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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Recordando Winston Churchill em Washington - João Carlos Espada, Observador, 31/10/16


“Perante a actual campanha presidencial, não seria altura de os americanos se converterem à monarquia constitucional que Winston Churchill sempre defendeu?” Esta pergunta foi recebida por uma gargalhada geral na 33ª Conferência Internacional Winston Churchill que teve lugar em Washington, D.C., no Hotel Mayflower, no final da semana passada. Uma gargalhada ainda mais retumbante saudou a surpreendente resposta do orador britânico, Sir David Cannadine: “receio que essa seja uma boa pergunta a ser colocada aos eleitores americanos”.

Este episódio exprime dramaticamente a atmosfera que encontrei em Washington na semana passada, quer entre Republicanos quer entre Democratas — ainda que todos eles fossem civilizados admiradores de Winston Churchill. “Estamos embaraçados com esta campanha presidencial e preferimos não ter de falar sobre os candidatos” — esta foi a comum resposta que ouvi de Republicanos e Democratas. Alguns, mas claramente não todos, acrescentavam: “apesar de tudo, votarei com o meu Partido”.

Absolutamente todos com quem falei, no entanto, quiseram enfaticamente acrescentar: “obviamente, aceitarei o candidato que sair vencedor” — uma óbvia referência condenatória da inacreditável saída terceiro-mundista do sr. Trump acerca da possiblidade de não aceitar a sua própria derrota.
Deve ser de novo sublinhado que todos os Republicanos e Democratas com quem falei, e têm sido muitos, eram participantes na Conferência Churchill acima referida. E todos pareciam aliviados por poderem escapar durante alguns dias para uma discussão civilizada sobre temas civilizados. O tema central era obviamente Winston Churchill, “half American and all British”, como foi frequentemente definido.

O que foi recordado sobre Winston Churchill não podia estar em maior contraste com a deplorável atmosfera intelectual e política que estamos a viver no Ocidente.
Churchill defendeu a democracia representativa parlamentar e nunca se lembrou de atacar a classe política ou os partidos políticos como um todo — um tique primitivo que na verdade sempre distinguiu as ditaduras dos países subdesenvolvidos.

Tendo sempre defendido a soberania do Parlamento, Churchill também sempre entendeu essa soberania no âmbito de um sistema de freios e contrapesos. O Parlamento britânico na verdade inclui duas Câmaras (uma delas não eleita). E articula-se com um Chefe de Estado não eleito que tem o dever de garantir as ancestrais regras de “fair-play”.




Finalmente, Churchill era um defensor das identidades e das soberanias nacionais e, ao mesmo tempo, do comércio livre e do institucionalismo multilateral. Isso mesmo foi brilhantemente recordado por James Baker III, no jantar de gala da Conferência Churchill na passada sexta-feira, no salão George Washington do Departamento de Estado.

Tendo servido três Presidentes americanos — Gerald Ford, Ronald Reagan e George Bush — James Baker sobretudo acompanhou o incrível período de consagração mundial da democracia ocidental após a queda do Muro de Berlim em 1989. E lembrou alguns dos pilares da democracia ocidental que os países saídos da Cortina de Ferro souberam abraçar.

Um desses princípios é que, em termos constitucionais, não há vários regimes à escolha. Há basicamente dois: a sociedade aberta ou a sociedade fechada, para usar as expressões de Karl Popper. Por outras palavras, a escolha é entre a democracia constitucional pluralista e a ditadura.

Uma das cruciais distinções entre democracia constitucional pluralista e ditadura é que na primeira coexistem e concorrem livremente entre si diferentes correntes políticas e filosóficas — diferentes e muitas vezes rivais. É nas ditaduras que existe uma e apenas uma corrente ou opinião autorizada, que é a oficial, a única boa, íntegra, autêntica e digna de respeito. Todas as outras são tratadas como inimigas, indignas, merecedoras apenas de desprezo e perseguição.

Só em democracia, por outras palavras, é que correntes rivais conseguem ao mesmo tempo discordar entre si e respeitar-se mutuamente. Daqui decorre que, em democracia, as diferentes correntes políticas podem discordar em tudo, menos numa coisa: o respeito pelas regras do jogo constitucional que garante a sua liberdade de existir e de discordar em tudo o resto.

As regras do jogo constitucional assentam por sua vez em regras não escritas que os pais tendem a ensinar aos filhos, mesmo nos dias que correm de vulgaridade triunfante. Era costume chamar a essas regras “cortesia”, “fair-play”, “honestidade”, “jogo limpo”, “cavalheirismo”. Foram essas regras que permitiram a Winston Churchill aceitar a derrota eleitoral de Julho de 1945, após ter vencido a guerra em Maio do mesmo ano. Seria útil recordar hoje as velhas regras de cavalheirismo a muitos coléricos pseudo-políticos que atacam as nossas instituições e tradições democráticas.


Bernardino Gomes foi um cavalheiro da política portuguesa e euro-atlântica. Fundador do Partido Socialista em 1973, na Alemanha, foi sempre um defensor da democracia constitucional pluralista. Com Mário Soares e Maria Barroso, bem como com sua mulher Maria Renée, defendeu sempre a aliança com a grande democracia americana e recusou os radicalismos terceiro-mundistas de alguns socialistas. Foi também membro fundador da revista Nova Cidadania, em 1998. O seu exemplo e a sua memória perdurarão entre todos os democratas.

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