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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Colômbia: golpe baixo ao progressismo mundial - Miguel Ángel Belloso, DN, 14/10/16

É uma grande satisfação ver todos os progressistas do mundo chateados, perplexos e iracundos quando o exercício da democracia não dá o resultado que esperavam dela. Nunca vale a pena quando perdem. Foi assim que aconteceu com o referendo celebrado na Colômbia sobre o acordo assinado entre o governo e a guerrilha narcoterrorista das FARC, cuja aprovação contava com o patrocínio de quase todos os líderes do planeta, todos com a sua formosa guayabera tentando influenciar descaradamente a votação a favor de uma das partes.

Pois nem assim foi possível! Nem com o maior exercício de propaganda alguma vez visto, nem com todos os homens bons ali reunidos supostamente a favor da paz e os jornalistas pagos desfrutando de mojitos em Bogotá ou em Cartagena, ou dos cohibas em Havana, nem com todas as trapalhadas imagináveis para destruir os partidários do "não". Nem com Obama atrás, mesmo sendo honrado, que importância têm os EUA de Obama em qualquer disputa internacional?

Ganhou o "não". Como foi possível, perguntam uns aos outros. É porque as pessoas ficaram loucas! Os progressistas de todo o mundo estão consternados. Não entendem porque ninguém lhes liga, como as pessoas normais resistem ao seu exercício obsceno de despotismo ilustrado. O jornal El País, que continua a ser o mais importante de Espanha, e que obtém bons patrocínios do governo colombiano de Santos a troco de dourar a pílula, também não podia dar crédito. No passado dia 3 de outubro titulava toda a página: "Colômbia aproxima-se do abismo ao recusar o acordo de paz." Quem dava a notícia, o jornalista Javier Lafuente, escrevia esta primeira linha: "Colômbia escolhia ontem entre saltar para o vazio ou converter-se num exemplo para o planeta. Ganhou a primeira opção." Há que ser muito descarado ou ter um discernimento muito toldado para dizer que o "sim" teria sido um exemplo para o planeta, humilhando os 50,2% de colombianos que votaram no "não".

O conflito armado na Colômbia tem 50 anos. Deixou atrás de si oito milhões de vítimas, muitas delas massacradas em condições que têm pouco que ver com a guerra, que já é injusta, mas com a patologia mental, a degradação moral e a falta de misericórdia dos narcoterroristas colombianos. Em Espanha, os danos causados pela ETA foram colossais, apesar de menores em termos quantitativos do que na Colômbia. Mas também os progressistas, impulsionados com determinação pelo presidente socialista Zapatero, com a ajuda venal de muitos meios de comunicação, defendiam que talvez fosse preciso baixar as calças em prol do fim do conflito. Queriam pagar o preço que fosse preciso, ter a paz a qualquer custo à espera de perpetuar-se no poder. No fim, isso não aconteceu, porque entre 1996 e 2004, Espanha foi dirigida por José María Aznar, que tinha sofrido um atentado destinado a acabar com a sua vida quando era líder da oposição e tinha traçado o caminho da dignidade: nunca se renderia face aos terroristas. A sociedade espanhola tinha votado, caso lhe tivesse sido proposto, como fez a colombiana. Porque simplesmente não há pretexto que justifique a violência numa democracia.

Na Actualidad Económica, a revista que dirijo, estamos eufóricos com o resultado do referendo na Colômbia. Acreditamos que se impôs um princípio irrenunciável, que a paz não se pode conseguir a qualquer preço. Com todos os ventos contra, a maioria dos próprios colombianos decidiu assim. Mais de metade decidiu que a honra, que a dignidade, que a necessidade de poder dormir todos os dias com a consciência tranquila são valores que devem ocupar um lugar hierárquico prioritário no código de comportamento humano. Mas não porque não desejem a paz, porque são uns malvados ou por falta de generosidade, mas porque acreditam na justiça e que os maus, os genuinamente maus, devem pagar pelos seus crimes.

Há quase dois meses que a Actualidad Económica publicou um editorial sobre o processo de paz na Colômbia que acabou por ser providencial. Dizíamos que o acordo assinado entre o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, e a guerrilha das FARC tinha um nobre propósito, mas consequências imprevisíveis, dado o custo da transação com os terroristas. O principal era a divisão semeada entre os democratas, muitos dos quais pensam que a paz nem sempre compensa se o custo é demasiado alto. Também apontávamos que o fortalecimento do Estado de direito deu um salto qualitativo durante a presidência de Andrés Pastrana, partidário do "não" e artífice junto com Bill Clinton do Plano Colômbia contra o narcotráfico. Que Álvaro Uribe pegou nesse acordo com mão firme e conseguiu cercar militarmente as FARC, chegando ao extremo de conseguir que três em cada quatro terroristas se tivessem desmobilizado no final da sua presidência, de forma que um país aterrorizado pelo crime se converteu num dos mais prósperos, pujantes e avançados da América Latina.

Também assinalávamos que, quando Juan Manuel Santos foi eleito presidente, entre outras coisas pelo seu sucesso à frente do Ministério da Defesa de Uribe, os democratas estavam unidos e as FARC debilitadas, mas que Santos decidiu apostar num arriscado processo de negociação que permitisse uma saída definitiva a quem tanto mal causou desde 1964, e que o acordo que finalmente assinou incluía concessões intoleráveis como o estabelecimento de 14 milhões de hectares em zonas rurais sob o controlo das FARC; a possibilidade de a organização terrorista se apresentar às eleições; a abertura de um diálogo sobre o futuro das produções de coca; e a criação de uma Comissão da Verdade com a missão principal de reconhecer como vítimas do "conflito" não só os civis falecidos, mas também os membros dos diferentes grupo mortos em combate com as forças de segurança. A presidência também se dava novas atribuições como a de nomear, junto com as FARC, os magistrados do novo esquema de justiça transitório. Uma justiça questionada na sua independência, e que ficaria acima da justiça ordinária. E o que era mais grave, que estabelecia uma espécie de equidistância entre os terroristas e as forças de segurança.

Como finalmente aconteceu, também antecipámos as consequências imediatas do acordo: "Se há uns meses a fratura se produzia entre democratas e terroristas, hoje são os democratas que se encontram divididos entre si. Há uma brecha profunda entre os partidários do presidente Santos e os do ex-presidente Uribe; entre os que creem que a paz justifica qualquer acordo e os que consideram prioritário aplicar a justiça para compensar a memória e os direitos das vítimas." Escrevemos o editorial da Actualidad Económica no número de agosto da revista. Não prognosticávamos nenhum resultado no eventual referendo. Só os riscos evidentes em que se incorria, e que foram perfeitamente interiorizados, digeridos e vomitados com um "não" pela maioria do povo colombiano, para desgraça dos progressistas e dos "bonzinhos" de todo o mundo, que nunca param de tentar promover a fraternidade universal mesmo que seja sobre um terreno alagado de sangue. Também para desgraça das elites, tantas vezes desligadas dos sentimentos das pessoas comuns.

Todos ansiamos pela paz, também os liberais e de direita. A pomba não é património da esquerda. Mas queremos uma paz com honra. Também por isso consideramos uma ignomínia o Nobel concedido ao presidente Santos, que é o Nobel da ira, o concedido em nome dos progressistas de todo o mundo, sempre tão pouco democráticos e no fundo tão déspotas.

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