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quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A política externa de Trump - O teste asiático - Jaime Nogueira Pinto, DN, 23/11/16

No décor ostensivamente dourado da Trump Tower, o presidente eleito Donald Trump recebeu o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe. Trump estava acompanhado pelo tenente-general na Reserva, Mike Flynn, antigo diretor da DIA (Defense Intelligence Agency), e pela filha Ivanka. Flynn é o novo conselheiro nacional de Segurança e faz parte, com Reince Priebus, chefe da Casa Civil, e o conselheiro estratégico Steve Bannon, da pequena lista de nomeações até agora confirmadas pela Transition Team.

A conversa com Shinzo Abe durou cerca de 90 minutos. Abe é um líder forte e pode bem ficar até 2021 à frente da terceira economia mundial. Com ele, Tóquio assumiu uma linha de liderança regional e elevou os gastos com a Defesa para 50 mil milhões de dólares. O Japão está longe de ser o "país desarmado" do pós-Segunda Guerra. É, em despesas militares, a sexta potência mundial (depois dos Estados Unidos, da China, do Reino Unido, da Rússia e de França) e tem uma Marinha de Guerra com 130 navios. O valor corrente do comércio Japão-EUA passa os 300 mil milhões de dólares e o Japão é o segundo investidor nos Estados Unidos, depois da Grã-Bretanha: em 2015, investiu 370 mil milhões nos EUA e 700 mil trabalhadores norte-americanos trabalham ali em empresas japonesas. Apesar de tudo isto, os analistas japoneses não foram mais sagazes do que os seus colegas americanos e europeus e deram Hillary como vencedora antes do tempo. Abe não se perturbou e a 9 de novembro foi dos primeiros líderes mundiais a felicitar Trump e a garantir um encontro com o presidente eleito.

Fazia todo o sentido que o fizesse: Obama não gostou da aproximação de Abe a Putin e as relações nipo-americanas tinham já esfriado desde a saída do governo do primeiro-ministro Junichiro Koizumi, um fã de Gary Cooper e de Elvis Presley, que criara uma forte relação pessoal com Georges W. Bush.

Abe, entretanto, não só se aproximou de Putin mas também de um outro "homem forte" do momento - Recep Erdogan, da Turquia.

A relação com a Ásia-Pacífico vai ser uma área crítica para a nova administração. Trump tranquilizou Abe e a presidente sul-coreana quanto a algumas afirmações feitas na campanha eleitoral, aconselhando-os a ocuparem-se mais dos seus instrumentos próprios de defesa. Isto foi interpretado como um abandono das garantias do aliado americano num momento em que sobem tensões com a República Popular da China.

O que Trump esclareceu com os sul--coreanos foi que, com o dobro da população da Coreia do Norte e um PNB infinitamente superior, Seul não precisava de depender das tropas americanas estacionadas na península para se defender. Mas já terá tranquilizado também a presidente sul-coreana quanto ao alcance real destas considerações.

Quanto a Pequim, a nova administração tem de negociar, equilibrando a "liberdade de comércio", sentida com preocupação por parte dos trabalhadores americanos que votaram em Trump e lhe deram a vitória no Rust Belt, e uma guerra comercial entre as duas maiores economias do globo que pode sair ainda mais cara a todos, incluindo aos próprios trabalhadores americanos.

Os dirigentes chineses são nacionalistas realistas e talvez se sintam mais à vontade para discutir com uma administração que, ideologicamente, se aproxima dos seus princípios. Mas há que ver - e esse é o grande problema também com a Rússia de Putin - que, por vezes, os interesses nacionais, mesmo realisticamente afirmados e defendidos, podem acabar por chocar-se. E na Ásia estão as maiores potências mundiais depois dos EUA - China, Japão, Índia, e, de outro modo - continental -, a própria Rússia de Putin, com quem o novo presidente tem alardeado afinidades eletivas.

O candidato Trump disse muita coisa ao sabor da campanha e para conquistar um eleitorado órfão e carente. Agora, para governar, vai ter de equilibrar essas afirmações com uma realidade geopolítica a que nada nem ninguém escapa.

E, como disse Henry Kissinger a Fareed Zakaria, Trump é "único", já que chegou ao poder sem bagagem ideológica, sem obrigações ou compromissos com grupo algum e deve a sua vitória sobretudo a si mesmo e à sua estratégia. No entanto, o velho guru não deixou de acrescentar que não devia insistir-se em "amarrar Trump às posições que tomou na campanha". Para Kissinger, que falou com Trump a convite do próprio, não se deve "prender o novo presidente ao dilema agudo de seguir à letra as declarações de campanha e entrar em choque com princípios fundamentais da grande estratégia norte-americana ou de as abandonar e aparecer aos seus eleitores como um político como os outros"...

Os princípios são diferentes, deram-lhe a vitória, mas a sua aplicação tem de ter em conta as realidades do tempo e do espaço. É o que se espera de um realista.

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