Todos as mensagens anteriores a 7 de Janeiro de 2015 foram originalmente publicadas em www.samuraisdecristo.blogspot.com

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Que pena é o recolher compulsório nesta nova Lisboa das maravilhas - Joana Petiz, DN, 12/01/17

Está um mimo, a nova praça de Campolide, nascida ali mesmo ao pé da junta para melhor luzir aos olhos dos munícipes. Ainda não está pronta, claro. Mas já o adivinha quem lhe dá a volta - roteiro agora obrigatório para quem segue para as Amoreiras; há que valorizar a obra, bolas!, e isso não aconteceria se os condutores pudessem continuasse a passar-lhe ao lado, sem fazer aquele quadrado completo à volta da famosa Valenciana. Mesmo com frio, até já me deu vontade de enfiar o carro no parque (talvez o experimente quando reabrir) e ir testar aquelas poltronas de pedra, costas reclinadas em posição de descanso obrigatório e a uma distância controlada da mesa inamovível ao centro. Talvez seja um pouco difícil para os velhinhos de Campolide chegar-lhe durante os jogos de cartas ou damas ou xadrez, mas ao menos podem sentar-se ali e deitar-se a adivinhar quanto tempo levará a passar para o outro lado aquele carro encarnado que ainda agora parou na fila. Não durante os dias de verão, que já se vê que quando o sol ali chegar com força aquele material há de aquecer o suficiente para nele se poder fritar ovos, mas se esperarem que seque o orvalho na pedra, haverá manhãs de primavera em que até pode ser agradável.

Não é só Campolide que está a mudar. Está como nova, esta Lisboa de ruas rasgadas por praças luminosas, passeios largos e ciclovias - em grande parte inúteis, claro, porque os ciclistas que são capazes de resistir à exigência das sete colinas continuam a preferir as estradas, onde acumulam privilégios de carros e peões. E agora então, livre daquela malfadada calçada portuguesa - exceto nas zonas históricas, onde ela continua a existir sem manutenção - que por tantas décadas resistiu às queixas dos lisboetas, até sabe bem passear por aí. Dá sempre jeito ter alguma inclinação para o parkour, para saber como fugir dos restos de material de estaleiro e desviar-se das gargantas ainda abertas no chão, mas tudo isso é temporário e quando a obra estiver completa Lisboa ficará muito mais bonita. Mesmo que seja preciso ainda retificar alguma coisa, como aquele pavimento de pedra lioz que veio substituir a calçada portuguesa. Sim, era horrivelmente escorregadio, perigoso até, e ali para os lados da Estefânia, da Praça do Comércio e do Martim Moniz até cedeu ao peso das centenas de pessoas que por ali passavam, mas a câmara já nos descansou: há um plano para substituir todas essas lajes que não resistiram a dois anos de utilização.

Afinal, Fernando Medina é um homem de soluções e já deu provas disso. Por exemplo, quando viu o perigo que alguns espaços comerciais mais característicos de Lisboa corriam, empurrados contra a parede pela lâmina da especulação imobiliária, apressou-se em sua defesa, criando o programa Lojas com História. É verdade que o projeto ainda não foi regulamentado, mas afinal só passaram dois anos desde a sua aprovação. E o presidente tem tido muito que fazer, entre inaugurar praças, pensar estratégias para civilizar a cidade e encontrar soluções para problemas sérios, como tornar a Carris viável e rentável. Ou ensinar aos lisboetas que inconveniências só se têm até às 22.00 e que depois das 2.00 o melhor que têm a fazer é ir para casa, que já não são horas de estar na esplanada, mesmo que o tempo a isso convide.

Lisboa pode ainda não estar no ponto, mas para o fim do verão lá chegará - estará ao menos próxima do plano que o jovem portuense desenhou na sua cabeça. Mesmo a tempo de receber as arruadas de Fernando Medina.

Sem comentários:

Enviar um comentário