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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Que Deus no guarde (e à América) - Jaime Nogueira Pinto, DN, 4/11/16

Como e porque é que Donald Trump, um outsider ao sistema político, um homem de negócios sui generis, uma figura do jet set ou do cafe society e do show business, conseguiu vencer a nomeação pelo partido de Abraham Lincoln, de Ted Roosevelt, de Dwight Eisenhower, de Richard Nixon, de Ronald Reagan e de George H. Bush?

O sistema de selecção das primárias dá vantagem aos militantes e aos activistas em relação aos simples eleitores e simpatizantes. O que, numa democracia partidária, é normal, mas às vezes tem consequências inesperadas; e no terreno da política-espectáculo, a radicalidade da mensagem acabou por favorecer Trump, que tinha o treino dos reality shows. Além disso, era um contra todos.

Os outros candidatos - o respeitabilíssimo cirurgião afro-americano Ben Carson, o jovem Marco Rubio, o experiente Jeb Bush ou até o fundamentalista Ted Cruz - eram mais do mesmo ou representavam, para o bem e para o mal - com excepção de Carson e Fiorino - o establishment republicano. Trump foi-os arrumando a todos com uma dialéctica agressiva e depreciativa, desde o "Little Marco" (Rubio) ao "Low Energy" Jeb (Bush). Os media foram-lhe dando gás, achando que Trump não chegava à nomeação ou que, se chegasse, seria fácil de bater pela candidata democrata. Os opositores republicanos, mais de uma dúzia, incapazes de se entender entre si, foram dividindo e atomizando apoios e Trump, sozinho, acabou por vencê-los.

AS CAUSAS

Conseguido o impossível, Trump pegou na agenda que ninguém queria pegar, em tudo semelhante à agenda anti-sistema que Bernie Sanders trazia aos Democratas - a agenda dos excluídos, da revolta contra as elites, contra os "liberais" e os "conservadores" crentes na omnisciência dos mercados, na globalização, no comércio livre, no internacionalismo e na correcção política.
O discurso optimista da globalização esqueceu as suas vítimas colaterais: as classes médias e baixas, os trabalhadores dos países ditos ricos ou desenvolvidos, dos Estados Unidos e da Europa. Só depois do brexit se começou a falar deles, como uma assustadiça massa de ignorantes, com medo dos imigrantes e do futuro. Eram "deploráveis", usando a expressão de Hillary Clinton, que é como quem diz, em bom ou mau português, "grunhos". Trump vai buscá-los e muitos são eleitores do Partido Democrata nos swing states.

Depois da nomeação, Trump fez um discurso bem estruturado que defendia uma política realista, baseada nos interesses nacionais americanos e nos equilíbrios entre potências, criticando o evangelismo ideológico servido pelo poder militar da política intervencionista. O candidato parecia então estar a entrar no mundo da respeitabilidade conservadora, negociando com um establishment republicano que o via com desconfiança e hostilidade. Para os libertários, para os isolacionistas e para os realistas, este discurso de Trump era música celestial. Só os neoconservadores permaneceram hostis.

Discutia-se se o melhor para a campanha era deixar o candidato actuar ou discipliná-lo. Uns diziam "Let Trump be Trump", outros diziam que era preciso domá-lo. Depois, os ataques ao senador McCain, a polémica com os pais de um oficial islamo-americano morto no Iraque, a ideia de proibir os muçulmanos de entrarem nos Estados Unidos e o célebre muro na fronteira do Rio Grande foram erros mais graves porque contrários ao espírito da nação americana.
A seguir veio o ataque ao ideário convencional do Partido Republicano - comércio livre, globalização, conservadorismo benevolente. Mas o sucesso nas primárias encorajava-o: atacara a política de segurança de George Bush, que dizia responsável pela desestabilização do Médio Oriente e ganhara.
 
A política externa trouxera--lhe a inimizade dos neocons e o tom simpático para Putin e as piadas sobre a WikiLeaks serviram para o acusar de cumplicidade com a Rússia.

O SOBE E DESCE E SOBE...

Mas com tudo isto e nos altos e baixos das sondagens, Trump andou mais ou menos colado a Hillary Clinton. Em Agosto e depois da Convenção Democrática foi descendo... para em Setembro recuperar. E foi-se mantendo a par, até ao famoso comentário sexista (digno de Dâmaso Salcede, que, nos Maias, descreve a sua técnica "de atracão"). Um comentário pouco próprio para um político respeitável e candidato à presidência dos Estados Unidos mas que se não estranha num milionário playboy e gabarola em conversa com um amigalhaço. Curiosamente, não são os propósitos sobre os muçulmanos ou os mexicanos e outras enormidades que o prejudicam: é a reprodução pública. A 6 de Outubro, de uma "conversa de balneário" ("man"s locker talk") tida há mais de uma década, uma conversa privada gravada escondidamente, que incendeia o escândalo contra o "sexista" e "machista" Donald Trump. É esta conversa que marca a reviravolta nas sondagens, levando Hillary e os Democratas a cantar vitória.

As trocas de insultos entre os candidatos, secundadas por uma batalha mediática (o establishment "liberal" contra a Fox News de Murdoch) criaram um clima de conflito nunca visto numa eleição norte-americana e, diga-se, muito pouco exemplar para o resto do mundo.
E na sexta-feira, 28 de Outubro, rebentou nova bomba, desta vez contra Clinton. O director do FBI decidiu retomar o inquérito aos famosos e-mails da secretária de Estado, encontrados no laptop de Anthony Weiner, o ex-marido de Huma Abedin, a mulher de confiança e colaboradora da candidata democrata. A investigação a Weiner tem que ver com um caso de sexting (assédio telefónico) a uma menor de 15 anos em que Weiner, já conhecido e prejudicado politicamente por histórias paralelas, está implicado.

E assim, nestes dias, o destino do mundo parece estar à mercê dos ditos ou bizarrias sexistas ou sexuais dos candidatos e dos seus próximos. Isto numa sociedade que continua a recorrer às várias correcções políticas - da puritana à libertária - para misturar o público com o privado. Quase que é de sentir saudades dos tempos do Watergate, quando os escândalos eram causados pela política e pelo poder e sua manipulação.

Que Deus guarde a América. E nos guarde a nós, que também dela dependemos um pouco.

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