A 14 de Setembro de 1949 nasceu o Padre João Seabra. Claro que, na altura, não era padre, era só o primeiro filho sobrevivo dos meus avós. Foi, por isso o mais velho de nove irmãos, e tio de muitos sobrinhos e sobrinhos-netos.
Mas, para além de irmão e tio muito amado, foi pai na fé de
milhares de pessoas. Tendo escolhido a virgindade, a sua paternidade foi mais
fecunda do que a de qualquer homem casado. E foi sempre impressionante como
manteve esta extraordinária dualidade, de ser sempre filho, irmão e tio, ao
mesmo tempo que era pai do povo que o Senhor lhe confiou.
O impacto da vida do Padre João na vida pública é difícil de
medir. Seria interessante estudar tantas coisas da sua vida: como a sua
insistência na confissão ajudou a restaurar este sacramento no Patriarcado de
Lisboa, que influência os SAIREF tiveram no surgimento dos campos de férias
católicos, quantas peregrinações a Fátima nasceram da peregrinação da Católica,
de que forma a sua coragem na vida pública fez os católicos perderem a vergonha
de dar testemunho público de Cristo, quantos miúdos o Colégio de São Tomás
ajudou a crescer, entre tantos outros assuntos.
Mas os sucessos públicos do Padre João não espantam. A sua
inteligência, a sua capacidade de compreender o mundo, a sua coragem, a sua
energia inesgotável garantiram que ele iria sempre ter sucesso. Se, em vez de
padre, fosse advogado, político ou qualquer outra coisa, teria tido sempre
sucesso.
A coisa que realmente me espanta é que um homem destinado a
ser um dos senhores do mundo tenha escolhido uma vida de servo. As capacidades
do Padre João eram imensas, e todas elas ele ofereceu ao Senhor, para que Ele
fizesse com elas o que desejasse.
E, por isso, decidiu ser padre. E ser padre era aquilo que
definia toda a sua vida, a identificação total com aquilo que o Senhor lhe
pedia. Por isso, o mais importante da sua vida era aquilo que é próprio do
sacerdote: celebrar os sacramentos, e, de entre eles, uma clara preferência
pela confissão.
O bom pastor é o que larga cem ovelhas para ir atrás da que
está perdida. O Padre João era capaz de deixar centenas à espera do começo da
missa, para confessar o que, em cima da hora, vinha pedir a graça da confissão.
E isso é o que mais espantava. Porque os imensos dons do
Padre João foi Deus que lhos concedeu. A decisão de os submeter a todos à sua
missão de sacerdote foi ele que escolheu.
E, chegando a doença, continuou a ser padre. Quando a fala
lhe começou a falhar, quando deixou de conseguir andar, ofereceu-se sempre como
sacerdote.
Lembro-me de, quando lhe fui pedir que baptizasse a minha
filha, ele me perguntar se não preferia antes que fosse o Padre Duarte da
Cunha, já que ele não estava capaz de fazer o Ritual todo. Eu disse-lhe que, se
ele conseguisse baptizar, tinha gosto que fosse ele. E assim foi. O Padre
Duarte, como o discípulo amado de pé junto à cruz, ali estava, como sempre.
Recebeu-nos à porta da Igreja, fez a homilia e boa parte dos ritos, mas o Padre
João, com as forças que ainda tinha, é que baptizou o bebé.
«Amando os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim».
Lembro-me da última grande conversa que tive com o Padre João, menos de dois
meses antes da sua morte. Eu tinha levado uma moção ao Congresso do CDS, que
ele tinha revisto e corrigido com a sua habitual sageza. Acabado o congresso,
chamou-me para lhe contar como tinha corrido tudo. Já estava bastante
fragilizado, mas não falou nada de si, só quis saber de mim. E, mesmo com a
fala quase imperceptível, fez perguntas, deu-me conselhos, contou graças.
Que um homem grande faça coisas grandes é o esperado. Que um
homem grande se faça pequeno, que ofereça a sua vida, que abrace o sacrifício
com total amor, isso é extraordinário. Porque os dons é Deus que os dá, mas
amar aquilo que Deus nos dá, seja a oratória ou a doença, e consumir-se para
dar testemunho d’Ele é uma escolha. Ao Padre João deu-lhe Deus os dons para ser
grande; a santidade foi ele que a escolheu.

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