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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

VIVA O PAPA!


A minha primeira reacção à decisão do Santo Padre de resignar foi de choque. Fiquei completamente atordoado, sem conseguir compreender o alcance daquilo que estava a acontecer. De algum modo, no meu egoísmo e no meu mimo, senti-me abandonado.
Sabia que existia a possibilidade, em abstracto, do Papa resignar. O Código de Direito Canónico, no Cân. 332 §2 prevê essa hipótese. O próprio Papa Bento XVI no livro Luz do Mundo tinha dito que poderia resignar um dia. Mesmo assim, não estava à espera que o Santo Padre o fizesse agora.
Aparentemente esta seria a altura menos expectável. Parecia que o Sumo Pontífice ia finalmente ter alguma paz. Este ano adivinhava-se como um ano de sucesso. Era o ano da Encíclica sobre a Fé, o ano da Jornadas no Rio de Janeiro, o ano dos festejos do 50º aniversário do Concílio. Parecia que este ia ser o ano da aclamação total do Papa.
Para além disso, por muito que tentemos, é impossível não nos lembrarmos dos últimos anos do pontificado de João Paulo II. De como o antecessor de Bento XVI se ofereceu a Deus diante de todos nós.
Mas olhando para este acontecimento com os olhos da fé percebo que (como eu aliás já desconfiava) o problema está todo em mim. Porque o meu primeiro juízo parte de sentimentos e de cálculos e não da fé.
Antes de tudo, antes de qualquer explicação ou argumento, existe em mim esta simples e racional certeza: o Santo Padre Bento XVI ama mais a Igreja que eu, é mais santo do que e mais inteligente do que eu. Demonstrou durante todo o seu pontificado a coragem de nunca fugir diante da adversidade e a humildade de Servo dos Servos de Deus. Por isso se decidiu resignar, mesmo que eu não compreenda, fá-lo por amor a Cristo e à Sua Igreja e não por uma resignação ou um comodismo. Por isso este acontecimento é um bem. Isto sei eu, mesmo que não conheça mais nenhum facto.
Para além disso, a verdade é que a circunstância de Bento XVI é diferente da de João Paulo II. Um foi eleito com pouco mais de cinquenta anos o outro com setenta e oito. Um era um desportista pujante o outro um homem frágil. João Paulo II recusou resignar diante da humilhação e da doença, porque percebia a importância do seu testemunho no sofrimento. Bento XVI resigna porque sabe que o trabalho que é pedido ao Papa é superior às suas forças. Respostas diferentes a circunstâncias diferentes, mas um mesmo critério: o amor total a Cristo e à Igreja.
Aliás o Pontificado destes dois Papas tão diferentes está intimamente ligado: Bento XVI completou o trabalho de João Paulo II. O Papa polaco atraiu as multidões e o seu sucessor confirmou-as na fé.
Não digo que compreenda totalmente a decisão do Papa, nem sequer que goste desta decisão. Bento XVI é um grande Papa e o seu pontificado é uma graça extraordinária para toda a Igreja e para mim muito concretamente. Foi durante este pontificado que passei de adolescente a adulto. A pessoa do Santo Padre, as suas palavras e os seus actos marcaram o amadurecimento da minha fé.
Mas esta é a grande a alegria de seguir. Não preciso de perceber tudo, não preciso de gostar de tudo. Porque aquilo que experimentei dá-me a certeza absoluta que a decisão do Papa é boa.
Nos próximos dias vai ser muita a confusão. Por um lado as intrigas e os disparates sobre as razões que levaram a esta decisão. Por outro o carrossel dos candidatos a Papa que irão florescer como ervas daninhas. No próximo mês iremos ouvir desfiar um rol de perfis que o próximo Papa terá que ter e descrições de cardeais que encaixam nesses perfis. Uma tarefa vã. Basta relembrar que em 2005 os media todos diziam que Papa ia ser africano, de um país pobre, progressista e jovem. Em vez disso foi eleito um cardeal velho, europeu, conservador do país mais rico da Europa.
Por isso o que é preciso antes de mais é serenidade. A agenda do Espírito Santo não é marcada pelos media nem pelo facebook. É Ele quem governa a Igreja, por isso podemos estar totalmente descansados.
Depois é preciso rezar. Rezar a agradecer o extraordinário pontificado de Bento XVI. Rezar pela Igreja para que cresça no amor ao Papa. Rezar pelos cardeais para que se deixem guiar pelo Espírito no conclave.
Acabo este post como acabei este dia: cheio de gratidão a Deus pelo pontificado de Bento XVI. Desde o primeiro minuto do seu pontificado foi possível ver a promessa de Jesus a Pedro: “Tu és Pedro, sobre esta pedra erguerei a minha Igreja e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela”. Cheio de gratidão a Bento XVI pela sua enormíssima paternidade: Viva o Papa!

domingo, 13 de janeiro de 2013

Zico deve morrer.

Anda por aí uma petição para salvar um cão, de seu nome Zico, que matou uma criança de 18 meses. Segundos os peticionário o animal não pode ser culpado de nada e merece uma segunda oportunidade.


Antes de mais é preciso esclarecer que é evidente que o cão não é culpado de coisa nenhuma. Para se ser culpado é necessário ter consciência, coisa que os animais não têm. A decisão de abater o cão não é um castigo por ele se ter portado mal, mas uma mera questão de segurança. Não se pode deixar vivo um animal agressivo correndo o risco de ele voltar a atacar humanos. A questão é tão simples quanto isto.
Esta petição, tal como as várias reacções dos defensores dos animais a este caso, vieram mais uma vez demonstrar quão perigosas estas instituições se estão a tornar. Segundo os defensores dos animais não há nenhuma diferença entre homens e animais a não ser o facto de o homem ter uma razão mais desenvolvida que os restante animais. Por isso matar um animal é mais ou menos o mesmo do que matar um homem. Estes animalistas tem aliás uma expressão de que muito gostam: o especismo, ou seja a discriminação com base na espécie, igual ao racismo ou à xenofobia. Lembro-me que num debate sobre corridas de toiros um jovem defensor dos animais chegou a comparar as Praças de Toiros a campos de concentração.
Claro que esta personalização dos animais nem sempre se traduz em níveis de alucinação tão grandes. Muitas vezes fica-se apenas por anúncios de adopção de cães onde os cachorros são tratados por bebés ou então campanhas de indignação contra os animais do circo.
Contudo a tendência de esbater a linha que separa os homens dos animais é cada vez maior. Cada vez é mais comum tratar os bichos como se de pessoas se tratassem. Na base desta ideologia está a recusa de Deus. Não a recusa de um vago ente superior, que tem uma vaga existência. Mas do Deus que criou o céu a terra e tudo o que nela existe e que no centro da criação colocou o homem.
A partir do momentos em que os homens se recusam a reconhecer-se como criaturas de Deus, a partir do momento em que a sociedade recusa a ordem da criação, então o valor do homem já não está no simples facto de ser homem, criado à imagem e semelhança de Deus, mas no valor que a sociedade lhe atribui. Se nós somos de facto apenas um acaso da evolução, então é pouca a diferença entre um homem e um macaco.
A centralidade do homem na criação de Deus não é uma carta branca para tratar os animais da maneira que nós queremos. Também eles fazem parte da criação e por isso deve ser respeitados e bem tratados. Mas como aquilo que são: animais, criados para servir o homem.
Por isso é que um cão que ataca uma criança deve ser abatido. Mesmo que tenha sido muito maltratado, mesmo que vivesse em más condições, mesmo que a criança tivesse metido a cabeça dentro da boca do cão enquanto lhe puxava o rabo. Mesmo assim tem que ser abatido. Não por uma questão de culpa, mas porque a sua vida vale menos do que o mero risco de atacar um ser humano.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Legalização da Prostituição: Um Ataque aos Direitos das Mulheres.


Nos últimos tempos sempre que aparece uma notícia sobre prostituição é sempre ouvida a opinião dos grupos que defendem a legalização desta actividade. Os argumentos são quase sempre os mesmos: a liberdade da mulher fazer o que entende com o seu corpo, a dignificação das prostitutas, a segurança das mesmas.

Devo dizer que sempre que oiço alguém defender a prostituição fico logo irritado. Porque, por muita voltas que se dê a prostituição é sempre sexo forçado. Para ser livre é preciso que a vontade de praticar sexo fosse formada de maneira esclarecida e sem qualquer condicionante. Ora na prostituição há sempre uma relação de poder. “Se tu me deres o teu corpo eu dou-te dinheiro”. Mesmo as chamadas acompanhantes de luxo, que estão muitas vezes longe de ser vítimas indefesas, são coagidas a fazerem sexo com os seus clientes. Se assim não fosse, não cobravam dinheiro para o fazer.
Impressiona-me que os mesmos grupos que lutam contra o assédio sexual no trabalho sejam a favor da legalização da prostituição. Pelos vistos um patrão não pode exigir sexo a uma empregada para lhe dar trabalho, mas se lhe pagar directamente já não é um problema!
O que cada um faz com o seu corpo, dentro dos limites do Direito, não diz respeito ao Estado. Agora dizer que vender o corpo por dinheiro é um trabalho igual a todos os outros é uma mentira e um ataque aos direitos das mulheres. Queres estudar? Queres alimentar os teus filhos? Queres ter coisas boas? É fácil, vende a tua intimidade e podes ter tudo isso!
A prostituição nada tem de digno. Em maior ou menos grau é sempre a exploração da mulher por um homem que tem dinheiro para lhe pagar. Que isso aconteça com a bênção do Estado é indigno de uma sociedade onde o Homem e a Mulher são iguais em direitos.
A maneira de dignificar as prostitutas é criar condições para que elas não tenham que se vender para viver. Se, mesmo tendo condições para não o fazerem, preferirem continuar a ter sexo a troco de dinheiro, é uma decisão de cada pessoa. Mas não é uma decisão digna e nenhum diploma legal a dignificará.
Não é por acaso que a condenação social da prostituição foi crescendo juntamente com os direitos das mulheres. Reconhecer que a Mulher tem os mesmos direitos que o Homem passa por reconhecer que o seu corpo não pode ser vendido e comprado como um objecto. O resto é maquilhagem progressista para esconder um discurso tão velho e bafiento como a própria prostituição.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

5 de Outubro - "Que um fraco rei faz fraca a forte gente".





Amanhã celebra-se o 5 de Outubro de 1910. De há uns anos a esta parte virou moda por parte de alguns monárquicos converter este feriado num festejo do tratado de Zamora, celebrado no mesmo dia do ano de 1143.
Peço desculpa pela agressividade, mas é uma tontaria. O dia 5 de Outubro assinala um dos dias mais vergonhosos da nossa história. Um dia de cobardia e de traição. Nenhum festejo de uma data discutível para a fundação da nacionalidade pode, ou deve, branquear esse facto.
Porque no 5 Outubro, o da rotunda e dos Paços do Concelho, quase não houve heróis, só uma corja cobarde a revoltar-se contra outra corja igualmente cobarde. Do lado republicano todos se acobardaram excepto António Machado Santos e José Carlos da Maia. Do lado monárquico todos ficaram sentados, achando que a única mudança seria a de tirar o Rei e pôr lá um presidente.
Nesse dia, um pequeno grupo de malfeitores impôs ao país um regime anti-democrático diante da passividade de quase todos aqueles que juraram proteger a constituição e o Rei. Para proteger o jovem (pouco mais do que adolescente) Rei ficou Paiva Couceiro e meia dúzia de Africanistas. A audácia recompensou os republicanos (mas não Machado Santos que haveria de sofrer desterros, prisões até ser finalmente morto) que com pouco mais de dois mil homens conquistaram um país inteiro.
Porque o golpe republicano não representou nenhuma ruptura, mas sim a evolução natural do sistema liberal. Em 1834 o antigo Imperador do Brasil (que espancou a mulher grávida até esta morrer e que ao primeiro sinal da agitação no Rio largou a coroa imperial e o filho para vir a correr para a Europa tentar a sorte no nosso país) conseguiu com o dinheiro dos ingleses e com a tropa espanhola expulsar o Rei aclamado pelas cortes e pelo povo.
Depois disso o país foi governado por uma elite que nos intervalos das suas ridículas questiúnculas para saber quem mandava (os votos vinham depois de decidido quem chefiava o governo) saqueou animadamente o país durante 80 anos.
As diferenças entre os políticos monárquicos do liberalismo e os da Iª república eram poucas: ambos atacavam o Rei, ambos atacavam a Igreja, ambos achavam que o Estado e o povo existiam para lhes dar uma posição social (e financeira). De facto a diferença é que os republicanos estavam dispostos a ir mais longe para conservar o poder (basta pensar nos milhares de mortos da Iº Grande Guerra, que serviram apenas para tentar consolidar o poder do Partido Democrático)
O dia de amanhã não celebra uma grande reviravolta na História do nosso país. Celebra apenas o dia em que os políticos e os militares (que na aquela altura não se distinguiam bem) perderam de vez a vergonha e lançaram o país em 16 anos de caos, violência e despotismo.
Por isso a 5 de Outubro eu não festejo coisa nenhuma. É um dia de cobardia, baixeza e vileza que não deve ser esquecido nem branqueado por aqueles que sabem disso. Por outro lado também não choro o regime monárquico que caiu nesse dia. A monarquia caiu em Evoramonte no dia 26 de Maio de 1834. Demorou foi 76 anos a percebe-lo.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Mário Soares e a Democracia.





Hoje o Dr. Mário Soares disse finalmente o que todos os media queriam que alguém dissesse: que o Presidente devia demitir o governo e formar um governo de salvação nacional. Ontem os jornalistas já tinham tentado estender esta armadilha a António José Seguro que teve a inteligência (ou a decência) de não cair na esparrela.
A sugestão do pai do Partido Socialista é o culminar da campanha sobre a falta de legitimidade do governo para se manter em funções depois das manifestações de sábado. Segundo vários senadores da política nacional a contestação popular ao governo é sinal de que o governo devia cair.
Eu não penso que o governo deva simplesmente ignorar a rua. contudo uma democracia parlamentar não se baseia em manifestações e opiniões de pessoas que se acham donas do povo. Mário Soares, Arménio Carlos, João Proença, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã , Vasco Lourenço não foram mandatos por ninguém para interpretar a vontade popular.
A legitimidade do governo advém do voto popular, que deu ao actual governo uma maioria de 132 deputados (em 230) fruto dos 50,35% de votos que recebeu nas últimas eleições. O Dr. Soares pode não gostar do resultado das eleições, mas em democracia não governa quem tem maior tempo de antena ou reúne mais povo na rua, mas quem ganha as eleições.
A maioria clara de que o governo dispõe na Assembleia da República não é um cheque em branco para fazer o que quiser. Quase metade do país votou nos outros partidos que estão representados no Parlamento. Contudo, depois do debate cabe decidir a quem foi eleito para governar.
Nomear um governo de salvação nacional um ano e três meses depois das eleições legislativas é uma ofensa à democracia. É declarar que a vontade popular (a legítima, expressa pelo voto nas urnas) deve ceder perante a sapiência de alguns iluminados.
O Dr. Mário Soares não deveria esquecer que depois do 25 de Abril a “rua” pertencia aos comunistas e à extrema-esquerda. O MFA condicionou todo o processo democrático com o “povo”. Contudo, foi Mário Soares e não Cunhal que foi primeiro-ministro do I Governo Consitucional. Porquê? Porque o PS teve 46,4% dos votos e o PC 12% nas eleições de 75. Assim é a democracia: assim como em 1976 governou Mário Soares sem a rua mas com a legitimidade do voto, assim governa Pedro Passos Coelho em 2012.

domingo, 16 de setembro de 2012

António José Égalité!




Conta-nos a história que Luís Filipe II de Orleães, primo de Luís XVI, foi um dos principais financiadores dos movimentos que deram origem à revolução francesa. A família real acusava-o de ter inspirado (e patrocinado) a tomada da Bastilha. Aparentemente o seu grande objectivo era pôr-se à frente do movimento de contestação popular ao governo do Rei seu primo e fazer-se coroar monarca constitucional de França.
Contudo a excitação revolucionária rapidamente o ultrapassou. Em 1792, com a proclamação da I Republica, abdicou do seu nome de família e passou a ser o Citoyen Égalité. Conseguiu ainda ser eleito para a Convenção Nacional como vigésimo e último deputado por Paris. Da sua actividade parlamentar nada há para realçar a não ser ter votado favoravelmente a morte do seu primo e Rei, Luís XVI.
Durante o terror de Rosbepierre foi preso, julgado e guilhotinado. Nem o facto de ter financiado os movimentos revolucionários, nem o ter lutado contra o seu próprio povo no norte de França para impor a revolução, nem o ter votado a morte do Rei lhe serviu para livrar das garras do “povo” que tanto defendera.
Lembrei-me desta pequena história depois desta semana onde tantas e tantas personalidades incitaram o povo a revoltar-se contra as medidas de austeridade do governo. Apelos esses que culminaram nas manifestações de ontem.
Se António José Seguro, Mário Soares, Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã, entre outros, não conhecem a história e o destino do Citoyen Égalité alguém lhes devia contar. É que ainda há poucos dias um dos blogues responsável pela manifestação de ontem em Lisboa se congratulava pelo facto de todos os deputados (esquerda incluída) e membros do governo da Grécia não puderem sair do parlamento sem serem atacados pelo “povo”.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Stop Kony! E depois?


Assisti com algum cepticismo ao aparecimento do fenómeno Kony e do Lord’s Resistance Army’s. Tendo sempre a desconfiar de causas que geram automaticamente um adesão maciça. O defeito é meu, porque nunca é razoável partir do puro preconceito.

Na última sexta-feira, por insistência de alguns liceus de Comunhão e Libertação, lá vi o famoso vídeo do maior criminoso de guerra dos nossos tempos. O filme é um pouco irritante, muito emotivo e com algumas informações pouco exactas (tanto quanto consegui perceber, nenhuma mentira, mas muitas simplificações, como convém a um fenómeno de massas).

Mas, saltando por cima da irritação e do preconceito, permanece um facto: Joseph Kony lidera há quase trinta anos uma milícia que tem como único fim matar, roubar e pilhar. Um problema não só para o Uganda, mas também para outro países à volta onde ele actua. Prendê-lo, ou mesmo abatê-lo, é de facto uma coisa necessária.

É verdade que não é o maior problema do mundo, nem de África nem sequer do Uganda. Contudo foi o problema com que os autores do filme se embateram e que tentam resolvê-lo. Se havia maneiras mais eficazes de o fazer do que gastar rios de dinheiro em publicidade e viagens ao Uganda? Não sei. Parece-me contudo injusto critica-los do alto do meu comodismo, sentado à frente do computador no centro de Lisboa.

Porém há duas coisas que me ocorreram durante o filme. A primeira é de que eliminar Kony não resolve o problema das crianças soldado. A dor e a destruição que o LRA causou nos últimos trinta anos não vão desaparecer com a sua destruição.

É bom que se pare os criminosos de guerra, mas o problema de fundo não é que existam umas pessoas muito más que fazem coisas muito maldosas. O que falta realmente em África (e na Ásia, e na América e na Europa) é esperança. Não uma ilusão, não sonho, mas esperança. E a esperança não pode nascer da morte de alguém, por muito mau que ele seja.

Neste momento o LRA, segundo as notícias, tem poucos mais de trezentos soldados e está quase inactivo. Parar Joseph Kony fará justiça, mas não vai mudar nada. A mudança nasce da esperança. A esperança nasce do encontro com alguém que tem em si a promessa de algo que nos corresponde.

A segunda coisa que me incomodou no filme foi a ideia de que se perseguirmos e prendermos todos os “maus” então o mundo será um lugar bom. A história já demonstrou mil vezes que por muito que se derrotem os “maus”, outros “maus” aparecem.

Porque o mal habita antes de mais em mim. E o que muda a história não é que os “bons” vençam as guerras (embora seja melhor assim), mas antes de mais a conversão de cada homem. O mal causado pela violência e pela guerra deve ser combatido. Mas só aqu’Ele que tem o pode de converter o coração do homem pode mudar a história.