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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O inesperado mensageiro - Jaime Nogueira Pinto, DN, 10/11/16

Acabaram-se as semanas de vício eleitoral, com a consulta matinal de sondagens e gráficos do Real Clear Politics e a leitura da carta five thirty-eight de Nate Silver e dos artigos de imprensa e de opinião debitados por progressistas e conservadores, militantes e académicos.\

Nesta recta final, o The Washington Post, o NY Times e a CNN, libertos já de camuflagens, exibiam descaradamente o seu roncante militantismo anti-Trump. A Fox News procurava equilibrá-los, atacando Clinton. A diferença é que a estação de Murdoch sempre foi assumidamente partidária e considerada como tal, enquanto os outros se davam e eram dados como isentos, dignos e objectivos.

Trump ganhou. A opinião pública europeia - desde os respeitabilíssimos órgãos do establishment internacionalista liberal até ao mais trotskista opinion maker - tinham apresentado o caso: o milionário excêntrico da poupa alaranjada (sexista, racista, ignorante, arrogante, falido) tinha arregimentado as hordas dos deploráveis de toda a América - red-necks, fanáticos religiosos, desempregados, brancos assustadiços - e tinha-os espicaçado no ataque ao progresso, à civilização, à globalização e aos mercados. Ia com certeza perder, tinha de perder. Os inimigos do processo evolutivo estavam desde sempre condenados a ser derrotados e atirados para o caixote do lixo da história.

Toda a Wall Street, todos os media responsáveis, alguns republicanos country-club, muitas das estrelas de Hollywood se juntaram atrás da "primeira mulher presidente" da América. Tinha a experiência política de primeira-dama do Arkansas e dos EUA, de senadora por Nova Iorque, de secretária de Estado de Obama. As confusões dos dinheiros públicos e privados da Fundação Clinton, as embrulhadas dos e-mails desaparecidos, as histórias há muitos anos mal contadas não interessavam muito. E os "levantados do chão" voltariam ao chão, de onde nunca deveriam ter saído.

Tudo o indicava: as sondagens, os gurus, os veneráveis políticos das esquerdas e das direitas, tudo o que era sólido statu quo.

Mas, como "tudo o que é sólido se dissolve no ar", a frase de Marx e Engels no Manifesto Comunista voltaria inesperadamente a ganhar vida através de um estranho arauto e de novos "levantados do chão". E aconteceu o 8 de novembro de 2016, uma eleição na data do 156.º aniversário da eleição de Abraham Lincoln para presidente dos Estados Unidos.

Trump ganhou e a sua vitória foi a derrota do establishment, às mãos de um seu filho pródigo e rebelde aliado aos marginais da periferia. Foi uma vitória contra o dinheiro (Hillary tinha Wall Street e mais do dobro da verba de Trump); contra os grandes media; contra as elites de todas as espécies; contra a correcção política; contra as sondagens e seus institutos, contra toda uma gama de comentadores, analistas, jornalistas, eminências, senhores, escribas e capatazes do sistema.

É preciso que o risco para a América e o Ocidente seja muito grande e a crise muito funda para que alguém com as características de Trump tenha alcançado, sozinho, tão grande vitória.

E não é só economia, são outras coisas: são as razões, as memórias, o som e a fúria de uma grande nação que encarnam nesta estranhíssima personagem arrancada ao real estate e ao reality show. Um moderno anti--herói americano descido da sua torre dourada para salvar a América.

São paradoxais os caminhos da sorte ou da Providência, mas não é a primeira vez que uma boa causa triunfa assim, e que Deus ou o Destino traçam os bons caminhos pelas linhas ambíguas ou mesmo declaradamente tortas de imprevisíveis mensageiros.

1 comentário:

  1. E se os dois piores candidatos numa mesma eleição nao foi um erro mas uma estratégia?
    E porque não DT ter sido o melhor candidato para derrotar o ascendente democrata?
    E porque não HC ser a melhor candidata de uma certa estratégia interna do PD, terminando o consulado do clan Clinton e consolidar o consulado do clan Obama, para lançar Michelle?
    Será que HC estava distraída?

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