Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

terça-feira, 7 de maio de 2019

A democracia vive da transparência.




Li nas redes sociais a notícia de que a SIC não convidou o PNR a participar no debate sobre as eleições europeias que promoveu para os candidatos sem assento parlamentar. Segundo li a SIC justificou a ausência de convite com critérios editoriais.

Não sinto qualquer simpatia pelo PNR, é um partido autoritário, racista e xenófobo. A visão do nacionalismo do PNR é anti-histórica, baseada em teorias ditas identitárias, como se ser português tivesse algo que ver com o tom da pele ou pudesse ser reduzido à genética.

Dito isto, não me parece que a SIC ao excluir o PNR do debate preste um bom serviço à democracia. 

Não se defende a democracia silenciando os que não consideramos democráticos. O princípio básico da democracia é a liberdade de pensamento e a liberdade política. Por isso excluir o PNR em nome da democracia obriga a ferir os mais básicos direitos políticos que a democracia garante.

Para além disso é uma decisão absolutamente discricionária. Eu não tenho dúvidas que o PNR é um partido que despreza a democracia. Mas o Partido Comunista, que apoia a Coreia do Norte e o Maduro, também a despreza. E contudo tem largo espaço mediático. O Bloco é constituído por várias facções, algumas das quais também desprezam a “democracia burguesa” e dificilmente se vê um telejornal sem Catarina Martins ou uma das manas Mortágua.

Se querem afastar do debate político os partidos que desprezam a democracia, então porque razão só o fazem com o PNR? Porque não é dado o mesmo tratamento à esquerda anti-democrática? Quem estabelece a linha a partir da qual um partido é de tal maneira anti-democrático que deve ser excluído do debate público?

Este tipo de atitude, longe de fortalecer a democracia, enfraquece-a. Os partidos anti-sistema ganham força de cada vez que o “sistema” os tenta excluir. A sua retórica baseia-se sobretudo no ataque e na ruptura com o sistema para qual parte da população olha com suspeita. João Patrocínio pouco teria a ganhar em participar num debate que será dominado por Paulo Sande e André Ventura. Mas o PNR tem muito em ganhar ao fazer-se de vítima da SIC, que o excluiu apenas porque eles são contra o “sistema”.

Os movimentos populistas aproveitam o descrédito em que têm vindo a cair os sistemas democráticos para florescer. Estes partidos crescem à sombra da podridão dos sistemas democráticos. Os constantes escândalos de corrupção; a pornográfica intimidade entre partidos do poder e as grandes empresas; os jornalistas activistas políticos; a protecção política concedida aos grandes banqueiros; a falência dos serviços públicos; as constantes medidas eleitoralistas para agradar a grupos de pressão; tudo isto fere mais a democracia do que o PNR.

A democracia não se defende com censura, mas com transparência. Não é o PNR que põe em perigo a democracia. Nem são os movimentos populistas (de direita ou de esquerda). A grande ameaça à democracia neste momento são os  líderes e os partidos políticos que vivem fechados no seu mundo, interessados apenas no poder e na distribuição de cargos pelos militantes; são os órgãos de comunicação social movidos por interesses políticos e empresariais próprios e não pelo dever de informação; são os cargos políticos utilizados como trampolim para empregos lucrativos no privado; é a mentira institucionalizada como arma política.

Aqueles que tentam excluir o PNR (e mesmo o Chega) do debate político em nome da democracia, fariam melhor serviço ao país se exigissem antes transparência na vida pública. O populismo necessita da sombra criada por uma vida política opaca para crescer. Acabem com essa sombra e o populismo ruirá.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Passadeiras: para servir o Homem ou a Ideologia?



Em democracia todos os Homens são iguais em Direitos e Dignidade. E ao Estado cabe zelar porque esses direitos e essa dignidade sejam respeitados. Por isso um Estado democrático não pode admitir que alguém seja discriminado pela suas preferências sexuais ou pelos seus comportamentos (partindo evidentemente da premissa que são entre adultos e consensuais).

Ao Estado só deve importar os factos que têm relevância social. Por isso se interessa pela união estável entre homem e mulher com o fim de constituir família, mas já não se preocupa com duas irmãs que criam um sobrinho órfão ou uma "afilhada". Por isso se interessa pelo destino das crianças que por alguma razão ficaram privadas de família. Nada disto tem qualquer relação com afectos ou preferências sexuais, é o simples regular de situações que tem relevo para a sociedade.

Infelizmente os grupos LGBT  pretendem impor uma visão diferente do Estado. Um Estado que regula afectos, que sobrepõe o interesse dos adultos que querem adoptar ao das crianças. Um Estado que use a escola pública para doutrinar sobre a sua visão da sexualidade. Um Estado que se sobrepõem aos pais dos menores quando estes querem mudar de sexo. Um Estado que sobrepõe a ideologia à ciência ao permitir mudanças de sexo sem parecer médico ou que não permite aos médicos tratar crianças intersexo.

A bandeira do arco-iris não é por isso símbolo de respeito e inclusão, é simbolos de movimentos que pretendem impor a sua ideologia a toda a sociedade. É símbolo de Isabel Moreira quando chama homofóbico a quem discorda do casamento entre pessoas do mesmo sexo. De Mariana Mortágua e Daniel Oliveira quando pretendem silenciar um deputado que se insurge contra palestra por grupo LGTBI a crianças de 11 anos. De Paulo Corte Real e da ILGA que perseguem Ricardo Araújo Pereira por dizer uma piada sobre "maricas". É símbolo por isso da repressão e do pensamento único da esquerda.

Ser da direita descomplexada é saber precisamente distinguir entre o respeito pelas preferências e as escolhas das pessoas e grupos ideológicos totalitários. É respeitar dois homens que vivem juntos e adoptaram uma criança (mesmo discordando do seu comportamento) mas não ceder diante de quem quer impor a toda sociedade que é igual ter pai e mãe ou ter dois pais. A Direita descomplexada respeita as pessoas, mas não tem medo de afirmar as suas ideias.


Evidemente que este texto surgiu por causa do disparate das passadeiras com arco-íris sugeridas pelos eleitos do CDS em Arroios. O assunto tem a importância que tem: são dois eleitos numa freguesia. Mas serve para reflexão. Serve para nos lembrar que o CDS sempre distinguiu o respeito pelas pessoas concretas de grupos ideológicos totalitários. Como aliás se pode ver na carta de princípios: "O homem é explorado, a qualquer nível, quando é sujeito ao exercício tirânico da autoridade ou a imposições abusivas de minorias activistas". É bom por isso que os eleitos do CDS de Arroios, assim como todos aqueles que rapidamente vieram em seu socorro diante do seus disparate, não se confundam: aquilo que foi aprovado em Arroios não foi o respeito pelo outro, foi a exaltação de uma ideologia com pretensões tão totalitárias como a daqueles que apedrejaram o Palácio de Cristal.

terça-feira, 30 de abril de 2019

Construir pontes, não trincheiras.




Uma dos aspectos mais negros da internet é a agressividade com que se discute. Todos os assuntos, da política ao futebol, rapidamente se transformam numa troca de insultos e acusações, como se estivessem dois exércitos entrincheirados.

Infelizmente este fenómeno não é culpa da internet, mas apenas exponenciado pela capacidade quase infinita de comunicação que esta oferece. Ou seja, a incapacidade de manter uma discussão civilizada está hoje enraizada na sociedade (basta seguir os debates políticos), sendo que a internet com a sua imediatez, a sua impessoalidade e democraticidade de acesso aumenta ainda mais essa agressividade. 

Muitas vezes confunde-se a agressividade na discussão com idealismo ou coerência. Mas é falso. A agressividade para com o outro nasce de uma total incapacidade de olhar para ele como alguém com um coração igual ao nosso. Vivemos presos na nossa ideologia, olhando para quem de nós discorda como um inimigo, incapazes de reconhecer que também ele procura soluções justas e boas.

Olhar para outro como uma pessoa não significa qualquer cedência naquilo em que acreditamos. Eu acredito na dignidade da vida humana desde o momento da concepção até à morte natural. E acredito que quem defende o aborto ou a eutanásia está errado. Mas isso não significa que seja meu inimigo, ou que seja uma pessoa má, significa simplesmente que tem uma ideia diferente (ainda que errada) do valor da vida humana. É por isso possível discutir e argumentar sobre esse facto, sem entrar automaticamente numa guerra mortal. 

A alternativa a olhar para quem de nós discorda como uma pessoa com um igual desejo de justiça e de bem é uma sociedade, e por conseguinte uma política, entrincheirada, sem capacidade de diálogo, onde cada facção tenta ganhar força suficiente para dominar a outra. É a ditadura do 50% +1.

Se é verdade que hoje precisamos mais do que nunca de pessoas socialmente empenhadas com ideais claros, também é preciso mais do que nunca pessoas capazes de dialogar e construir pontes. Pessoas capazes de debater ideias, partindo do pressuposto de que o outro também procura o bem.

O caminho do diálogo, da razão, da relação é mais difícil do que defender a trincheira ideológica. Dá trabalho, gera menos espalhafato, sobretudo, atrai o ódio dos puritanos ideológico incapazes de qualquer tipo de conversa que não seja um debitar de cassete. Mas é a única esperança de conseguir construir uma sociedade mais justa.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O sangue dos mártires é semente de cristãos.




Não me consigo lembrar de quantas vezes já escrevi sobre a perseguição aos cristãos nos nossos dias. Foram muitas. Mas ainda assim muito menos do que as que deveriam ter sido. Tristemente é difícil, se não impossível, acompanhar todos os crimes de que os cristãos têm sido alvo nestes últimos anos. Morte, tortura, abusos sexuais, prisão, escravidão, exílio ou simples descriminação legal ou social, tudo isto é uma realidade para uma grande fatia dos cristãos no mundo.

Os cristãos são hoje perseguidos na maioria dos países muçulmanos, em grandes partes de África, na Índia, na China, na Coreia do Norte, no Vietname, no Laos, nas Filipinas, na Venezuela, na Nicarágua, e são alvo de descriminações em muitos outros países.

Sobre estes factos (que podem ser consultado no relatório da Ajuda à Igreja que Sofre https://religious-freedom-report.org/ptp/home-ptp/) existe um ensurdecedor silêncio no Ocidente.

Por isso não nos podem espantar as fracas reacções ocidentais ao massacre de cristãos no Sri Lanka. Porque razão Obama e Clinton, que sempre recusaram reconhecer estas perseguições, haveriam agora de reconhecer que os atentados do Sri Lanka foram contra cristãos e não “adoradores da Páscoa”? Porque haveríamos de esperar algo de diferente de quem, quando tinha poder, permitiu a morte de tantos cristãos sem qualquer sobressalto?

Mesmo cá em Portugal, aparentemente só a morte de um português é que permitiu que os atentados no Sri Lanka tivessem algum relevo (embora pareçam esquecer-se que os cristãos cingaleses se não são portugueses por lei, são no por história e por fé). Aliás, basta ver que a afirmação do Cardeal Patriarca, de que o cristianismo é hoje a religião mais perseguida no mundo, foi recebida com um misto de risota e de ironia.

Este silêncio e este desprezo porém não nos deve fazer desesperar. Porque a nossa Fé foi fundada por Cristo, também ele morto sob a cobardia e o silêncio do poder do mundo. Os poderosos que hoje ignoram a perseguição aos cristãos são apenas novos Pilatos, convencido da inocência dos cristãos, mas demasiado fracos para impedir a injustiça contra eles. Os mártires do nosso tempo são imagem de Cristo e morrendo com Ele, também com Ele alcançarão a Vida Eterna.

Que o sangue dos mártires, desprezado pelo mundo, fortaleça a fé da Igreja e dos Cristãos, e que o seu testemunho fortaleça a nossa Fé.

terça-feira, 16 de abril de 2019

O incêndio de Notre Dame e o cristianismo no Ocidente.



Ontem o Ocidente parou a contemplar em choque o incêndio de Notre Dame. Rapidamente choveram comentários de tristeza sobre o edifício icónico, sobre o marco histórico, a atracção turística, o marco cultural que parecia desabar em directo para o mundo inteiro. Logo se seguiram promessa de reconstrução e donativos, para que Notre Dame possa rapidamente voltar a ser um marco histórico de Paris.

O incêndio e as suas reacções são de facto simbólicos do tempo em que o Ocidente vive. Um tempo onde também o cristianismo é reduzido a um marco cultural e social que se vai desvanecendo diante de nós. Um tempo onde também muitos lutam para que essa cultura não desapareça.

Contudo o drama maior é que, tal como em Notre Dame, lutamos por um esqueleto. Lutamos por uma cultura que foi arrancada da sua raiz. Evidentemente que é uma luta justa por algo bom: lutar pelos valores cristãos vale a pena, porque eles são verdadeiros. Mas é uma luta que, por si só, está perdida. Porque os valores cristãos, por muitos verdadeiros que sejam, se estão desligados da Fé em Jesus Cristo, são apenas máximas morais. Duram enquanto são aceites como parte da nossa cultura. Se a cultura muda, então também esses valores mudam. Tal como Notre Dame sobreviverá enquanto o mundo lhe reconhecer o seu valor cultural.

Não digo isto para que desesperamos. Porque se o incêndio é símbolo da cultura ocidental, as pedras de Notre Dame, erguidas pela Fé do povo francês, que escaparam incólumes ao desastre, são também símbolo da força do cristianismo. Os alicerces intactos de Notre Dame são sinal de que a Fé em Cristo, origem da cultura cristã, é capaz de resistir ao fogo.

Os alicerces de Notre Dame sobreviveram a guerras, a saques, a revoluções e bombardeamentos, sobreviveram também á indiferença e a incúria da sociedade contemporânea. Também a Igreja, alicerçada em Cristo irá sobreviver.

Ontem, no meio do desastre, um corajoso sacerdote entrou em Notre Dame para resgatar o Santíssimo Sacramento, a relíquia da coroa de espinhos de Nosso Senhor e a túnica de São Luís de França. Este sacerdote deu assim testemunho ao mundo que nossa Fé não é histórica ou cultural, que a nossa Fé não está nas pedras por mais belas que sejam, mas é um acontecimento presente: Cristo, Deus que se fez homem (como prova a coroa de espinhos), que nos deixou uma Igreja de Santos (como prova a túnica de São Luís), e que ainda hoje está presente carnalmente em todos os sacrários da terra.

É preciso continuar a defender a Cristandade, defender a sua cultura, as suas leis e as suas obras. Mas tudo isto será vão se não começarmos por professar Cristo. Se assim não for, até poderemos conseguir preservar parte da cultura cristã, como ontem se conseguiu preservar Notre Dame, mas essa cultura, tal como a Catedral, será apenas um edifício icónico ou um marco histórico.