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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Por que estou feliz com Trump - Miguel Angel Belloso, DN, 18/11/16


Na terça-feira 8 de novembro, o dia das eleições nos Estados Unidos, perguntaram-me numa emissora de rádio espanhola qual dos dois candidatos preferia que ganhasse. Respondi dizendo que nenhum dos dois, porque ambos pretendiam revogar os acordos de livre comércio assinados e ainda pendentes entre a América e o resto do mundo, e porque tinham uma visão protecionista da economia que só pode prejudicar a longo prazo todos os cidadãos. Mas como alguém tinha de vencer disse, sem grande alarido, que preferia que ganhasse Clinton. A razão que dei foi que a situação mundial não está propriamente ideal para fazer experiências e que, para todos os efeitos, a democrata não era melhor do que Trump, mas era mais previsível.

Mas como eu também sou previsível, disse que estaria igualmente satisfeito se o povo americano se decidisse por Trump, nem que fosse só pelo simples prazer de contemplar nos dias seguintes as caras de estupefação e os perdigotos que sairiam da boca de todos os progressistas do planeta. E assim continuo, sem parar de rir desde o sonoro acontecimento, assistindo ao espetáculo patético destes democratas de baixa qualidade, que no fundo são uns déspotas, uns totalitários e uma gente completamente dispensável.

Apesar de ter deixado expressa qual era a minha preferência, alegro-me muito com a vitória de Trump por vários motivos. Foi incontestável, foi contra todos os prognósticos e ocorreu após uma campanha maciça e suja na qual participaram quase todos os meios de comunicação do mundo. Não há comparação na história para a quantidade de insultos e de lixo despejados contra Trump, sobretudo, como não podia deixar de ser, na Europa. Podia até perdoar esta atitude fratricida: eu passo o dia a destruir a esquerda e a criticar o Podemos ou o Bloco de Esquerda em Portugal. Mas acho que consigo não adotar o tom de soberba e de superioridade moral com que a esquerda olha para um adversário que considera mais como um inimigo.

O que mais me incomoda, explico, não é a humilhação de Trump mas o desprezo impiedoso com que foram tratados aqueles que votaram nele e o puseram na presidência dos EUA. John Carlin, por exemplo, um jornalista britânico que costuma escrever coisas repugnantes no jornal El País - que é o líder de vendas em Espanha - contra todos aqueles que pensam de maneira diferente afirmava, antes do evento, que "para entender o fenómeno Trump é preciso recorrer à antropologia, ao estudo do animal humano na sua versão mais selvagem e primitiva". "Que o grotesco, o surreal, é que tantos milhões de habitantes do país mais próspero do planeta partilhem uma visão tribal; que não só Trump, mas os seus devotos, estão apenas um degrau acima da selva." Que o perigoso "é que umas massas descerebradas adorem tal espécie de personagem". Pois bem, este personagem ocupará a 20 de janeiro a Casa Branca e congratulo-me com este acontecimento só para contemplar a cara dos jornalistas e comentaristas que atacam diariamente, sem qualquer espécie de pudor, todos os compatriotas que não pensam da mesma maneira.

Ironicamente, estes mesmos jornalistas, que são basicamente azarados, fizeram o mesmo papel ridículo à conta do referendo da Colômbia. Como no caso dos Estados Unidos, o certo, em sua opinião, era votar sim, apoiar o mal chamado plano de paz. Mas o que aconteceu foi precisamente o contrário. Apesar de uma campanha maciça a favor do presidente Santos, paga em boa parte do mundo, incluindo em Espanha, pelo governo colombiano, apesar de um ambiente completamente hostil ao não, para o qual contribuíram, imprudentemente, a maior parte dos países do mundo, com Obama à cabeça, e logo o governo de Rajoy, os colombianos disseram não. Rejeitaram contra todos os prognósticos e, enfrentando enormes dificuldades, uns acordos que supunham uma claudicação do Estado de direito face ao maior cartel mundial de narcotráfico, que causou milhares de vítimas. Repudiaram o estabelecimento de amplas zonas do país com uma agricultura comunista, a concessão à guerrilha das FARC da representação parlamentar e o estabelecimento de um sinistro sistema de impunidade judicial. Isto é, decidiram votar contra o que lhes aconselhavam, sob pena de inferno, os apóstolos do pensamento único, do politicamente correto, os progressistas planetários globais, quer seja de esquerda ou de direita.

Na Actualidad Económica, o professor universitário Pablo Guerrero escreveu então que o inesperado resultado do plebiscito colombiano realçava, como aconteceu com o brexit, o abismo que na atualidade separa as elites políticas, económicas, culturais e jornalísticas do resto da comunidade. O mesmo aconteceu nas eleições dos Estados Unidos. Estas elites transnacionais já não se preocupam, infelizmente, em esconder o desdém que sentem pelas pessoas que veem como "ignorantes", "reacionárias" e "massas pérfidas", ao estilo de como as descreve Carlin. Mas não se dão conta de que são precisamente as elites, desligadas do comum dos cidadãos, as que ridicularizam e humilham despudoradamente o resto da sociedade, que reage, no Reino Unido, na Colômbia e nos Estados Unidos contra o exercício despótico do poder.

Seria injusto esquecer, no caso dos Estados Unidos, o principal responsável por as coisas terem chegado a este ponto, que não é outro senão o presidente Obama, outro dos protegidos pelo pensamento dominante. Um ídolo na Europa, Obama esteve oito anos no governo e deixou, como resultado, um país mais dividido do que nunca, com o conflito racial mais à flor da pele do que nunca - o que vindo de um negro é de notar -, com a política exterior mais desacreditada da história do país, e com uma sociedade que, apesar dos avanços em matéria económica e uma taxa de desemprego mínima, está mais desencantada e insatisfeita do que estava há muito tempo. Mas a América é grande, e demonstrou-o uma vez mais, sacudindo as ameaças e o temor que lhe inspiravam os cantos de sereia do establishment, decidindo entregar a presidência a Trump.

Tenho um amigo que vive há muito tempo em Nova Iorque, na Quinta Avenida, e que é um corretor que também preferia a Clinton, mas que um dia depois das eleições me escreveu esta mensagem: "Trump não será tão mau presidente como prevê a imprensa. A realidade é que é muito inteligente, que soube ler como ninguém a realidade da América, e que fez uma campanha tremendamente eficaz e barata. Não há nenhuma razão para pensar que deixará de ser inteligente a partir de agora. Fará o que é preciso para "voltar a tornar a América grande", até se isso significar fazer o contrário do que prometeu. Não tenho dúvida disso." Eu também espero que uma vez ungido com a responsabilidade do poder, Trump tenha o bom senso de quebrar com uma grande parte dos absurdos que defendeu durante a campanha. Que Deus lhe dê sorte.

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