Dos homens que
acreditam que as mulheres são iguais a nós em dignidade, não produtos para
nossa satisfação. Dos homens que valorizam as mulheres, não apenas os seus
corpos. Dos homens para quem uma gravidez é fruto de um acto conjunto, e não
uma responsabilidade da mulher isolada. Dos homens que querem educar os seus
filhos para respeitar as mulheres. Dos homens que querem educar as suas filhas
para serem mulheres e não objectos de prazer de qualquer homem com dinheiro.
O feminismo moderno tornou-se um aliado dos homens perversos. Não apenas dos
que tratam as mulheres como objectos para o seu prazer, que se podem comprar,
na rua ou na internet, mas também de todos os homens que fazem da exploração
das mulheres fonte de riqueza.
Por isso não me calo. Não por achar que as mulheres em geral precisam do meu
conselho, ou das minhas explicações. Não me calo porque não quero ser cúmplice
desta loucura, que trata a exploração como libertação, e a maternidade como
prisão.
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Padre João Seabra: a liberdade dos santos
A 14 de Setembro de 1949 nasceu o Padre João Seabra. Claro que, na altura, não era padre, era só o primeiro filho sobrevivo dos meus avós. Foi, por isso o mais velho de nove irmãos, e tio de muitos sobrinhos e sobrinhos-netos.
Mas, para além de irmão e tio muito amado, foi pai na fé de
milhares de pessoas. Tendo escolhido a virgindade, a sua paternidade foi mais
fecunda do que a de qualquer homem casado. E foi sempre impressionante como
manteve esta extraordinária dualidade, de ser sempre filho, irmão e tio, ao
mesmo tempo que era pai do povo que o Senhor lhe confiou.
O impacto da vida do Padre João na vida pública é difícil de
medir. Seria interessante estudar tantas coisas da sua vida: como a sua
insistência na confissão ajudou a restaurar este sacramento no Patriarcado de
Lisboa, que influência os SAIREF tiveram no surgimento dos campos de férias
católicos, quantas peregrinações a Fátima nasceram da peregrinação da Católica,
de que forma a sua coragem na vida pública fez os católicos perderem a vergonha
de dar testemunho público de Cristo, quantos miúdos o Colégio de São Tomás
ajudou a crescer, entre tantos outros assuntos.
Mas os sucessos públicos do Padre João não espantam. A sua
inteligência, a sua capacidade de compreender o mundo, a sua coragem, a sua
energia inesgotável garantiram que ele iria sempre ter sucesso. Se, em vez de
padre, fosse advogado, político ou qualquer outra coisa, teria tido sempre
sucesso.
A coisa que realmente me espanta é que um homem destinado a
ser um dos senhores do mundo tenha escolhido uma vida de servo. As capacidades
do Padre João eram imensas, e todas elas ele ofereceu ao Senhor, para que Ele
fizesse com elas o que desejasse.
E, por isso, decidiu ser padre. E ser padre era aquilo que
definia toda a sua vida, a identificação total com aquilo que o Senhor lhe
pedia. Por isso, o mais importante da sua vida era aquilo que é próprio do
sacerdote: celebrar os sacramentos, e, de entre eles, uma clara preferência
pela confissão.
O bom pastor é o que larga cem ovelhas para ir atrás da que
está perdida. O Padre João era capaz de deixar centenas à espera do começo da
missa, para confessar o que, em cima da hora, vinha pedir a graça da confissão.
E isso é o que mais espantava. Porque os imensos dons do
Padre João foi Deus que lhos concedeu. A decisão de os submeter a todos à sua
missão de sacerdote foi ele que escolheu.
E, chegando a doença, continuou a ser padre. Quando a fala
lhe começou a falhar, quando deixou de conseguir andar, ofereceu-se sempre como
sacerdote.
Lembro-me de, quando lhe fui pedir que baptizasse a minha
filha, ele me perguntar se não preferia antes que fosse o Padre Duarte da
Cunha, já que ele não estava capaz de fazer o Ritual todo. Eu disse-lhe que, se
ele conseguisse baptizar, tinha gosto que fosse ele. E assim foi. O Padre
Duarte, como o discípulo amado de pé junto à cruz, ali estava, como sempre.
Recebeu-nos à porta da Igreja, fez a homilia e boa parte dos ritos, mas o Padre
João, com as forças que ainda tinha, é que baptizou o bebé.
«Amando os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim».
Lembro-me da última grande conversa que tive com o Padre João, menos de dois
meses antes da sua morte. Eu tinha levado uma moção ao Congresso do CDS, que
ele tinha revisto e corrigido com a sua habitual sageza. Acabado o congresso,
chamou-me para lhe contar como tinha corrido tudo. Já estava bastante
fragilizado, mas não falou nada de si, só quis saber de mim. E, mesmo com a
fala quase imperceptível, fez perguntas, deu-me conselhos, contou graças.
Que um homem grande faça coisas grandes é o esperado. Que um
homem grande se faça pequeno, que ofereça a sua vida, que abrace o sacrifício
com total amor, isso é extraordinário. Porque os dons é Deus que os dá, mas
amar aquilo que Deus nos dá, seja a oratória ou a doença, e consumir-se para
dar testemunho d’Ele é uma escolha. Ao Padre João deu-lhe Deus os dons para ser
grande; a santidade foi ele que a escolheu.

