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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Territórios privados da esquerda - Miguel Angel Belloso, DN, 11/11/16

Já temos governo em Espanha. Os investidores parecem muito satisfeitos. Nós, os liberais, somos otimistas por natureza, mas ainda nos resta um pouco de senso comum, que trabalha em sentido contrário. Quase um ano de interinidade demonstrou uma tese que defendo há muito tempo: a vida continua, e até pode dar lugar a resultados exuberantes, na ausência de um poder político regularmente empenhado em legislar, muitas vezes numa má direção. Por exemplo, a economia espanhola vai crescer neste ano à volta dos 3,3%, o valor mais alto da última década. Criaram-se mais de um milhão de empregos nos últimos dois anos. A inflação está sob controlo. O peso das exportações sobre o PIB é maior do que nunca. E podia citar outros dados igualmente positivos sobre a conjuntura que atravessa o país.

Ironicamente, o aparecimento de um novo governo pode acabar com esta lua-de-mel. Espero explicar-me bem. Não quero dizer que tudo se estrague rapidamente, mas é um facto que as previsões para 2017 situam o crescimento da economia quase um ponto abaixo do deste ano. E há algumas razões para pensar que isto vai acontecer. A maioria são exógenas. O efeito da política monetária expansiva do BCE é cada vez menor. A onda de protecionismo reinante está a contrair o comércio internacional. O petróleo, de que tanto dependemos, é provável que suba. Etcétera.

Mas também há causas internas: a incerteza sobre a capacidade da nova equipa do PP para governar com apenas 135 deputados quando a maioria absoluta exige contar com 176. Penso que já partilhei com vocês a minha impressão de que esta legislatura será fugaz, apesar de ter alguns amigos irrepreensíveis que pensam que estou enganado. Mantêm a esperança de que o Partido Socialista tenha mais incentivos para colaborar na procura de soluções para os grandes desafios que enfrenta a nação do que para fazer uma oposição vândala. Eu penso o contrário.

O Partido Socialista está completamente partido. Depois de ter afastado Pedro Sánchez, tem uma grande tarefa pela frente para reconstruir-se e reformular o seu projeto, e nestes momentos os incentivos que tem são perversos. Tem de procurar o perdão dos seus militantes e de grande parte dos seus eleitores pelo facto de a direita ter voltado ao poder graças à sua abstenção. De facto, o presidente da gestora socialista que agora dirige o partido, Javier Fernández, que é um homem prudente e cortês, já disse que será muito complicado apoiarem o Orçamento do Estado, uma questão-chave para nos reconciliarmos com Bruxelas.

Também li com cuidado a resolução do comité federal na qual se aprovou a abstenção dos socialistas para a investidura de Rajoy, digamos que a rendição. E trata-se do mesmo catálogo de insensatezes que defendia o extinto Sánchez! Como são incorrigíveis, os socialistas lutarão por revogar a reforma laboral e a lei de educação. E porquê? Bom, por uma razão elementar, muito simples. Porque pensam que ambos os territórios lhes pertencem por direito divino. Desde que chegaram pela primeira vez ao poder em 1982, todas as leis de educação - até a última, que ainda não entrou totalmente em vigor - foram elaboradas pela esquerda com uns resultados que a prova empírica revela catastróficos. Os nossos filhos, refiro-me aos das famílias espanholas, estão entre os piores da Europa em compreensão de leitura, no exercício das matemáticas e na identificação dos factos históricos. Destruiu-se a autoridade do professor, inculcou-se uma pedagogia ginástica e lúdica em prejuízo da instrução e da memória, combateu-se deliberadamente a excelência a favor da mediocridade igualitária, e optou-se pelo doutrinamento em vez de por uma educação cabal capaz de formar cidadãos com senso comum.

É inaudito que os socialistas continuem orgulhosos de ter condenado os nossos filhos à indigência intelectual e à falta de capacidade e aptidão para encontrar um emprego, mas é o que acontece. E continuarão a opor-se a qualquer alternativa porque a esquerda tem inscrita geneticamente a ambição de criar viciados na sua causa, não importa que sejam analfabetos funcionais se podem converter-se em eventuais eleitores. Espanha é o único país do mundo no qual, por causa da esquerda, muitos estudantes não querem ser examinados - que sejam provadas as suas faculdades académicas. Pior ainda, é o único país do mundo no qual muitos pais os apoiam; só querem que os seus filhos passem e ponto, que não lhes deem problemas, que tenham o menor número de trabalhos de casa possível, a maior comodidade, o que for preciso para que não tenham de alterar o próximo fim de semana e criar-lhes dores de cabeça.

Depois, naturalmente, estes mesmos pais, que são de esquerda e que procriaram filhos de esquerda tão irresponsáveis como eles, queixam-se de que a sua prole não encontra um emprego, e então querem que seja o Estado que lhe proporcione um, ou que o Estado obrigue as empresas privadas a fazê-lo, e, como isto não é possível, também se queixam enfaticamente quando a direita põe um pouco de ordem no mercado laboral e começa a gerar postos de trabalho. Como os dados não se podem refutar, o argumento da esquerda, essencialmente obsceno, é que este tipo de trabalho que cria a direita é precário, temporário, com salários baixos, sugerindo que é melhor que os filhos, ou quem quer que seja, estejam em casa em pijama vendo os infames programas de televisão que justificam o share das estações de televisão espanholas, mas obviamente recebendo o respetivo subsídio de desemprego.

Assim é o meu país, queridos amigos, o que criou a esquerda com a cumplicidade da direita; por isso, é muito difícil que o novo governo possa avançar na reforma laboral de que precisa a nação para continuar a impulsionar o crescimento e a criar emprego. O mercado de trabalho foi desde sempre, como a educação, um dos objetos tradicionais da apropriação indevida da esquerda por vários motivos, mas sobretudo pela sua relação incestuosa com os sindicatos e pelo rastro de desemprego recorrente que se produziu como consequências das suas leis implacáveis contra a flexibilidade das empresas.

Agora, nesta próxima legislatura, querem revogar a reforma laboral, liquidá-la, revertê-la. Querem revitalizar a negociação coletiva, que foi o maior embrião de desempregados do país, querem voltar a dar poder aos sindicatos, que felizmente tinham sido reconduzidos à posição que nunca deviam abandonar, que é a de ajudar no crescimento económico e do emprego - em vez de fazer política -, querem virar tudo ao contrário, subir os impostos às pessoas que prosperam, que têm êxito, que viram a luz ao fundo do túnel, e castigar as empresas, que são as que geram trabalho mas que são muito más. Tudo isto é o que querem fazer os que agora podemos dizer que são os bons socialistas, os que afastaram o demente Sánchez.

Pois bem, senhores, se tudo isto é ou pode ser como vos conto - espero que me deem o benefício da dúvida -, sendo evidente que temos um novo governo em Espanha mais de 300 dias depois, a grande pergunta é: há alguma possibilidade de que este governo em minoria, preso entre os demónios de um PSOE destruído e um partido como o Ciudadanos, que ainda não sabe o que quer ser quando crescer, possa implementar as reformas incontornáveis de que a nação precisa? Pode-se ser otimista nestas condições?

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