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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Era uma vez... Em Lisboa - José Miguel Sardica, Rádio Renascença, 19/10/16


Era uma vez uma avenida em Lisboa. Uma das chamadas “Avenidas Novas”. Por uma manhã de Julho, apareceu uma equipa camarária, que vinha consertar uma caixa de esgoto. Levantaram o alcatrão da faixa de estacionamento, escavaram e fizeram a obra. No fim, repuseram a terra (na verdade, areia, pequenas pedras e gravilha), rodearam a área de intervenção de grades metálicas e fitas plásticas e foram embora.

Passou o resto de Julho, Agosto, Setembro e está a passar Outubro. O quarteirão ficou sem dois lugares de estacionamento e com uma cratera, que se vai desbastando com as trepidações dos carros, os ventos e agora a chuva.

Três meses! Há três meses que a obra assim está, jazendo ao abandono. Uns metros acima desta “instalação” urbana fica uma bela rotunda, construída recentemente sobre um parque subterrâneo. Foi tão bem feita (depois de seis meses de obra interrompida e de buracão a céu aberto…), que o piso já abateu. Uns metros mais abaixo, as faixas de circulação são uma manta de retalhos de buracos, sulcos e desníveis. Isto passa-se na vizinhança muito próxima da bela e nobre Avenida da República e da Praça do Saldanha, onde se coagulam automóveis, se abatem árvores e se enchem os peões de pó com o vago fito de dotar a bela avenida e praça de mais passeios, ciclovias e separadores de relva.

Não conheço Fernando Medina, o autarca de Lisboa. Sei que se senta na Praça do Município sem ter sido eleito (não é ilegalidade, mas convidaria à prudência…). Exibe por norma um sorriso deslumbrado e irritantemente optimista, indiciador de algum sonho de grandeza ou pulsão megalómana. Dir-se-ia que se acha um marquês de Pombal, um Ressano Garcia e um Duarte Pacheco, tudo na mesma “iluminada” pessoa.

Homem do norte, desceu sobre a capital para dar aos lisboetas uma felicidade que, aprisionados ainda na Caverna de Platão, são incapazes de imaginar. Segundo ele, o autarca só existe se se mexe e se faz obra. Mas não qualquer obra, porque a fama só vem redesenhando Lisboa inteira. Fernando Medina parece não saber o que é política de proximidade, atenção ao pormenor, obras de conservação do que realmente precisa de ser conservado. E parece esquecer, ele e a Câmara, que existe para servir os lisboetas e não para lhes transtornar a vida.

Quer à viva força “libertar-nos”, e fazer-nos ver a beleza etérea num esquálido canteiro de relva, em ciclovias que poucos usam ou em largos passeios – tudo novidades destinadas a limitar o uso do automóvel, esse péssimo instrumento do consumismo individual, numa cidade onde a rede pública de transportes vai a caminho da indigência (sobretudo no metropolitano). Ora, ter e circular num automóvel não é um favor que os políticos concedem aos cidadãos. É um direito, enquadrado pelo Código da Estrada e aliás bastante taxado pelo Estado e pelas câmaras, via ISV, IVA, IUC, EMEL, seguros, combustíveis e sabe-se lá mais o quê. 

Voltemos àquele pedaço daquela avenida em Lisboa…. Será que o autarca Medina poderia prover, por favor, à sua reparação? Nos intervalos dos planos para liquidar o automóvel na cidade, e para a todos obrigar a serem felizes com a nova Lisboa (queiram ou não), haverá alguma vontade, uma maquineta e um bocado de alcatrão disponíveis para terminar a obra aberta nos idos de Julho? Os munícipes – proprietários que pagam impostos e, alguns, IMI’s milionários (sem serem ricos) – agradecem. E quanto a este munícipe, só votará no candidato a Lisboa que prometer não fazer obras (e terminar depressa as iniciadas), senão as estritamente necessárias, de reparação ou conservação, mostrando assim respeitar os lisboetas e a cidade.

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