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sexta-feira, 21 de outubro de 2016

A direita estupidamente moderna - Miguel Angel Belloso, DN, 21/10/16

O socialismo convencional está em crise no meu país. Há um par de semanas que o líder do PSOE, Pedro Sánchez, foi deposto pelos seus próprios companheiros, graças a Deus, e que uma gestora tenta reconstruir o partido - uma tarefa verdadeiramente colossal. Numa questão de dias, deve decidir também se permitirá a investidura de Rajoy ou ajudará, caso contrário, à convocação de novas eleições, que seriam as terceiras depois de quase um ano sem governo. Há muitas causas que explicam a crise do Partido Socialista de sempre, e a sua deriva radical, mas uma das mais importantes é que a direita tem vindo a ocupar progressivamente o espaço da social-democracia, intensificando as políticas redistributivas, sustentando e até ampliando o edifício do Estado social - as pensões, a educação, a saúde - e defendendo sem reservas o papel do Estado na sociedade. Talvez isto sirva, e assim tem sido, para ganhar várias eleições mesmo perdendo a maioria absoluta e, por isso, sem capacidade até à data para formar governo, mas é uma estratégia inútil para enfrentar os desafios do novo mundo. A direita que no seu tempo representou Aznar, cheia de ideias e de ambição, foi substituída progressivamente por outra que só aspira a reter o poder de qualquer maneira, algo que para mim é inaceitável.

Cristina Cifuentes, por exemplo, que é a presidente da Comunidade de Madrid, representa esta direita cool de que falo - no sentido quente da palavra -, a que quer estar na moda, a que tem a pretensão de despertar os menores receios possíveis porque ainda vive dominada por um complexo de culpa que está obsessionada em expiar. Eu votei na senhora Cifuentes, apesar de ter de reconhecer que sempre votei no PP. Quando a candidata da direita era a sua antecessora Esperanza Aguirre, fi-lo com paixão, agora de maneira resignada. A senhora Aguirre cometeu mil erros na sua vida, entre os quais o mais importante foi ter-se rodeado de muitas pessoas medíocres e noutros casos venais. Mas é uma política que tem certos princípios e valores. Alguns poderão dizer que o seu comportamento não foi coerente com o predicado, e estarão certos, mas é a presidente que construiu as bases da prosperidade de Madrid com a sua política de baixos impostos, uma administração pequena e eficaz que pudesse ser assistida na prestação de serviços pelo setor privado, e com a liberdade mais ampla possível para abrir e desenvolver os negócios.

A senhora Cifuentes, que tem um currículo imaculado de pertencer à direita há décadas, não tem nenhum princípio que se conheça e, a ter algum, faz o maior esforço possível para ocultá-lo porque a sua única obsessão é gerar a menor rejeição e conseguir o maior apoio possível. Deu boas provas disso há umas semanas no programa de debate noturno e traiçoeiro que a estação de televisão espanhola La Sexta tem aos sábados - e que se pode ver pela internet - onde apareceu para reivindicar que as ideologias são algo do passado e que o seu único objetivo é dar resposta aos problemas das pessoas. Eu abomino os dois postulados. Claro que importam as ideias e os valores! Não é o mesmo defender um governo pequeno, a simplicidade e previsibilidade das leis, a luta contra a inflação que corrói os mais débeis ou promover o mercado livre, como fez o prémio Nobel Hayek, que favorecer a sociedade dirigida e planificada que defendia Marx e que degenerou, quando foi testada, na escravidão e na pobreza mais absolutas. Nesse tal programa de televisão, a inefável Cifuentes pô--los ao mesmo nível. A Hayek e a Marx. A Deus e ao diabo. E veio dizer que os rótulos, entre eles o de liberal, são perfeitas antiguidades dignas de figurar nos museus. Não é verdade. Eu rejeito, porque me parece implausível, que o Partido Popular que ambiciona a atual presidente da Comunidade de Madrid, e quem sabe até o próprio Rajoy, tenha de se converter numa formação monstruosa, sem casa nem lar, nem amo ou senhor conhecido do ponto de vista ideológico, quero dizer.

A deriva radical que adotou o Partido Socialista desde os tempos de Zapatero, aprofundada pelo deposto Sánchez, permitiu ao PP ganhar várias eleições mas à custa do mau emprego dos princípios fundadores que lhe deu Aznar: uma defesa clara do liberalismo como opção económica, a confiança e o otimismo na capacidade dos indivíduos de forjar o seu futuro e a ambição por ser um grande país. Este é o legado que tem vindo a perder-se com líderes cool, ao estilo de Cifuentes, e de outros jovens elevados à direção do PP que não querem saber nada das ideologias porque só estão interessados em ter sucesso entre as pessoas. Mas que a direita ocupe o espaço da social-democracia redistributiva, que só conduz ao fracasso e à correspondente frustração, é uma anomalia histórica. Alguns de nós ainda acreditamos que o papel da direita é combater o igualitarismo, estimular a capacidade de criação de riqueza que cresce em todas as pessoas e dar asas aos indivíduos em vez de proteger o coletivismo. Contra a tese de Cifuentes, eu penso que os políticos não estão para resolver os problemas das pessoas, mas para lhes dar os instrumentos concretos para que elas próprias os resolvam. Caso contrário, estaremos a criar, o que já é um facto, cidadãos medíocres e dependentes do Estado que naturalmente votarão no partido que lhes dê melhor de comer em vez de lhes permitir desfrutar o mais possível do fruto do seu trabalho. Alguns de vocês perguntarão com razão por quê, apesar da diatribe, votei na senhora Cifuentes, como votei no PP nas eleições gerais apesar do estado degenerativo no qual acredito que se encontra. E a resposta é bastante simples: porque sou um idiota, mas um idiota responsável. Porque qualquer outra opção poderia ser muito pior.

Mas isso não me impede de ansiar e lutar pelo ótimo. Entender a política em termos de pura gestão dos assuntos públicos, mesmo que seja o mais eficaz possível, sem saber o que se quer fazer com o poder quando o temos, é a última aberração da modernidade. Está a acontecer também no Reino Unido, às mãos da nova primeira-ministra conservadora, a senhora May. Também ela aspira a um novo centro político localizado entre a esquerda socialista e o liberalismo. Também ela acha que a Grande Recessão foi o fracasso do capitalismo, e no fundo pensa, como os socialistas de todos os partidos de que falava Hayek, que os indivíduos carecem de sentido fora dos grupos sociais de que formam parte e dos que extraem a sua verdadeira identidade. A mim, esta classe de pensamento, baseado na hostilidade frente ao mercado e ao indivíduo, parece-me um retrocesso intelectual a caminho de uma hipotética Idade de Ouro que nunca existiu e que, para ser reconstruída, é preciso usar o poder do governo contra uns cidadãos valiosos e responsáveis aos quais se impede pouco a pouco que deem o seu melhor até anulá-los por completo.

Contemplar a direita estupidamente moderna que nos calhou na rifa é um autêntico pesadelo. E votar nela apesar de tudo, como eu faço, é um ato masoquista digno de todas as censuras possíveis. Sinceramente, sinto muito.

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