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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Bye-bye Obama, hello Trump - Miguel Angel Belloso, DN, 20/01/17

Já a partir de hoje temos um novo presidente dos Estados Unidos da América. É o número 45 da história e esperemos que esteja à altura do que significa este país para todos os que acreditamos na democracia, na liberdade e nas sociedades abertas, diria o grande Popper. Mas deixem-me antes despedir-me com grande satisfação do velho. Obama, o primeiro negro à frente do país, o que podia ter sido e não foi, o venerado pelos progressistas mundiais, outro dos prémios Nobel da Paz da série dos mais injustos, que não fará história por nada consistente salvo por algo tão desonroso como ter degradado o papel da América como referência mundial a favor da Rússia de Putin. Este senhor adorado em Espanha e Portugal foi, salvaguardando as distâncias, o Zapatero americano. Deixou o país mais dividido e mais longe do que nunca dos princípios que o fizeram o mais poderoso e, como consequência, o seu principal legado é ironicamente o seu sucessor, Donald Trump.

A volta que deu à política externa com o abandono antecipado do Iraque, a aproximação ao Irão e o afastamento de Israel debilitaram a posição internacional da América. A renúncia em assumir a liderança em regiões e conflitos-chave reforçou os seus rivais, que aproveitaram a oportunidade para consolidar os seus avanços. É o caso da Rússia na Europa, no Cáucaso e no Médio Oriente. Do Irão no Afeganistão, Iraque, Síria e Líbano. Da China nos mares da China Oriental e do Sul. Todos estes efeitos perversos do presidente progressista são indiscutíveis.

Dentro de portas, Obama demonstrou de forma consistente ser um dogmático. A viragem à esquerda que quis impor à sociedade americana, que é individualista por natureza e que receia o Estado protetor, não trouxe os benefícios prometidos. O seu objetivo de aproximá-la da social-democracia imperante na Europa não prosperou. O Obamacare, que passa por ser a sua grande obra, é contestado por uma grande parte da população, que já tem um seguro médico por estar empregada e que não quer sofrer mais custos adicionais, nem deixar-se ajudar quando é capaz de fazer-se valer por si própria. Trata-se de gente normal, que prefere uns impostos baixos que lhe permitam desfrutar da maior parte do fruto do seu trabalho e se opõe a subvencionar outras pessoas que pensam, com razão, que se aproveitam ou podem aproveitar-se do sistema.

Os americanos não são como os europeus, sempre dispostos a aceitar as dádivas do Estado e a instalar-se na comodidade. Têm orgulho de ter nascido num país criado a partir do nada, numa terra hostil que se tornou a mais próspera do planeta com base no esforço e no sacrifício pessoal. Não têm a nossa mentalidade socialista e esperemos que seja assim por muito tempo.

É verdade que Obama deparou-se com uma crise financeira brutal, que ameaçava afundar o país na depressão. Apesar de Bush se ter movido rapidamente para combater a derrocada bancária, Obama desempenhou bem depois a sua tarefa, o resgate do setor automóvel foi um sucesso, e é certo que reduziu notoriamente o défice público e que praticamente há pleno emprego na nação, mas também que tais avanços escondem o aumento dos desempregados desanimados, que já não contam como população ativa, e o descontentamento das classes médias, que perderam poder aquisitivo de forma dramática. Existe no país a sensação generalizada de que a crise atingiu muita gente, mas que a recuperação beneficiou poucos. Aplicando a máxima do prémio Nobel Milton Friedman, de julgar as políticas não pelas suas intenções mas pelas suas consequências, os anos de Obama não foram brilhantes, em especial para os grupos desfavorecidos que dizia defender. Esta deriva gerou uma grande brecha social, um claro ressentimento contra os políticos e a estrutura institucional, e um resultado inesperado e surpreendente: a vitória de Trump.

Um amigo português que leu os artigos mais compassivos e até favoráveis a Trump que escrevi neste jornal, em parte contraditórios com as teses que tradicionalmente defendo, pergunta-me se não me inquieta o personagem. Digo-lhe que claro que me provoca ansiedade! A sua veia intervencionista e os seus desejos de monitorizar sob pressão a atividade empresarial são repudiáveis. As pressões que já exerceu sobre as empresas que investem livremente no estrangeiro são intoleráveis. Que as suas políticas derivem numa guerra comercial entre a China e os Estados Unidos só irá trazer problemas a todo o mundo e menor riqueza global. O principal risco do novo cenário político é o protecionismo e Trump parece encarná-lo de forma genuína. Sou dos que pensam que a globalização trouxe benefícios impensáveis à humanidade. A pobreza caiu dramaticamente na América Latina, na Ásia e até em África. Mas o modesto crescimento registado pelo comércio mundial no último ano e meio tem precisamente que ver com o aumento das leis destinadas a proteger a produção nacional. É uma tendência totalmente negativa.

Apesar de estes indícios tão graves, que não eram muito distintos dos que apresentava a sua adversária à Casa Branca, Hillary Clinton, penso que Trump merece uma margem de confiança. As suas propostas de baixar os impostos e estimular, através das empresas privadas, os investimentos em estruturas num país que as tem nos mínimos, parecem-me oportunas. Obama foi o presidente menos business friendly da história. Os que pensam, como eu, que as empresas são a alma dos países, estão esperançosos de que Trump seja a pessoa idónea para favorecer o mundo dos negócios, longe dos preconceitos socialistas do seu predecessor.

Também acho que o novo presidente formou uma equipa que, contra o que pensa a imprensa progressista e a esquerda planetária - essa que só é democrática quando lhe convém, quando ganha, e que quando perde leva as mãos à cabeça e assegura, alarmada, que a democracia está à beira do abismo - é uma boa equipa. É composta por generais experientes nas grandes guerras dos últimos anos, patriotas completos e muito conscientes do que significa o serviço público. Por milionários à frente da economia, que como não precisam de dinheiro, comprometeram-se com o país por uma questão de civismo, para recuperar a sua grandeza. E por advogados com princípios, muito longe da amoralidade a que estamos acostumados na Europa.

Trump recebeu como herança um país relativamente sólido desde o ponto de vista económico mas socialmente partido ao meio, confrontado com grandes contradições. Será preciso estar atento aos seus movimentos e ver que tipo de acordos é capaz de conseguir num cenário mundial tão complicado e volátil. Mas acho que o mais razoável é julgar Trump pelos seus atos e pelos seus resultados. Reagan também chegou à Casa Branca no meio da hostilidade aberta dos círculos de Washington, rodeado da oposição nos principais ministérios dos Negócios Estrangeiros ocidentais e do ataque inclemente dos progressistas mundiais. Hoje é reconhecido como um dos melhores presidentes dos Estados Unidos. Espero que também acabe por ser assim neste caso.

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