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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Entre direitas - Jaime Nogueira Pinto, DN, 29/11/16

Habituados, em Portugal, a ter de escolher entre as várias esquerdas e os vários centros, não podemos deixar de olhar com alguma surpresa uma conjuntura política que torna possível, na próxima Primavera, um duelo entre Marine Le Pen e François Fillon, isto é, uma escolha entre duas direitas - uma nacionalista e outra nacional-conservadora.

Lembro a classificação de René Rémond, simplista mas útil como todas as boas classificações, das três direitas francesas: a legitimista, a bonapartista e a orleanista. A primeira é tradicional e conservadora, a segunda cesarista revolucionária, a terceira centrista liberal. Perante a crise e a decadência das esquerdas em França - representadas pelo pitoresco Hollande, pelo Partido Comunista que perdeu o operariado para o Front National e pelo cocktail frenético das várias famílias trotskistas e bloquistas -, as alternativas são à direita e de direita. Mas a direita em França, porque é forte, tem vários rostos: um deles é o da direita nacional e radical, com Marine le Pen.

Marine meteu na gaveta o saudosismo, o antigaullismo e as posições conservadoras nas questões fracturantes do pai e mudou a substância e o conteúdo do FN. Abriu ao laicismo republicano mas manteve o nacionalismo, o proteccionismo, a preferência nacional e a mobilização contra o fundamentalismo islâmico. Marine tem um discurso popular e populista, conquistou milhões de votos à esquerda e o seu FN é o primeiro partido de França, em eleitores e deputados no Parlamento Europeu, embora não tenha nenhum deputado no parlamento francês.

Passará, com certeza, à segunda volta. E se passar com alguém de esquerda, é mesmo capaz de ser outra má notícia para a União Europeia depois do brexit e de Trump, pois fará um referendo cujo resultado não deixa muitas dúvidas.

Das primárias saiu da direita o candidato que fará frente a Marine le Pen na segunda volta das presidenciais em maio de 2017. A ideia das primárias pretendeu dar uma maior democraticidade à escolha, retirando-a dos "Grandes" - os estados-maiores partidários e os notáveis. Venceu-as François Fillon, o mais direitista dos concorrentes.

Fillon é católico praticante e conservador em matéria de família e costumes, ordem e lei. Mas é também pela desestatização da economia, defende um menor peso do Estado e a redução do número de funcionários públicos. Em política externa é um eurocéptico moderado, partidário da Europa das Nações e defensor de uma aproximação realista à Rússia de Putin.

Ao aproximar-se em muita coisa de Marine le Pen - sobretudo no eurocepticismo, na preferência nacional, nas questões securitárias e na política russa -, Fillon é o mais indicado para a defrontar e vencer, já que, segundo as sondagens (barómetro que já não podemos deixar de olhar com algum descrédito), Marine le Pen e Fillon são os candidatos que deverão passar à segunda volta. A não ser que a esquerda se una e encontre um candidato comum, geringonça que não parece fácil.

Não direi que me admiro, mas percebo o espanto da maioria dos donos dos media e do sistema e dos muitos a quem eles fazem a cabeça. Depois do brexit, depois de Trump, a vitória de Fillon e a perspectiva da eleição presidencial na próxima Primavera não devia surpreender ninguém. Há, de facto, um novo paradigma político-cultural no mundo euro-americano. As classes médias, fartas da tutela intelectual esquerdista e da tutela política centrista, revoltaram-se. Depois da opção inglesa, antieurocêntrica, e de um tycoon anti--sistema na Casa Branca, a França, mais cautelosa, prepara-se para escolher entre uma nacionalista revolucionária e popular e um nacionalista conservador.

Para um francês de direita é capaz de ser um dilema. Mas sempre é melhor do que ter de escolher entre as esquerdas e o centro.

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