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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O dia mais feliz para todos os espanhóis - Begoña Íñiguez, DN, 09/01/17

Dois mil anos depois, Espanha mantém viva, e se é possível com mais força do que nunca, a sua festa mais alegre e típica de Natal: a chegada dos Reis Magos do Oriente a todas as cidades e povoações do país, na tarde de 5 de janeiro, e a entrega dos presentes na manhã de dia 6. Sem ceder aos ares anglo-saxónicos que convidam com a veemência dos centros comerciais a celebrar a chegada do Pai Natal, os espanhóis optaram, quase por unanimidade e sem precisar de eleições, por unir-se em torno da mais castiça celebração, de norte a sul do país. Com efeito, o dia 6 de janeiro é dia de festa nacional em todas as comunidades autónomas, bem como em Ceuta e Melilla. E não há pai ou mãe espanhol com filhos pequenos, qualquer que seja a sua procedência, classe social ou ideologia, que não saia à rua com os pequenos no dia 5 à tarde para receber com alegria e ilusão os três Reis Magos, Melchior, Gaspar e Baltazar.

As autarquias dedicam uma parte importante do seu orçamento anual à chamada Cavalgada dos Reis, grande receção das localidades espanholas a Melchior, Gaspar e Baltazar e ao seu séquito de pajens que chegam nesse dia de avião, helicóptero, comboio, a cavalo, de camelo ou montados em tratores. A expressão dos mais pequenos faz os adultos voltarem a ser crianças e reviver a infância. A alegria inunda as ruas que se enchem de miúdos e velhinhos para contemplar o colorido desfile das cavalgadas dos Reis Magos - este ano feitas entre fortes medidas de segurança - que entregam rebuçados e sorrisos aos mais pequenos e estes não podem conter a emoção quando suas majestades do Oriente os abraçam, beijam ou dizem que se deitem cedo porque nessa mesma madrugada passarão por suas casas para levar os presentes que lhes pediram por carta.

Nas cavalgadas vale tudo para manter a ilusão dos pequenos: carruagens, pajens, cavalos, atores que os acompanham, balões com acrobatas portugueses, como os que se viram em Compostela, ou até dinossauros espetaculares que fizeram as maravilhas dos habitantes de Vigo. Durante as cavalgadas, os cafés fazem bom lucro com as famílias que enchem as casas para tomar um chocolate quente com churros, ou roscón de Reyes - semelhante ao bolo-rei mas feito com uma massa diferente. A noite de 5 de janeiro é a mais mágica de todas para as crianças espanholas. Jantam cedo e antes de irem para a cama põem um dos seus sapatos em frente à árvore de Natal ou do presépio e preparam comida e bebida para quando Melchior, Gaspar e Baltazar chegarem, incluindo cevada ou cenouras para os seus camelos. Os miúdos ficam nervosos, agitados perante a possibilidade de encontrá-los a depositar os presentes. E então dormem ferrados mas ficam convencidos de os terem vislumbrado ou escutado enquanto traziam os presentes.

Na manhã seguinte, as salas das casas espanholas acordam repletas de embrulhos ordenadamente colocados atrás de cada sapatinho. Os miúdos acordam cedo e, com emoção, logo espreitam o que os Magos do Oriente trouxeram para cada um, veem os restos da comida que lhes tinham deixado e até há alguns que encontram mensagens de suas majestades pedindo-lhes que se portem bem ou não façam tantas travessuras. A abertura dos presentes é outro momento emocionante para os mais pequenos, que depois saem com os pais para mostrar, orgulhosos, aos amigos os brinquedos que receberam dos Reis. Segue-se o almoço em família, que termina com o saboroso e típico roscón de Reyes, que só se come a 5 e 6 de janeiro. Dentro, o bolo tem uma surpresa escondida e diz a tradição que quem a receber terá sorte o ano inteiro.

Com a sobremesa dos Reis, encerra-se mais de 15 dias de festas natalícias em Espanha, que têm início a 24 de dezembro, com a ceia da Nochebuena - a portuguesa Consoada -, e os petiscos típicos da época no dia seguinte, continuam na despedida do ano, a 31 de dezembro, à volta de uma mesa farta, seja em casa ou num restaurante, e as boas-vindas ao ano novo, com as 12 passas comidas ao som das badaladas dos principais relógios das cidades e acompanhadas de brindes com cava, e o almoço de família no dia 1. Como confirmou ao DN um responsável do El Corte Inglés de Santiago de Compostela, "os espanhóis continuam a escrever aos Reis Magos e escolhem-nos para a entrega de presentes a 6 de janeiro". "As vendas aumentaram muito em relação ao ano passado e a 2014, sobretudo entre 2 e 5 de janeiro. Parece que o pior da crise já passou."

A origem dos Reis Magos

A adoração dos Magos do Oriente ao Menino Jesus, orientados por uma estrela ao longo de dois mil quilómetros, é uma das tradições mais sólidas do imaginário cristão, tendo em conta o texto que surge no Evangelho de São Mateus (2, 1-2). "Nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do rei Herodes, uns Magos do Oriente apareceram em Jerusalém dizendo: Onde está o rei dos judeus que nasceu? Pois vimos a sua estrela e viemos adorá-Lo." Um pouco adiante (2, 11), São Mateus explica: Viram o Menino com Maria, Sua Mãe, e prostrando-se, adoraram-No, abrindo logo os seus cofres ofereceram-Lhe ouro, incenso e mirra."

A festa dos Magos não teria a importância atual sem a intervenção da cultura e religiosidade populares espanholas, que puseram os Reis nas suas ruas e fizeram à sua volta a festa da Epifania mais espanhola de todo o calendário cristão. Sabe-se que a primeira cavalgada desfilou em Alcoy (Alicante) em 1866, tendo-se aperfeiçoado a tradição em Granada, em 1912, e um pouco mais tarde Sevilha encheu-as de esplendor com a sua tradição de procissões, que se espalhou rapidamente por todo o país. Mais de 100 anos depois, continuam a ser um sucesso entre os espanhóis.

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