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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

A transição Trump - Jaime Nogueira Pinto, DN, 12/12/16

Se o tempo da transição Reagan, há 36 anos, era de euforia conservadora, o que agora se vive é mais cauteloso, já que muitos republicanos ainda não acertaram agulhas com Donald Trump.
Há de tudo: há os Never Trump ontem e sempre; há os que não gostam mas, por lealdade partidária e Never Hillary, o apoiaram e vão apoiando; e há os da primeira hora, que agora estão a selecionar os cerca de quatro ou cinco mil novos membros da média-alta administração.

A eleição deste bilionário exótico, senhor de hotéis, golfes e casinos, deste outsider total, aberrante tanto para os padrões clássicos de "conservador" como para os de "progressista", é coisa rara. Bem mais rara do que a eleição de "uma mulher". Trump tinha contra ele quase tudo o que contava: os media mais prestigiados, os nomes sonantes das Letras e das Artes, o Dinheiro Velho, parte das elites do seu próprio partido. E quem vence assim merece alguma atenção, além da arrogância furibunda dos comentadores e do desdém das "elites".

Até agora, as nomeações têm sido uma mistura. Dos fiéis que acompanharam Trump desde o início, estão Steve Bannon, o controverso chief strategist, o senador Jeff Sessions, novo procurador-geral, e o general Flynn que é agora conselheiro nacional de Segurança. Há depois os profissionais prestigiados, como o secretário da Defesa, o general Joe Mattis, Mad Dog Mattis, a secretária dos Transportes, Elaine Chao, ou Tom Price, secretário da Saúde e Serviços Sociais. Mas Trump também foi buscar colaboradores que apoiaram os seus rivais: Nikki Haley, a nova embaixadora nas Nações Unidas, apoiou Rubio e depois Ted Cruz; Mike Pompeo, o novo diretor da CIA, também apoiou Rubio e o Dr. Carson, o afro-americano que ficou com a Habitação e o Urbanismo, bateu-se contra ele.

Para as pastas económicas, Trump convidou homens ricos, como Steven Mnuchin, o novo secretário do Tesouro, e Pick Wilbur Ross, secretário do Comércio; e a nova secretária da Educação, Betsy DeVos, é irmã de Eric Prince (o da Blackwater). Veremos o que estes membros do clube do 1% mais rico fazem pelas classes médias descontentes...

A escolha que falta e que é para nós muito importante é a de secretário de Estado. Têm surgido muitos nomes: Rudy Giulliani, o senador Bob Cocker (Tennessee), o general Petraeus, Mitt Romney, o patrão da Exxon-Mobil, Rex Tillerson, e o embaixador Khalizad, um muçulmano americano.
Um ponto preocupante é o tom anti-islão de alguns dos escolhidos para os cargos da Segurança Nacional. Para analistas conservadores como Paul Pillar do National Interest serão demasiado "ideológicos" para lidar bem com o Irão ou a estratégia antijihadista. Fazer desta uma "guerra de religião" seria um pesadelo para o mundo e para os Estados Unidos.

A polémica entre "realistas" e "ideólogos", que pensávamos acabada com a autodefenestração dos neoconservadores que não param de invetivar Trump, parece continuar de pé. Por um lado, Trump garante uma política de realismo sem missionarismos ideológicos, dirigida contra o inimigo principal, o jihadismo terrorista. Por outro, alguns dos seus colaboradores nas áreas internacionais parecem alinhados ideologicamente nalguns dos pontos da política externa.

Assim sendo, o nome do secretário de Estado assume a maior importância, na medida em que vai ser ele o rosto visível e o braço ordenador da política externa da América. Um presidente menos político, como Eisenhower, entregou a política externa a John Foster Dulles que, com o irmão Allen à frente da CIA, marcou a política norte-americana da primeira guerra fria.

Alguns talvez se lembrem ou saibam que foram os irmãos Dulles, com a Operação Ajax, que derrubaram, no mesmo Irão, o primeiro-ministro Mossadegh, acusando-o de ser um ponta-de-lança do comunismo. Que talvez não fosse.

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