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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A luta continua pela Linha de Cascais - Carlos Carreiras, i, 16/11/16

Quando chegarmos ao final de 2016, é muito provável que o número de veículos na A5 seja igual ou até maior do que o número de passageiros nas carruagens da CP na Linha de Cascais.

Todos os dias, 65 mil veículos fazem-se aos 25 km de tapete de alcatrão da mais antiga e mais movimentada autoestrada nacional. É o dobro do tráfego da A1, que liga Lisboa ao Porto. Contas feitas, circulam na A5 23,7 milhões de veículos por ano. Estes números comparam com os 23,8 milhões de passageiros que a CP contabilizou na Linha de Cascais o ano passado.

Tomando como boa a teoria de que os cidadãos fazem escolhas económicas racionais, a preferência pela autoestrada (conhecida pelo seu trânsito intenso, especialmente a hora de ponta) e pelo automóvel (com a gasolina a preços elevados) contra o comboio é bem reveladora da perda de competitividade da Linha de Cascais – que, recorde-se, em 1995 tinha 45 milhões de passageiros.
O que estes números nos sugerem é que, ao longo dos anos, o comboio deixou de servir as necessidades dos cidadãos no eixo Cascais-Oeiras-Lisboa. E sabemos porque é que isso aconteceu. A oferta insuficiente de comboios, a degradação consistente da linha e do material circulante, a relação desproporcionada entre o preço e a qualidade do serviço e as periclitantes condições de segurança configuram um processo de rutura. Os utilizadores afastam-se do comboio. Foi assim que chegámos a este ponto de desperdício económico (a esmagadora maioria dos carros circulam na A5 com um único passageiro), de insustentabilidade ambiental (sim, o automóvel polui muito mais do que o comboio) e de irracionalidade metropolitana (é lamentável que no tempo da quarta revolução industrial, três dos municípios mais prósperos e populosos do país tenham uma linha de caminho-de-ferro da segunda revolução industrial).

Desde 2011, primeiro com o governo Sócrates, depois com o governo Pedro Passos Coelho e, depois, com o governo Costa, que tenho chamado a atenção para a bomba-relógio em que se transformou a Linha de Cascais. Já não é possível adiar mais os investimentos. Precisamos de soluções. E a mim, como autarca eleito pelo PSD, qualquer solução pública ou privada ou mista me serve. Tem é de ser uma solução que garanta o conforto e segurança dos passageiros e a competitividade regional.

A Linha de Cascais é um problema de muitos governos ao longo dos anos. Todos os executivos convergiram na necessidade de investimento. Mas nenhum foi capaz de o concretizar. O anterior governo foi, apesar de tudo, o que esteve mais próximo disso. Estavam previstos 259 milhões de euros de investimento na ferrovia: 135 milhões provenientes do Orçamento do Estado e fundos europeus para a requalificação da infraestrutura; 124 milhões de privados para renovar o material circulante. Havia até um acordo entre os três autarcas para validar esta solução, que só não avançou dada a proximidade de eleições legislativas. Só que, entretanto, toma posse o governo de António Costa. O plano que tinha sido alinhavado consensualmente é desmantelado por preconceito ideológico. “Privados na Linha de Cascais, nem pensar”, vociferam BE e PCP. A verba orçamentada para a requalificação da ferrovia evapora-se. Sabemos depois que é desviada para a Carris e para a STCP, compondo as contas extravagantes das reversões exigidas pela esquerda radical que apoia o governo. Os utilizadores da Linha de Cascais ficaram a saber que, por vontade do PCP e do BE, com a conivência do PS, não têm direito a transporte público. Suprema hipocrisia do PCP: os privados nos transportes públicos são excomungados na Margem Norte, mas tolerados nos concelhos comunistas da Margem Sul.

Ao mesmo tempo que matou o plano do anterior governo, o ministro do Planeamento, Pedro Marques, perdeu toda a liderança do processo: não tem alternativa, não tem força dentro do governo e está refém da tralha ideológica da esquerda radical. Com Pedro Marques teremos um TGV de demagogia, mas nenhuma solução credível.

Se há primeiro-ministro que tem o dever de conhecer bem os problemas da Linha de Cascais é António Costa. Partilhámos muitos dos riscos e problemas da ferrovia no tempo em que era presidente da Câmara de Lisboa. É por isso que o primeiro-ministro só tem uma de duas opções: ou nos diz, de uma vez por todas, que a Linha de Cascais não é prioridade para o seu governo e que não há dinheiro para ela; ou se dispõe a encontrar uma solução de mobilidade para os milhões de passageiros que a utilizam.

António Costa sabe que conta com os três autarcas do eixo Cascais-Oeiras-Lisboa para uma discussão séria. A segurança das pessoas, a competitividade da economia portuguesa num dos seus eixos mais relevantes e a defesa da sustentabilidade ambiental exigem essa coordenação de vontades. Estes são os factos. Nada fazer é deixar que a futilidade ideológica triunfe sobre as necessidades reais das pessoas.

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