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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Travão a fundo na esquerda mundial - Miguel Ángel Belloso, DN, 25/11/16

Pode estar tranquilo. O mundo não está em chamas. Ganhou Trump porque era o candidato mais exequível dos possíveis. O mal menor e certamente melhor presidente do que candidato. Se se sente aturdido e sem referências é porque esteve a ser sistematicamente enganado pelos meios de comunicação que lê ou ouve, que vivem nestes momentos uma situação de falta de credibilidade apocalíptica. A maioria dos correspondentes espanhóis nos Estados Unidos - não posso falar dos portugueses porque não os conheço - são de esquerda. Chegam lá cheios de preconceitos, sem qualquer interesse em analisar o coração da América e o objetivo de amar o país mais democrático e livre da história. Vão com a intenção fatal de persuadir a sua audiência de como devia ser: a maior social-democracia do planeta. Mas a capacidades destes aprendizes de feiticeiros para mudar a idiossincrasia de uma nação forjada durante anos graças ao sacrifício e a obstinação dos que a fizeram grande e a converteram na terra de oportunidades equivale a zero. Estes rapazes viajam para a América com o estúpido objetivo de convertê-la numa réplica da Europa, no paraíso socialista, e naturalmente estatelam-se. Isso seria o menos. Seria algo magnífico não fora porque no caminho arrasam com a reputação dos meios para os quais trabalham e confundem massivamente os leitores e ouvintes. Mas não pensem que quando chocam contra a realidade têm a humildade de retificar e fazer um ato de contrição. A sua reação pueril é dizer que os que se enganaram não foram eles, mas os americanos. Houve uma primeira página maravilhosa do El Periódico de Catalunya, um dos mais lidos de Espanha, no dia seguinte às eleições, que era realmente comovedora, para não dizer patética. O título "Deus perdoe a América" acompanhava a fotografia do Trump mais irritado que conseguiram arranjar.

Como sabem, a revista que dirijo, Actualidad Económica, está nos antípodas do intervencionismo económico e do protecionismo comercial que defendeu Trump até à data. O que acontece é que as propostas da senhora Clinton eram ainda piores. Não só estava também contra o Tratado de Livre Comércio entre América e Europa, e o que já está assinado com o Canadá, como estava disposta a controlar a vida das empresas, a dar mais poder aos sindicatos, a subir o salário mínimo, a criar um banco público para financiar infraestruturas e desde já a subir os impostos aos ricos. A colocação em prática desta agenda teria sido letal para a prosperidade da nação mais possante do mundo, que é a que quer construir Trump sem que ainda saibamos se acertará, mas com algumas ideias notáveis como flexibilizar as regulações e as normas que restringem a atividade económica, baixar os impostos, reduzir o custo dos programas de assistência elevando a sua eficácia e criar um clima mais favorável para o mundo dos negócios. Precisamente o contrário do que fez Obama, que além disso devastou a política exterior da primeira potência do mundo, até mergulhá-la no ridículo.

O convencional é dizer que Trump é um populista. Não me vou opor a tal consideração, mas parece-me que é um adjetivo que no seu caso requer algumas nuances. Contrariamente à tradição europeia, onde o populismo tem enfrentado o sistema desde a direita ou desde a esquerda, o populismo americano nunca propôs a substituição da lei e das instituições pela participação do povo em assembleias. Obedece a um forte sentimento antiaristocrático, herdado dos tempos revolucionários, que vem impregnado de liberalismo individualista. A ser populista, o senhor Trump seria em todos os casos um populista constitucionalista, não um total antissistema como o senhor Pablo Iglesias, que dirige o Podemos em Espanha, e quem o apoia.

É verdade que Trump trará muitas novidades. Faltando ainda conhecer a sua equipa de governo e o programa que será aplicado, as suas mensagens são mais claras no político do que no económico. No plano internacional, o aviso à Europa é inequívoco: depois de mais de cinco décadas de protetorado, o Velho Continente deve resolver os seus assuntos. Porque se os aliados não conseguem pôr-se de acordo, Trump parece até disposto a reservar à Rússia a liderança da solução militar no Médio Oriente e a alavanca para conter o Irão. Por seu lado, a China, a grande potência inimiga, recebeu outra clara chamada de atenção em relação ao seu indissimulado expansionismo e às suas práticas comerciais e financeiras. Na questão económica, as ideias iniciais de Trump têm de ser contempladas com cautela. Por agora são só um conjunto de propostas desarticuladas, que misturam medidas keynesianas (aumento do gasto público), com outras de carácter liberal (redução de impostos) e ideias protecionistas nas relações com o exterior que põem em risco os grandes acordos comerciais já assinados e pendentes de ratificação. Qualquer passo em falso poderá ter consequências económicas nocivas, que travariam os avanços conseguidos nos últimos 25 anos.

Mas há um facto evidente, que me parece inquestionável, e a principal razão pela qual sinto compaixão pelas vítimas desta eleição, ao mesmo tempo que uma alegria enorme pelo seu resultado. A vitória de Trump parou a fundo a esquerda mundial e constitui a reprimenda mais brutal contra o insuportável patrão do politicamente correto e do pensamento social-democrata hegemónico. Com a sua vitória, o magnata nova-iorquino conseguiu o que parecia impossível, e o mais temido pelo aparato do poder e informação que há décadas impõe a sua agenda. A história recordará quem conseguiu romper o domínio da correção política, conectando-se com uma parte importante do eleitorado esquecido e sepultado sob os mais diversos eufemismos. Que seja a primeira vez na história da América que a vitória legítima de um presidente esteja a ser contestada nas ruas por uma minoria de manifestantes antidemocráticos, como se os Estados Unidos fossem algo parecido à triste Europa, como se tivéssemos transplantado os seguidores do Podemos à América, é um sinal inequívoco do que estava em jogo nestas eleições nos Estados Unidos. Que se esteja a preparar para 20 de janeiro, o dia da tomada de posse de Trump, uma manifestação colossal contra ele, com o silêncio cúmplice e suicida da formação rival, o Partido Democrata, diz muito sobre o tumor que cresceu no país com a ajuda de Obama e que a senhora Clinton estava disposta a alimentar parecendo boazinha, com o seu progressismo, o seu feminismo radical, o seu ecologismo e o seu igualitarismo.
Não sei se Trump será capaz de devolver à América a grandeza que já teve, mas não tenho dúvida de que, como aconteceu com Reagan, eleito massivamente mas também fustigado durante boa parte do seu primeiro mandato pelas elites e os progressistas mundiais, detestado até ao fim na Europa, pelo menos fará o possível para levantar o otimismo íntegro que o país demonstrou outorgando a sua confiança a um personagem histriónico, mal-educado e vulgar mas, em qualquer dos casos, fascinante. Dada a alternativa, é uma bênção.

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