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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Reflexões sobre a revolução na América - José Miguel Sardica, RR, 02/11/16

Parafraseio, no título desta crónica, o famoso livro de Edmund Burke sobre a Revolução Francesa para deixar algumas notas sobre os Estados Unidos e a sua próxima eleição presidencial. Porque o que parece estar a passar-se nos EUA é uma revolução – no sistema político-partidário, nas relações entre o eleitorado e o poder, na consciência cívica, nos valores e comportamentos de milhões de americanos.

A uma semana da eleição para a Casa Branca, tudo indica que Hillary Clinton se tornará a 45.ª presidente dos EUA. Não será um bem maior, mas um mal menor. Sem dúvida que ter sido Secretária de Estado, senadora e primeira-dama, e de “respirar” política há três décadas a habilitam para o cargo. Mas a candidata democrata é mais do mesmo, de um “mesmo” que precisa de se repensar e que foi imposto pelo Partido Democrata às bases, como o fenómeno Bernie Sanders demonstrou. Quanto ao fenómeno Donald Trump, ainda terá de passar algum tempo para ser classificável pela ciência política.

Em rigor, o milionário machista, politicamente incorrecto e com tiques de antiliberalismo preocupantes, não foi o candidato do Partido Republicano, mas um independente indomável, que tomou o Partido de assalto, ajudado por bases cacofónicas que o impuseram às cúpulas mais institucionalistas da direita americana. Se o presidente fosse eleito por sufrágio universal directo, sem os longos, desgastantes e muito caros meses de primárias e de contagem de delegados às convenções, Trump talvez não tivesse sobrevivido a alguns dos 16 (!) candidatos republicanos que ficaram pelo caminho. Porque da mesma maneira que Hillary (mais os seus mails privado-públicos), não é John Kerry ou Al Gore, também Trump está muitos furos abaixo de Mitt Romney ou de John McCain.

O grande mistério das eleições de 2016 reside em perceber como é que a maior democracia do planeta, com partidos sólidos de mais de dois séculos e 300 milhões de cidadãos, apenas conseguiu produzir a parelha Clinton/Trump. É, de facto, desolador e muito empobrecedor.

A tese de que o “trumpismo” é a fronda dos excluídos da globalização agrada às esquerdas (sobretudo europeias) porque lhes permite justamente demonizar tal fenómeno. Mas isso é só uma pequena parte da história: por um lado, há muitos eleitores de Trump que estão bem na vida e outros, por outro lado, esses excluídos também militam e votam nos Democratas, como demonstrou Sanders, outro não-alinhado, com pergaminhos mais bolchevistas do que democráticos, mas de quem as novas esquerdas do protesto gostam muito (e se os eleitores de Sanders afinal votarem Trump e não Hillary…?). Não, o “trumpismo” é mais complexo, porque muito mais diversificado e desordenado.

Não é o simples ódio ao mexicano, ao chinês, ao muçulmano ou ao negro que o une. O vasto universo dos que se deixaram seduzir por Trump (ou pelos extremos que também vão aparecendo na Europa) é, mais vaga e ameaçadoramente, o basismo que se foi desligando da política democrática e ensimesmando num isolamento de vidas e de valores, destrutivo de raízes, de solidariedades e de comunidades.

Há assim uma revolução em curso na América – não a da reactualização dos “founding fathers” construtores da democracia, mas uma “revolução ao contrário”, uma contrarrevolução, dos que perderam, e por razões bem mais alargadas do que as da economia ou do emprego, a identificação com o sistema democrático, com as liberdades, com a cultura de diálogo e consensos que construíram, ao longo de mais de duzentos anos, a pátria americana.

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