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terça-feira, 25 de outubro de 2016

Guerra Cívil da Síria: a Vergonha (ou falta dela) do Ocidente




O nosso tempo não suporta ideias complexas. Não suporta factos que obriguem a um juízo. Tudo tem que caber num post no Facebook ou num tweet. Não há espaço para a razão, apenas para a sensação. Por isso, neste admirável mundo novo, a realidade divide-se em bons e maus.

O problema é que a realidade tem tendência para ser mais complicada do que isso. Raramente existem bons e maus. Por isso é necessário que olhemos para a realidade na sua totalidade. Não ficarmos pelas nossas categorias mentais pré-estabelecidas, tentar chegar ao fundo das coisas.

Um exemplo claro, onde a divisão entre maus e bons é inútil, é a guerra civil na Síria. Neste caso não há bons, mas sim maus em vários graus e, sobretudo, centenas de milhares de vítimas mortais inocentes.

A Síria era uma país estável, governado há mais cinquenta anos pela família Assad. Era um país laico, onde as minorias religiosas não eram perseguidas, onde as mulheres tinham direitos, onde existiam universidades frequentadas pelos dois sexos. Ou seja, tudo raridades naquela zona do mundo.

Porém, convém não esquecermos que a Síria era governada por um ditador. Bashar al-Assad pode não ser o mais sanguinário dos ditadores, mas não deixava de governar o seu país com mão de ferro. O seu partido era o único, ele era o único candidato às eleições, a corrupção era generalizada, a liberdade política inexistente e a Constituição estava suspensa há cinquenta anos. Quando começaram os primeiros protestos contra o governo, no contexto da Primavera Árabe, a resposta do governo foi brutal e chocante.

Infelizmente, os opositores de Bashar al-Assad não procuram estabelecer uma democracia. Tirando uma pequena minoria de democratas, a maior parte dos rebeldes desejam uma república islâmica, à imagem do Irão ou da Afeganistão dos taliban. E não estou a falar do Estado Islâmico, mas dos vários grupos que habitualmente são descritos pelos media como "rebeldes" e que lutam contra o regime, quando não estão a lutar entre si.

É preciso não esquecer que boa parte destes "rebeldes" estavam associados ao Estado Islâmico no principio do conflito. E a sua separação não se deveu propriamente a divergência ideológicas, mas antes a divergências sobre a partilha do poder!

O derrube de Assad não traria a paz nem a democracia à Síria. Apenas traria mais guerra e, no fim, provavelmente, um regime que, na melhor das hipóteses, seria tão mau como o actual e que na pior (e mais provável) das hipóteses seria muito pior que o actual.

E estes facto não são nem secretos, nem novos. Desde o principio do conflito que é evidente que a oposição democrática a Assad não tem força para ganhar a guerra. Que a luta é de facto entre o governo e milícias islâmicas. A alternativa não é por isso entre ditadura e democracia, mas entre uma ditadura laica e uma ditadura de extremistas muçulmanos.

Infelizmente o Ocidente tem fingido não reparar neste factos. Continua a armar os rebeldes, como faz desde o principio do conflito. Aliás, provavelmente, sem o apoio da América e da Europa, já há muito que os rebeldes teriam sido esmagados. E a pergunta é, porquê? Porque é que o Ocidente se opõem com tanta força a Assad?

Não é seguramente por ele ser anti-ocidente, porque não é. Nem por ser um ditador, uma vez que o regime Sírio é bastante mais liberal do que o regime Saudita, aliado do Estados Unidos, e não muito diferente do novo regime egípcio, com quem a América parece não ter problemas. Também não será por acreditarem na viabilidade da oposição síria para trazer paz à região, uma vez que já verificaram o que aconteceu na Líbia. Então porque razão insiste tanto a América, e o resto do Ocidente por arrasto, em derrubar Assad?

A resposta é simples, mas triste: para atacar a Rússia. Nada mais justifica esta insistência cega em apoiar extremistas islâmicos contra um regime laico. O "azar" de Assad, e por isso o "azar" da Síria, é ser um aliado de Putin. Porque para Obama, e também para Clinton, o grande adversário não é o Estado Islâmico, nem o extremismo islâmico, mas Putin.

Para o atacar, os Estado Unidos não hesitam em aliar-se à Turquia, à Arábia Saudita e aos pequenos estado árabes (principais financiadores do terrorismo internacional), no patrocínio a grupos de extremistas islâmicos. Sem um único momento de arrependimento, montaram uma campanha internacional contra o regime Sírio, de repente transformado num monstro comparável ao nazismo

E o resultado desta luta contra Putin é centenas de milhares de mortos, milhões refugiados e um país destruído. Se tantas vezes nas últimas décadas o Ocidente foi responsável por assistir impávido ao martírio de povos inteiros, neste caso é responsável por patrocinar esse martírio.

Foi o patrocínio do Ocidente que permitiu o enfraquecimento do regime Sírio a tal ponto que boa parte do seu território acabou tomado pelo Estado Islâmico. Foi o patrocínio do Ocidente que permitiu as perseguições religiosas levadas a cabo não apenas pelo EI, mas também pelos ditos "rebeldes". Foi o patrocínio do Ocidente que permitiu que esta guerra se arrastasse durante cinco anos, até que de um país outrora pacífico sobrassem apenas destroços. Tudo isto, não para estabelecer um regime mais justo, mas apenas para enfraquecer um adversário no jogo geo-político.

Os milhões de vítimas da guerra síria deviam fazer corar de vergonha o Ocidente. Este Ocidente, que se acha tão moralmente superior, mas que está disposto a sacrificar milhões de seres humanos como dano colateral na sua nova guerra fria contra a Rússia.

1 comentário:

  1. Convenhamos:

    Ocidente dominado pelos globalistas e não o Ocidente clássico.

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